Alternativas de fontes proteicas para dieta de bovinos leiteiros

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Na atividade pecuária de leite, a alimentação dos animais representa um dos maiores custos de produção, variando entre 45% a 55% do custo total. Sabe-se que a fração nutritiva mais cara dos alimentos concentrados é a fonte de proteína, portanto é de extrema importância que os estudos das diferentes fontes proteicas possam fornecer opções para os produtores e nutricionista, sem prejudicar a produção e diminuindo os custos produtivos.

No Brasil, o farelo de soja, coproduto da extração de óleo dos grãos, é a fonte proteica mais utilizada nos concentrados de dietas para vacas leiteiras, porém outros coprodutos também são considerados ingredientes proteicos e podem ser utilizados na alimentação animal, como o farelo de algodão, farelo de amendoim e DDG (grãos de destilaria). Temos também muitas opções de insumos e coprodutos regionais que podem servir como potenciais substitutos do farelo de soja. É importante salientar que um coproduto, na maioria das vezes, pode substituir não apenas a fração proteica da dieta, como, por exemplo, o caroço de algodão que é uma fonte de fibra efetiva, extrato etéreo (óleo) e proteína bruta. É primordial que uma análise bromatológica completa seja realizada para classificar o alimento antes de introduzi-lo na dieta. Muitos programas de formulação de dietas contêm um banco de dados de diversos coprodutos, porém muitos podem variar de acordo com a região, o fornecedor e a época do ano. Outro ponto importante é conhecer os potenciais efeitos tóxicos do alimento. Isso pode acontecer tanto por fatores antinutricionais (substâncias contidas nos alimentos que podem trazer prejuízo para o animal), quanto por concentrações elevadas de alguns elementos que, quando não corrigidas na formulação, podem trazer prejuízos aos animais, como, por exemplo, o enxofre, importante mineral que auxilia na fermentação do rúmen e manutenção do crescimento microbiano. No caso do enxofre, a exigência animal (0,2%MS) é próxima do seu grau de toxidade (a partir de 0,4%MS).

Para que possamos entender melhor a dinâmica do fornecimento de proteína para vacas em lactação, é necessário entender: Vacas não precisam de proteínas, mas sim de aminoácidos.
Esse é o grande segredo da nutrição proteica. Proteínas são macromoléculas biológicas, constituídas por uma ou mais cadeias de aminoácidos. Esses aminoácidos são o que diferenciam cada tipo de proteína. Por isso, quando comparamos apenas os teores de proteína de alguns alimentos, esquecemos de ver qual a composição dessa proteína, ou seja, seu perfil de aminoácidos. Esses aminoácidos são absorvidos no intestino, pelo animal, em 3 formas: proteína microbiana (PMic), proteína não degradável no rúmen (PNDR) e proteína endógena. Esse trio é conhecido por proteína metabolizável (PM), utilizada para as funções vitais, mantença, gestação e produção de leite. Dentre elas, a proteína microbiana é – sem dúvida – a mais rica e importante fonte de aminoácido para o animal. Ela é formada pela porção de micro-organismos, que utiliza a fração da proteína dos alimentos degradável no rúmen (PDR) e os carboidratos para se multiplicarem. A vaca se beneficia tanto dos produtos oriundos do crescimento microbiano quanto dos próprios microrganismos que, no final do seu ciclo, são absorvidos pelo animal. A PNDR é a fração da proteína do alimento que não sofre ataque microbiano dentro do rúmen, chegando intacto no intestino para absorção. Portanto, além de avaliar o perfil de aminoácidos do alimento, é de extrema importância entender a disponibilidade (digestibilidade) do alimento, juntamente com os teores de PDR (proteína que servirá de alimento para os microrganismos do rúmen) e PNDR (porção da proteína que chegará no intestino do animal).

Dentre os coprodutos proteicos mais utilizados para substituição do farelo de soja, temos o farelo de algodão. O farelo de algodão é obtido a partir da extração do óleo das sementes do algodão, podendo esse óleo ser usado para consumo humano e animal. A utilização do farelo de algodão na dieta de vacas leiteiras de menor produção pode ser alternativa para reduzir os custos da dieta, sem que haja prejuízo na produção e/ou saúde dos animais. Segundo o NRC (2001), o teor de PNDR do farelo de algodão é de 35%, menor que do farelo de soja, que é de 48%. O farelo de algodão é encontrado no mercado brasileiro – basicamente – com 38% de proteína e possui energia líquida para lactação inferior à do farelo de soja, e valores mais elevados de fibra. Outra característica importante do alimento é o perfil de aminoácidos, que apresenta teores de lisina e metionina menores do que o farelo de soja.

Outro alimento que gera muitas dúvidas no produtor é o farelo de amendoim. O alimento apresenta 50% de proteína bruta – em média – e altas taxas de proteína de degradável no rúmen (85,2% de PDR). Esse farelo apresenta alto teor de lisina (3,34% da PB) e baixo teor de metionina (1,17% da PB), quando comparados aos farelos comumente utilizados na nutrição de ruminantes. Sua utilização, em substituição ao farelo de soja, deve ser avaliada com cautela pelo nutricionista, pois os altos níveis de PDR (sendo que boa parte da PDR é composta por NNP) e alto potencial de intoxicação por micotoxinas podem inviabilizar a utilização do alimento. Em uma dieta para uma vaca de 30 litros/dia, à base de silagem de milho (12kg MS), milho (4,5Kg MS), polpa cítrica (1,28Kg MS) e mineral (0,5Kg MS), farelo de soja (2,68Kg de MS) e ureia (0,1Kg de MS), o teor de PDR é de 10,4%; e fornecemos 2.089 g de proteína metabolizável por dia. Em uma  eventual substituição do farelo de soja pelo farelo de amendoim (2,7Kg de MS/dia), é necessário a retirada da ureia para manter os mesmo níveis de PDR (10,7%) e, com isso, há uma queda de 248g de proteína metabolizável por dia, saindo de 2.089g/dia para 1.841g/dia, podendo causar uma queda expressiva na produção de leite. Contudo, a utilização do farelo de amendoim pode ser viável para vacas com produção de até 20 kg leite/dia, na qual o nível de inclusão não será muito alto (cerca de 2 kg/vaca/dia) e não haverá prejuízos no balanceamento correto de PDR e PM. Um fator a se considerar para a utilização do farelo de amendoim na dieta é a sua qualidade. A colheita do amendoim, se realizada quando o grão ainda está imaturo ou quando permanece no campo em condições de alta umidade, favorece o desenvolvimento de fungos do gênero Aspergillus e consequente produção de aflatoxinas. Dependendo da dose e da frequência em que essa toxina é ingerida pelos animais, independentemente da idade, estado nutricional e sexo, pode-se observar a diminuição no desempenho produtivo e no desenvolvimento, podendo levar à morte

O milho, apesar de ser comumente utilizado como fonte energética para as vacas em lactação, gera alguns subprodutos em sua cadeia que podem compor a dieta das vacas em lactação, em substituição do farelo de soja. Para produzir o etanol de milho a indústria, basicamente, retira parte do seu amido; cerca de 72% do grão de milho é composto por esta substância e todo o restante do material, chamado de coproduto, pode ser concentrado, como: o óleo, proteína, fibra, minerais e vitaminas. Logo, tem-se um material rico em proteína, podendo variar de 18% a 42%, dependendo de como a indústria trabalha; teor de extrato etéreo de 6% a 12% de óleo, dependendo se a empresa extrai parte para venda e; teores de fibras (FDN) de 36% a 54%, chamado de DDG. Uma grande vantagem desse alimento é sua alta concentração de metionina, aminoácido essencial e limitante para vacas em lactação, com 1,82% da PB contra 1,44% do farelo de soja. As indústrias podem também produzir variações do coproduto do etanol e produzir o DDGS ou WDGS. O DDGS é o grão destilado seco, com a adição de solvente no final do processo de fermentação. Já o WDGS é o mesmo grão com a adição de solventes, porém úmido. Logo, basicamente, existem os coprodutos secos ou úmidos, com ou sem adição dos solúveis. Para entendermos melhor como utilizar o DDG na alimentação das vacas leiteiras, assim como seus impactos econômicos e nutricionais, veja a tabela 1. Considerando uma vaca da raça holandes, de 650Kg de PV, produzindo 40Kg de leite por dia, alimentada com silagem de milho de boa qualidade, milho moído, farelo de soja, caroço de algodão e mineral, levando em consideração os altos custos dos ingredientes, custaria R$ 28,58/dia com o fornecimento de 2.642g/dia de proteína metabolizável (dieta 1). Em uma eventual substituição do farelo de soja pelo DDG, sem que haja prejuízos com o aumento do extrato etéreo (EE) e mantendo a quantidade de proteína metabolizável, é possível uma redução de R$1.68/vaca/dia (dieta 2). Houve também uma melhora no perfil de aminoácidos da dieta, com aumento da proporção de lisina e metionina.

Alimento

R$/Kg

Dieta 1

Dieta 2

Silagem de Milho

R$           0.09

40

40

Milho moído

R$           1.10

6

6

Farelo de Soja

R$           3.10

3.8

DDG

R$           2.20

4.3

Caroço de Algodão

R$           1.30

3.2

3.5

Ureia

R$           2.50

0.1

Mineral

R$           4.70

0.6

0.6

Custo

R$   28.96

R$   27.28

Nutrientes

Proteína Metabolizável (g/dia)

2,642

2,640

Lisina (%PM)

6.38%

6.74%

Metionina (%PM)

1.86%

1.95%

EE (%)

5.27%

6.43%

 

É importante salientar que essa simulação é hipotética e não levou em consideração outros fatores que interferem na produtividade das vacas em lactação, como: o tipo de manejo, sanidade, instalações, entre outros, portanto é recomendado que o nutricionista leve em consideração todo o sistema de produção antes de qualquer alteração na dieta.

Por fim, quando analisamos as alternativas de fontes proteicas na dieta das vacas em lactação, devemos compreender não apenas seu teor de proteína, mas também entender a porção que será degradada no rúmen (PDR), a porção que chegará intacta no intestino do animal e o perfil de aminoácidos do alimento. É importante que o nutricionista seja consultado para avaliar o coproduto, pois deve-se considerar os aspectos relacionados ao manejo da alimentação, formulação da ração, características da ração e custos. Sendo assim, entender como cada um desses diferentes coprodutos atuam em combinação com os mais variados insumos é de extrema importância para uma nutrição de precisão.

 

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

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