O assunto é o milho II – Herói absoluto ou vilão implacável?

Introdução:

As atividades da suinocultura e avicultura são dependentes, em suas rações, do ingrediente milho. O mesmo milho pode ser o herói absoluto, quando essencial na composição das rações; e também pode se tornar vilão implacável, quando influencia diretamente nas perdas, pelas variações nutricionais sazonais ou pelos processos deficientes de secagem e armazenagem, ou ainda, por se tornar importante fonte das micotoxinas.

Os processos inadequados de beneficiamento do milho podem levar a ocorrências graves, pela indigestibilidade do grão ingerido nas rações e/ou pela alta contaminação de micotoxinas, levando a sérias perdas produtivas e alta mortalidade.

1. O milho como herói absoluto:

O milho é o principal ingrediente das rações de monogástricos, como: suínos, aves e coelhos, correspondendo a 60 a 85% das rações. Muito utilizado também como silagem de grão úmido para vacas em lactação e para alimentação de bovinos de corte em confinamento. O milho converte-se em herói absoluto, quando se torna o principal ingrediente das rações, em função da maior disponibilidade do grão no Brasil e, por ser fonte abundante de energia (cerca de 3.315 kcal EM para suínos e 3.400 kcal EM para aves – fonte: Normas e Padrões de Nutrição e Alimentação Animal – MAPA – 2000).

No Brasil, como principais substitutos do milho, estão: o sorgo, o trigo e o arroz, no entanto, não há quantidade suficiente desses ingredientes para garantir a utilização na substituição do milho, tornando-o ingrediente absoluto na composição das rações de suínos e aves.

Além disso, é utilizado também – recentemente, no Brasil, e já há muito tempo nos USA (Estados Unidos da América) – como fonte de óleo para a transformação do ETANOL de milho.

 

2. O milho como vilão implacável:

O milho, o ingrediente mais utilizado, torna-se vilão implacável quando não é tratado adequadamente para ser ingrediente das rações. Isso ocorre quando não passa pelos processos adequados de pré-limpeza convencional e mesa densimétrica; pela classificação e seleção inadequados dos grãos; secagem; teor de umidade; e armazenagem inadequados; variações nutricionais pela sazonalidade durante ano agrícola; como fonte de micotoxinas, como: as aflatoxinas, fumonisinas, zearalenona, DON; pela indigestibilidade; e pelo alto custo de aquisição do grão.

2.1. Sazonalidade do milho:

O milho vai mudando suas características bromatológicas durante o ano agrícola, alterando os seus níveis nutricionais, influenciando e alterando o desempenho produtivo dos animais.

Quando o milho é recém colhido (milho novo), temos a excelência nutricional, no entanto, enfrentamos o excesso de umidade e os efeitos colaterais da secagem. Com o passar do ano, o milho pode perder a qualidade conforme as condições de armazenagem. E no final (milho velho), temos o “milho de fundo de silo”, com a deposição das impurezas, aumentando os efeitos das contaminações pelas micotoxinas.

2.2. Alto custo do milho:

O milho se tornou “vilão”, para os suinocultores e avicultores, quanto mudou de status e de patamar de custo. Tornou-se, no Brasil, um produto de exportação (um produto escasso). Dessa forma, com o aumento de demanda, passou a um outro patamar de custo e nunca mais retornou, e não retornará mais aos patamares mais baixos, como acontecia em todas as safras anuais.

Valores no estado do Mato Grosso – maior produtor – de R$ 9,00 a saca de 60 kg ficaram para a história.

O que tem acontecido é o milho manter-se em valores altos ao longo do ano, dependendo apenas das variações do mercado. Segundo a fonte Notícias Agrícolas, o milho se mantém no patamar de R$ 40,00, por saca de 60 kg. Os contratos futuros para março de 2019, subiram 3,79%, passando de R$ 40,90 para R$ 42,45 por saca de 60 kg.

Fonte: ACCS (Associação Catarinense de Criadores de Suínos) – site.

O preço do milho apresentou um aumento considerável desde 2007 (até agora), com um pico histórico da crise do milho em 2016, chegando ao preço médio da saca de 60 kg em R$ 49,20. O preço aumentou do ano de 2007 (R$ 24,60) até o ano de 2019 (R$ 43,20), em 43,05%.

Em 2016, na grande crise do milho, houve desabastecimento do ingrediente em Santa Catarina. Agroindústrias catarinenses utilizaram trigo nas rações, o que encontraram disponível, com qualidade duvidosa e graves perdas zootécnicas e econômicas.

O estado de Santa Catarina é o maior produtor de suínos do Brasil, o segundo em produção de aves, e o quarto em produção e leite, no entanto, produz cerca de 50% da quantidade de milho que consome, tendo que importar de outros estados brasileiros, e dos países como Paraguai e Argentina.

Está em planejamento a “Rota do Milho”, a qual trará milho do Paraguai para atender a Agroindústria Central Aurora Alimentos, em Chapecó – SC. A rota inicial é no Paraguai, passando pela Argentina, até chegar em Santa Catarina. O objetivo é reduzir os custos com o milho e equilibrar o mercado local. Entraves em questões ambientais têm sido causa do atraso na implantação da rota.

A estimativa da produção de grãos, para a safra 2018/19, é de 233,3 milhões de toneladas. O crescimento deverá ser de 2,5% ou 5,6 milhões de toneladas acima da safra anterior (fonte – CONAB – Resumo Executivo).

A safra de milho está prevista em 95 milhões de toneladas, com um estoque de passagem favorável para 2020 de 13 milhões de toneladas. A safrinha de milho deverá ser de 66 milhões de toneladas, 24,52% maior do que o período anterior. Por decisão do presidente americano, Donald Trump, poderá ser incrementado a produção de etanol de milho em 15%, o que poderá reduzir a exportação de milho americano, influenciando no mercado global do grão. Fonte: Alexandre Mendonça de Barros – MB – Agro.

2.3. Amido resistente: indigestibilidade

Amido resistente é, por definição, o amido que passa incólume, ou seja, sem ser digerido, pelo intestino delgado, chegando ao intestino grosso para ser digerido de forma semelhante às fibras. (Fonte: Revista de Nutrição, vol. 16, número 02).

O excesso de calor, muitas vezes, para acelerar o processo da secagem do milho, provoca um maior percentual de amido resistente, sendo causa de diarreias, indigestão e fermentação indesejável pela indigestibilidade do milho no intestino dos suínos.

2.4. Milho como fonte de micotoxinas:

As micotoxinas são metabólitos tóxicos produzidos por algumas espécies de fungos presentes nos grãos. A toxidade das micotoxinas a animais e humanos tem como consequência a incidência de doenças diversas, dentre as quais alguns tipos de câncer. Espécies de fungos, como: Fusarium, Aspergillus e Penicillium, são comuns em grãos de milho podres ou mofados e, também, naqueles aparentemente sadios (Fonte: Embrapa milho e sorgo).

Além do farelo de trigo, e do farelo de soja, o milho é a principal fonte de micotoxinas por representar de 60 a 70% do total componente das rações de suínos e aves.

2.4.1. Tipos de micotoxinas:

O gênero Aspergillus produz as micotoxinas: aflatoxina e ocratoxina. São micotoxinas polares, consideradas micotoxinas de armazenagem.

O gênero Fusarium produz as micotoxinas: fumonisina, zearalenona, tricotecenos (Don e T2), com baixa polaridade, consideradas as micotoxinas de solo (lavoura) (Fonte: Informativo Vetanco).

Fusarium – Foto: Wikipédia

 

Aspergillus – Foto: Universidades dos Açores

Em função da grande e crescente quantidade de micotoxinas, é necessário um constante monitoramento das micotoxinas do milho, com ferramentas mais rápidas, ou de obtenção lenta, para orientar a decisão da dose e do uso do melhor adsorvente, e/ou inativador enzimático.

2.4.2. Métodos Utilizados:

  1. a) Quantificação pela técnica de Cromatografia Líquida de Alta Eficiência (CLAE/HPLC) com detecção por fluorescência (FLD) e derivatização pós-coluna eletroquímica com brometo;
  2. b) Quantificação pela técnica de Cromatografia Líquida de Alta Eficiência (CLAE/HPLC) com detecção por Arraste de Diodos (DAD);
  3. c) Análise por LC-MS/MS multiresíduo de amplo espectro, método rápido de excelente custo / benefício.

3. Ocorrência clínica relacionada aos processos inadequados do milho:

O fato aconteceu em uma granja de suínos no município de Concórdia, no oeste do estado de Santa Catarina, com 1.200 matrizes, para a produção de leitões descrechados, na data de 07 de março de 2019.

  • 3.1. Sintomas observados:

Os leitões estavam na fase de ração inicial II (final), os quais reduziram o consumo de ração ou pararam de comer, inchando o abdômen e morrendo (alta mortalidade). Ocorreu cinquenta mortes de leitões em quatro dias.

O relato evidencia que não há estocagem de milho na propriedade, ou seja, o grão chega da lavoura, passa pela secagem e vai imediatamente para a moagem e uso na fabricação das rações.

Na ocasião, a ração inicial II, que estava no silo, estava muito quente ao toque, com intensa umidade e odor desagradável.

  • 3.2. Necropsias e lesões:

Foram realizadas várias necropsias em leitões. Dois leitões foram sacrificados: leitões com o abdômen totalmente dilatado, com presença visível de líquidos na cavidade abdominal, conforme as fotos abaixo:

Leitões com abdômen dilatado, com visível acúmulo de líquidos

Foram sacrificados pela granja sessenta leitões, apelidados de “leitão bola”, com o mesmo aspecto acima.

No total, morreram nesse lote cerca de 88 leitões, em torno de 12% do lote de leitões desmamados.

Abdômen do leitão com intensa peritonite, com material purulento.

Todas as vísceras abdominais estavam grudadas, com dificuldade de identificação.

Líquido leitoso saindo do abdômen após o corte a faca.

  • 3.3. Diagnóstico clínico:

Peritonite por fermentação do milho com excesso de umidade

Pelo relato da granja, isso ocorreu devido à incapacidade financeira para armazenar uma maior quantidade de milho, ocasionando o uso imediato do ingrediente nas rações, com o tempo insuficiente para a secagem adequada e estabilização dos grãos no silo de armazenagem.

O milho com excesso de umidade não é digerido corretamente nos intestinos, fermenta, ocorre produção abundante de gases, e promove o caos digestivo. Todos os processos digestivos param de funcionar, ocorre acúmulo de líquidos, peritonite, intoxicação, choque e morte.

  • 3.4. Tratamento:

Não há tratamento, a não ser a substituição do milho inadequado nas rações por um milho processado adequadamente. Para amenizar, pode-se utilizar ácidos orgânicos via água, e/ou a metionina via ração, como antitóxico.

 

4. Conclusões:

O milho é, e continuará sendo, pelo menos no Brasil, o principal componente das rações de suínos e aves, pela sua disponibilidade e por ser fonte abundante de energia, apresentando os melhores resultados zootécnicos.

Em função do seu intenso uso, é o herói absoluto das rações, no entanto, se mal processado, e com variações de alta nos preços, poderá se tornar um vilão implacável, com inúmeras perdas na produção e na viabilidade econômica das atividades de suínos e aves.

Devido sua importância econômica e produtiva, o milho deveria ser alvo de maior planejamento nas empresas, cooperativas e granjas, tanto quanto às questões econômicas (compra, estocagem), quanto às questões qualitativas (processamento, níveis nutricionais e micotoxinas).

Temos que monitorar constantemente o milho, com análises bromatológicas, devido à sazonalidade do grão, para atualização de fórmulas, e quanto aos níveis de micotoxinas, para as devidas tomadas de decisões preventivas e corretivas.

5. Referências Bibliográficas:

Normas e Padrões de Nutrição e Alimentação Animal – MAPA – 2000.

– Revista de Nutrição, vol. 16, número 02).

– Embrapa milho e sorgo – Documentos, 193.

– Informativo Técnico Vetanco 007.

– Informativo – Laboratório Eurofins – Micotoxinas.

– Notícias Agrícolas – março de 2019.

– ACCS (Associação Catarinense de Criadores de Suínos) – site.

– Alexandre Mendonça de Barros – MB – Agro.

– CONAB – Resumo Executivo – safra 2018/2019.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

Alessandro Crivellaro

Alessandro Crivellaro

Alessandro Crivellaro é Consultor de Serviços Técnicos para Saúde Animal na Agroceres Multimix.

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