Principais causas de aborto na produção de suínos

0
483

Aborto

O aborto é caracterizado pela expulsão dos fetos antes do período de término da gestação, que gira em torno de 112 a 116 dias. O nascimento antes de 110 dias é considerado aborto, desde que nenhum dos fetos sobreviva por mais de 24 horas (Sobestiansky e Barcellos, 2007).

As causas de aborto (Figura 1) podem ser classificadas em infecciosas e não infecciosas. Mores et al., (2011), relataram que as causas infecciosas correspondem à 30-40% dos problemas reprodutivos, enquanto as causas não infecciosas correspondem aos outros 60-70%.

Figura 1. Aborto em baias coletivas                                                                                                               Fonte: Collell (2011) – https://www.3tres3.com.pt/artigos/abortos-em-porcas-jovens_6291

De acordo com Wrathall (1971), as causas infecciosas podem ser classificadas em três grupos:

Grupo 1: Trata-se dos patógenos oportunistas (bactérias e fungos comensais ou ambientais). Algumas espécies podem gerar doença sistêmica, ocasionando perda gestacional. Dentre elas temos Streptococcus sp. e Aspergillus sp. Também presentes neste grupo, estão as bactérias associadas a incidentes esporádicos de falha reprodutiva, como a Erisipela, Escherichia coli, Pasteurella spp, Staphylococcus spp, dentre outras;

Grupo 2: Destaca-se os microrganismos endêmicos presentes na maioria dos rebanhos suínos, como é o caso do Parvovírus (PPV) e;

Grupo 3:  Abrange os microrganismos de grande importância econômica para a granja, como a PRRS (Síndrome Reprodutiva e Respiratória dos Suínos), Circovirose suína, doença de Aujeszky e leptospirose.

Comumente, os sinais clínicos mais frequentes de aborto podem ser descritos da seguinte forma:

  • Presença de fetos e placentas nas instalações, o que impossibilita a observação pelos colaboradores, muitas vezes pelo fato de as fêmeas ingerirem os produtos abortados ou até mesmo por caírem dentro das canaletas de dejetos, gerando uma computação errônea dos dados, sendo registrados como retorno ao cio, alterando a taxa de abortos;
  • Febre;
  • Apatia;
  • Anorexia.

Além disso, com a vacinação, que é praticada nas granjas de suínos no Brasil, e os monitoramentos das doenças reprodutivas específicas nas granjas multiplicadoras, houve uma grande redução de causas de abortos por origem contagiosa. As principais causas estão relacionadas ao ambiente e por contaminação pelas micotoxinas.


Micotoxinas

As causas não infeciosas estão relacionadas aos fatores inerentes ao animal. A exemplo disso, uma das maiores preocupações como causa de abortos, atualmente, é a contaminação pelas micotoxinas, sobretudo a zearalenona (Figura 2). A contaminação pelas micotoxinas têm aumentado pelas diferentes práticas desde a lavoura, com a adoção do plantio direto, que possibilitou a resolução de um importante problema que é a erosão do solo e assoreamento dos rios, mas contribuiu para a proliferação dos fungos e, consequentemente, o aumento da produção das micotoxinas.

Figura 2. Fusarium graminiarum – produtor da zearalenona.                                                                                Foto: Pancaldi et al. (2010)

A baixa utilização de boas práticas de recebimento e armazenamento de grãos agrava o problema.

No combate a essas infecções estão os adsorventes, que reduzem os impactos no organismo animal, pois absorvem cerca de 95% das micotoxinas. O restante das micotoxinas é absorvido e pode, no caso da zearalenona, ocasionar perdas reprodutivas em fêmeas suínas, com possíveis ocorrências de prolapso uterino, prolapso vaginal, aumento do tamanho do útero,  atrofia dos ovários, infertilidade, efeito teratogênico com a síndrome das pernas abertas (splayleg), imunossupressão e os abortos.

Alguns cereais produzidos no inverno, como: o trigo, centeio e cevada, são mais susceptíveis ao crescimento de fungos do gênero Fusarium, que podem produzir e contaminar os grãos com zearalenona, fumonisina ou deoxinivalerol, entre outros. Por esta razão, esses cereais precisam de monitoramento direcionado para essas classes de micotoxinas.

Abortos precoces, até 35 dias de gestação (micro abortos), são atribuídos a fatores ambientais de estresse, como altas temperaturas (meses de verão), manejo de transferência de fêmeas, falta de água e a contaminação pelas micotoxinas. É menos provável nessa fase atribuir os micros abortos a eventos sanitários. Também há descrição de abortos e falhas de concepção, ocasionados por problemas de ordem fisiológica decorrentes do excesso de perda de massa corporal durante a lactação anterior.

Já nas demais fases, sobretudo no terço final de gestação, a probabilidade de os abortos serem de origem sanitária é maior. Normalmente, fêmeas que sofrem micro abortos não são descartadas, por ser considerado um evento inerente à fêmea. As fêmeas que sofrem abortos tardios devem ser descartadas, pelo prejuízo causado pela perda da gestação em estado avançado e pela probabilidade de ser uma causa sanitária. O descarte é uma possível forma de controle do problema na granja, embora não possa ser utilizado de forma indiscriminada.


Doenças que podem ocasionar abortos

A vacinação para Parvovirose (Parvovírus), Erisipelose (Erisipelotrix rhusiophatiae) e Leptospirose (Leptospira sp), são comuns na maioria das granjas, o que previne eventos de abortos causados pelos agentes causadores dessas doenças.

A Circovirose suína (PCV) também pode causar abortos e reabsorção embrionária, pois o vírus atravessa a barreira placentária. Quando associado ao Parvovírus, pode aumentar a incidência de leitões nascidos mumificados. A prevalência da cepa do circovírus mudou desde que foi diagnosticado no Brasil. No início, a prevalência era dos genótipos PCV2a, seguido do PCV2b. Entretanto, a partir das alterações na distribuição dos genótipos nas granjas brasileiras, com maior prevalência do PCV2d e PCV2b, as vacinas comerciais mudaram, já disponíveis em alguns laboratórios.

Doenças mais graves como a Brucelose (Brucella suis) e a Doença de Aujeszky (herpes vírus), esta, já erradicada no Brasil pelo Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), são controladas nas granjas multiplicadoras de fêmeas. As doenças, juntamente com a Tuberculose (Mycobacterium tuberculosis), são monitoradas e notificadas pelo MAPA e são pouco prováveis de ser motivo atual nas granjas comerciais, por causa da cadeia de comercialização de genética.

A Toxoplasmose (Toxoplasmas gondii), que causa abortos tardios nas fêmeas suínas, é transmitida por fezes de gatos infectados. Dois exemplos de melhoria da biossegurança estão relacionados à retirada dos gatos das granjas e o controle químico, eficaz, dos ratos.

A Síndrome Reprodutiva e Respiratória dos Suínos (PRRS), causada pelo Arterivírus, atravessa a placenta da fêmea suína gestante e produz graves perdas reprodutivas como aumento dos leitões nascidos mortos, mumificados, reabsorção embrionária e os abortos. Ocorre na Ásia, sobretudo na China; Europa e nos Estados Unidos; e em alguns países da América Latina, como: Bolívia, Uruguai e Chile e Colômbia.

O trabalho do MAPA e da Associação Brasileira das Empresas de Genética de Suínos (Abegs) é altamente eficiente e bem estruturado. A criação do setor de suínos da Estação Quarentenária na Ilha de Cananeia (EQC) garantiu ao Brasil uma importante evolução na biossegurança, o que ajudou a evitar a chegada de doenças economicamente importantes como a PRRS e a PED (Diarreia epidêmica dos suínos – coronavírus).

A falta de uso de uma dessas vacinas, protocolos vacinais inadequados, problemas de conservação das vacinas, e na aplicação delas, podem levar a ocorrências de abortos e outras perdas reprodutivas. Além disso, o controle dos ratos é fundamental para a prevenção da Leptospirose, e outras tantas doenças transmitidas por esses roedores.

As medidas de controle, para redução de ocorrência de abortos, baseiam-se em:

  • Medidas de biosseguridade e biossegurança;
  • Higiene das instalações;
  • Compra de matéria-prima de qualidade, para fabricação de rações.;
  • Condições de armazenamento e monitoramento para segregação de resíduos de risco e controle sobre a qualidade do processo;
  • Correta vacinação do plantel;
  • Evitar situações de estresse como: movimentações, mistura de lotes, temperaturas elevadas.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

 

Co-autor: Alessandro Crivellaro – Consultor de Serviços Técnicos para Saúde Animal na Agroceres Multimix.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Resolva a conta abaixo *OBRIGATÓRIO