Geração Confinatto: Mitos e verdades sobre o ganho compensatório no confinamento – Parte 1

Tema pesquisado desde o começo do século XX, que ganha força a partir dos anos 50 nos Estados Unidos, o ganho compensatório ainda hoje apresenta várias incógnitas, sendo resultado da interação de uma gama de variáveis. Este é um tema controverso e alvo de pesquisas ao redor de todo globo.

Definido como o crescimento animal acelerado em uma fase após um período de restrição alimentar, o ganho compensatório é sem dúvida uma variável de difícil predição, uma vez que, é influenciado por uma série de fatores, tais como: estágio fisiológico dos animais; severidade e duração da restrição, e padrão de crescimento durante realimentação.

No Brasil, o uso do termo “ganho compensatório” passou a ser muito utilizado em meados da década de 70, com o início do confinamento como estratégia de terminação dos animais. Nesta ocasião, os animais apresentavam – na fase inicial do confinamento – ganho de peso superior aquele predito com a formulação da dieta. Sem muito embasamento na literatura nacional e com o aporte dos resultados de pesquisas americanas, passou-se a atribuir esse aumento no desempenho como sendo um “ganho compensatório”.

Desde então, a estratégia de explorar o ganho compensatório passou a ser utilizada por inúmeros técnicos e produtores, que por muitas vezes recomendam a criação animal por longos períodos em sistemas extensivos de produção, muitas vezes, com períodos de restrição alimentar severa e perda de peso, para, por fim, serem confinados e terminados, expressando assim um crescimento superior aos animais em crescimento contínuo.

Apesar do grande número de publicações sobre o tema, o número de estudos envolvendo o sistema de produção nacional é pequeno e superficial, o que limita por muitas vezes a correta interpretação e exploração do que seria então esse crescimento acelerado dos animais.

Crescimento animal X Sistema de produção

Entender a forma que ocorre o crescimento e desenvolvimento dos animais, assim como as mudanças que ocorrem na dinâmica de deposição de tecidos (osso, músculo, gordura) com o aumento de peso corporal, permitem definir as exigências nutricionais em cada fase da vida do animal.

Ao nascimento, há cerca de duas partes de músculo para cada parte de osso na carcaça de um bezerro. Os tecidos musculares crescem relativamente mais rápido do que o tecido ósseo no período pós-parto. A gordura tem uma pequena participação na carcaça no momento do nascimento e aumenta lentamente até que, dado um plano nutricional adequado, quando o animal entra na fase de terminação, passa a ser depositada em uma taxa crescente. A gordura é o tecido mais variável no corpo do animal, sendo assim a manipulação da composição da carcaça pode ser feita por seleção genética ou uso de estratégias nutricionais pelo controle da proporção de gordura.

Segundo Fowler (1968), o crescimento pode ser visto por dois aspectos. O primeiro é medido como um aumento de massa corporal por unidade de tempo. O segundo envolve mudanças na forma e composição corporal, resultantes do crescimento diferencial dos componentes corporais.

O peso vivo normalmente é tido como uma medida de crescimento total, mas existem vários fatores que podem limitar sua utilidade como uma medida de valor econômico. Em 1948, Callow já afirmava que “a carcaça é a unidade mais importante em estudos de carne, uma vez que traduz o valor do animal, tanto para o pecuarista como para o frigorífico”. Assim, a análise e comparação de resultados em dado sistema produtivo deveriam ser expressos com base na quantidade de carcaça produzida, porém a dificuldade reside na mensuração e determinação do rendimento de carcaça inicial.

Idade, peso, raça, sexo e históricos nutricionais podem afetar as proporções de osso, músculo e gordura em qualquer fase do aumento de peso, modulando a produção de carcaça por unidade de peso corporal. Uma vez que os quatro primeiros fatores citados são definidos previamente e cabem a cada sistema produtivo, a nutrição é o ponto comum que engloba todos os sistemas e que afeta diretamente o resultado, afetando o animal e a composição corporal do mesmo.

Cabe aqui traçar um paralelo e associar as fases da vida do animal com os cenários encontrados normalmente no sistema de produção brasileiro (Figura 1).

Talvez, um dos grandes gargalos do sistema produtivo da carne resida sobre a principal vantagem da produção animal nos trópicos: a produção forrageira. Ao mesmo tempo em que esse sistema permite a produção de uma arroba mais barata do que a produzida em outros sistemas (i.e. sistema americano-confinado), ele sofre o impacto do efeito da sazonalidade produtiva de forragem, resultando em alterações negativas na curva de crescimento e abate de animais com idades mais avançadas (3 a 4 anos). Essas alterações negativas na curva de crescimento são seguidas de alterações positivas em que o animal passa a ter uma maior taxa de ganho de peso. Para reduzir a idade média ao abate, há necessidade de se estabelecer metas de ganho de peso no período da seca e das águas (fase de recria) e também na fase de terminação.

Nos dias atuais, existe um consenso por parte dos técnicos – e de muitos produtores rurais – que há necessidade de se reduzir a idade média ao abate para manter a atividade competitiva. Dados da Agroconsult mostram que para manter o lucro líquido da década de 70, o sistema de produção nos tempos atuais teria que produzir 7,4 vezes mais @/ha ou a remuneração da @ deveria chegar a R$193,13. Certamente a segunda opção é a mais difícil, restando, portanto, o caminho da intensificação do sistema de produção.

Como dito anteriormente, o padrão de crescimento dos animais segue uma curva sigmoide, e à medida que o peso do animal aumenta, ocorrem mudanças na composição do ganho, em que passa a ocorrer maior deposição de gordura e menor deposição de proteína, o que provoca mudanças nas exigências dos animais. Para que a antecipação da idade de abate ocorra, tais mudanças devem ser criteriosamente analisadas e adequadas ao sistema produtivo.

Figura 1. Mudanças na composição corporal dos animais com o aumento do peso corporal.

Nutricionalmente, a eficiência de utilização da energia da dieta para deposição de proteína no corpo do animal é menor do que para a deposição de gordura em termos de Mcal consumida/ Mcal depositada. No entanto, a síntese de tecido muscular carrega consigo água (tecido muscular é composto por 75% de água), o que promove maior aumento em unidade de massa do que para a deposição de tecido adiposo. Para a mesma quantidade de energia disponível (10 kcal) há a deposição de 4 vezes mais tecido muscular (2,8g) que adiposo (0,7g), sendo a deposição de gordura mais custosa para o animal (Lanna, 1997) (Tabela 1).

Nesse ponto, é possível entender o porquê os animais apresentam menor eficiência biológica (deposição de gordura) na fase de terminação e o porquê a fase de recria é a principal fase para exploração do crescimento animal (deposição de tecido muscular). Fica claro aqui a importância do binômio pasto X confinamento para o sistema de produção brasileiro. O grande desafio nesse sistema seria adequar as limitações nutricionais em cada fase da vida do animal, na busca da rentabilidade e a sustentabilidade produtiva.

Tabela 1. Eficiência de deposição de energia, de peso dos componentes químicos e dos diferentes tecidos.

Energia Metabolizável

Disponível

Ganho

Energia

Componentes

Químicos

Tecidos

Para deposição de

proteína (10 kcal)

3,5 kcal

(35%)

0,64 g proteína

2,8 g músculo

Para deposição de

lipídio (10 kcal)

6,0 kcal

(60%)

0,64 g lipídio

0,7 g tecido adiposo

Fonte: Lanna (1997)

Entendendo o ganho compensatório

Visto a forte correlação entre aumento de peso, mudanças na composição corporal e exigências nutricionais, pode-se afirmar que as limitações ambientais é que determinarão a magnitude da resposta animal em determinado sistema produtivo. O estresse nutricional, causado pela limitação quantitativa e/ou qualitativa da ingestão de nutrientes, impede o animal de expressar o seu potencial de crescimento. A intensidade desse estresse pode causar redução ou até mesmo taxas negativas de crescimento (Hogg, 1991).

O ganho compensatório seria a fase posterior a determinado período de estresse nutricional na vida do animal. Segundo definição proposta por Bohman (1955), o crescimento compensatório refere-se ao fenômeno manifestado após um período de restrição alimentar, ao qual o crescimento contínuo do animal foi comprometido e que, após a readequação do fornecimento de nutrientes, ocorre o crescimento acima do normal, em animais da mesma idade e frame semelhantes.

Vários mecanismos podem interagir para produzir um crescimento mais acelerado e eficiente após períodos de restrição, tais como: maior consumo de ração, composição alterada de ganho e padrões alterados de utilização de energia (Carstens, 1995). No entanto, a predição do ganho compensatório é de difícil acerto, uma vez que fatores como: idade e maturidade fisiológica do animal, tempo e severidade da restrição e padrão de realimentação, podem afetar a resposta animal (Ryan, 1990)

A figura 2 ilustra um animal em crescimento contínuo e outro passando por restrições alimentares, apresentando um ganho de peso inferior. Após adequação da dieta, podem ser observadas três padrões de respostas (ganho compensatório). Na situação I, os animais apresentam uma taxa de crescimento superior aos animais que estavam em crescimento contínuo, igualando-se os pesos corporais ao final do período, nesse caso tem-se o ganho compensatório total. Em II, a taxa de crescimento continua superior, porém não é suficiente para igualar o peso corporal dos animais ao final do período, esse cenário seria o mais comumente observado e recebe o nome de ganho compensatório parcial. Por fim, teríamos a situação III em que os animais apresentam a mesma taxa de ganho dos animais que não passaram por restrição, sendo o ganho compensatório – nesse caso – nulo.

Figura 2. Crescimento contínuo X Crescimento compensatório

Além da grande variação no padrão de resposta quanto ao ganho compensatório durante o período de “realimentação”, um ponto tem que ser cuidadosamente analisado e discutido: a forma que está acontecendo o aumento de peso dos animais, ou melhor, quais os componentes do corpo do animal estão sendo afetados pela restrição e pelo crescimento subsequente.

Efeitos da restrição alimentar

Durante o período de restrição alimentar, uma série de mudanças e adaptações fisiológicas acontecem no corpo do animal, na busca do organismo em manter a homeostase e se adaptar ao menor aporte de nutrientes que chegam do sistema digestório.

Em uma condição de aporte energético restrito, o animal busca a adaptação pela diminuição da energia metabólica necessária para a manutenção (exigência de mantença) e também força o maior aproveitamento energético dos nutrientes disponíveis.

Sendo assim, é sabido que órgãos metabolicamente mais ativos, como fígado e trato gastrointestinal, são responsáveis por grande parte da energia exigida pelo animal (Ferrell et aI., 1986). Estes, mesmo somando peso inferior a 10% da massa corporal total do animal, podem gastar de 40 a 50%, do total de energia requerida (Ferrell, 1988; Johnson et aI, 1990.). Assim, uma das adaptações que ocorrem durante o período de restrição é a diminuição do tamanho dos órgãos, resultando na diminuição da exigência de mantença do animal.

Carstens et al. (1988) encontraram exigência de mantença para animais em restrição de 123 kcal/ kg de peso metabólico (PM), contra 140 kcal/ kg de PM para animais em crescimento contínuo. Reduções de 18%, 17% e 11,5% na exigência de energia líquida para crescimento, foram discutidas por Carstens et al. (1991), Sainz (1995) e NRC (1984), respectivamente. Com a redução nas exigências de mantença e uma maior disponibilidade de energia para ganho, as taxas de ganho médio diário são maiores quando comparados com animais que não passaram por processo de restrição (situações I e II, Figura 2).

Outro mecanismo adaptativo encontrado pelo organismo é em relação a produção hormonal. Hormônios relacionados ao crescimento e a eficiência de utilização energética são os mais afetados, sendo eles o hormônio do crescimento (GH), o fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1 (IGF-I), a insulina e os hormônios da tireoide (T3 e T4).

Período de realimentação

Após a readequação da dieta, visto as mudanças adaptativas que ocorreram afim de poupar energia, o crescimento animal seria beneficiado, sendo este o momento favorável para deposição de tecidos.

No entanto, após a realimentação, com o aumento energético e aumento da taxa de crescimento animal, os órgãos metabolicamente mais ativos que tinham reduzido de tamanho, precisam aumentar a sua taxa metabólica, uma vez que o aporte de nutrientes a ser metabolizado e a taxa de crescimento animal é maior.

Assim, existe uma fase metabólica em que a energia de mantença permanece inferior e/ou a eficiência de utilização da energia continua a ser elevada até que os animais se adaptem totalmente para o plano superior de nutrição. Segundo Ryan (1990), animais em realimentação apresentam maior consumo de matéria seca, maior ganho de peso e menor ganho em carcaça. Esse é um ponto importante, pois o animal pode ganhar mais peso (peso absoluto), porém o produtor é remunerado pela carcaça produzida e, neste caso, o ganho compensatório não é vantajoso.  Além disso, o aumento no consumo de alimentos promove uma piora na conversão alimentar, quando analisada em kg de alimento consumido/kg de carcaça produzida. Aqui o produtor precisa ficar atento para analisar os índices produtivos e não se impressionar com ganhos médios diários de peso corporal elevados.

O intervalo entre o aumento na taxa de deposição de tecidos e aumento no tamanho de órgão é um ponto ainda indefinido. Ou seja, não se sabe ao certo quanto do ganho compensatório, quando expresso, ocorre em carcaça ou tecidos não carcaça (órgãos).

Vale ressaltar que a idade e o estágio fisiológico do animal (crescimento ou maturidade) têm efeito direto sobre os mecanismos adaptativos, quanto a restrição alimentar e o ganho compensatório. No entanto, faltam trabalhos na literatura nacional demonstrando esses efeitos.

Apesar da carência de trabalhos avaliando o efeito da restrição nas diferentes idades dos animais, contrastando os padrões de deposição de tecidos de um animal jovem (recria) e de um animal adulto (terminação), alguns pontos podem ser levantados.

A falta de nutrientes promovido pela restrição alimentar comprometeria a formação de tecidos de um animal jovem, este teria redução do tamanho dos órgãos e da taxa de síntese de tecidos musculares, principal tecido depositado nesta fase. Esses efeitos poderiam comprometer toda vida futura do animal, dependendo da intensidade da restrição, uma vez que o comprometimento da síntese de tecidos musculares pode não ser completamente restabelecida no momento pós realimentação e/ou essa síntese ser direcionada para deposição de gordura, uma vez que o excesso de nutrientes durante a realimentação seria estocado como energia nos adipócitos.

Em contrapartida, animais mais velhos (a partir da puberdade) estão depositando proporcionalmente mais tecido adiposo, que é a grande reserva energética do animal. Um período de restrição, nesse caso, faria o animal mobilizar parte dessa reserva corporal afim de manter as atividades do organismo, e só em um segundo momento modular tamanhos de órgãos. Nesse caso, a resposta a realimentação seria diferente dos animais jovens e a intensidade da resposta diferente, não havendo grandes restrições no crescimento em carcaça.

Na literatura brasileira, como já mencionado, há poucas informações, porém o produtor rural precisa entender que o que interessa para ele é a produção de carcaça e que esta, para ser depositada numa intensidade maior, precisa que o animal esteja com os órgãos metabolicamente mais ativos em condições de metabolizar os nutrientes ingeridos.

No próximo texto abordaremos fatores que enxergamos hoje, e que não víamos antigamente, assim como estes influenciam as métricas de avaliação do desempenho do animal.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

 

* Texto publicado na integra nos Anais do Evento da Confinamento da Coan Consultoria de 2015; Agradecimento especial aos Professores Flávio Dutra Resende e Gustavo Rezende Siqueira para liberação do material.

Matheus Moretti

Matheus Moretti

Matheus Moretti é Gestor Técnico de bovinos de corte na Agroceres Multimix

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