Boas práticas de manejo dentro da maternidade, visando bons índices produtivos

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Práticas de manejo

Práticas de manejo: Boas práticas dentro da maternidade, objetivando bons índices produtivos.

Na atual situação econômica em que o país se encontra, a suinocultura enfrenta constantes desafios e incertezas quanto à manutenção e importância de se ter bons índices de produtividade, pois eles permitem que a atividade seja economicamente viável ao produtor. Nesse cenário, a adoção de boas práticas de manejo reduz as perdas dentro do sistema de produção, o que é de extrema importância quando o objetivo é aumentar o retorno financeiro aos suinocultores.

Além disso, a suinocultura ainda se caracteriza pela adoção de práticas inadequadas de manejo, que limitam o desempenho zootécnico dos animais. Dentro da granja, a maternidade pode ser considerada como um dos setores mais importantes, pois direciona os leitões para as fases de crescimento e devolve as matrizes para o setor de gestação. Sendo assim, as práticas de manejo na maternidade interferem diretamente no desempenho, tanto das matrizes quanto dos leitões no pós-desmame.

Assim,  focaremos nossa atenção em boas práticas de manejo para os leitões do nascimento à desmama, visando enfatizar a importância das decisões tomadas nessa fase e seus impactos  sobre a produtividade de todo o plantel, mas para isso, é necessário o constante monitoramento do sistema de produção, assim como o esclarecimento e conscientização de todos os envolvidos na produção, pois somente assim a exploração da criação será rentável. Levaremos conosco 10 práticas importantes que trarão bons frutos dentro de nossas granjas.


Ambiência

Do ponto de vista de exigências térmicas, as matrizes e as suas leitegadas possuem temperaturas de conforto térmico distintas dentro da maternidade. A temperatura para porcas em lactação deve estar na faixa de 12,0-22,0ºC (QUINIOU & NOBLET, 1999). Leitões necessitam de uma temperatura ambiente ao nascimento de 32,5ºC e de 28,0ºC na 3ª semana de vida (PERDOMO et al., 1987). Diante desse contraste entre as categorias torna necessário a adoção de um sistema de regulação ambiental para as porcas, visando o resfriamento (controle de cortinas, piso resfriado e sistema de ventilação tipo túnel) e outro para os leitões, visando o aquecimento suplementar (escamoteadores com resistência elétrica ou piso aquecido). Estudos mostram que há uma queda de 30 a 40% na produção de leite de porcas, quando submetidas a um ambiente de calor (BLACK, et al., 1993; RENAUDEAU & NOBLET, 2001; KIM et al., 2013). Consequentemente, suas leitegadas sofrem e desmamam com o peso de até 25% inferior ao esperado (RENAUDEAU & NOBLET, 2001).

Porém, não basta fornecer uma fonte de aquecimento e um abrigo aos leitões para promover um ambiente adequados a eles. Devemos nos atentar aos detalhes, como: a limpeza, luminosidade e umidade, durante o ano inteiro, onde o leitão se sinta confortável para passar a maior parte do tempo em que não estiver mamando. Caso esse ambiente não contemple essas variáveis, eles se abrigarão junto da mãe, aumentando o risco de morte por esmagamento (ABRAHÃO et al., 2004). Um ponto importante para ajudar na diminuição das mortes, principalmente nos primeiros dias de vida dos leitões, seria treiná-los com vassouras, espanadores ou qualquer objeto que os obrigue a entrar, não devendo ser carregados até lá. Assim, eles saberão distinguir o local de se alimentar e o local de dormir.

  1. Práticas de Manejo do leitão pós-parto

1.1. Limpeza

Voltando nossas atenções para os acontecimentos após o parto, a primeira tarefa após o nascimento é a secagem do leitão, a limpeza do focinho e desobstrução das vias aéreas por meio de papel toalha para facilitar a respiração e evitar a perda de calor corporal. Produtos, como: pós-secantes (preferencialmente) ou maravalha podem ser utilizados para melhor absorção dos líquidos placentários e de matéria orgânica na pele dos recém-nascidos. Após a secagem, os leitões devem ser colocados no escamoteador, sob a lâmpada para o seu aquecimento e posterior procedimento de amarração e corte do cordão umbilical (FERREIRA, 2012).

1.2. Amarração do umbigo

A amarração, o corte e a assepsia do umbigo é uma prática que requer bastante atenção e cuidado, ela deve ser feita com um cordão de algodão, previamente esterilizado em solução desinfetante à base de iodo (10%). Para facilitar o corte é aconselhável segurar o animal pelas patas traseiras, de modo que a cabeça do leitão fique posicionada para baixo. O umbigo deve ser amarrado a uma distância de 3-5cm de sua inserção no abdômen, para que, em casos de necessidade (ex.: hemorragias), seja possível a realização do procedimento outra vez. É importante utilizar tesoura limpa e desinfetada para o corte do cordão, sendo que o local correto de corte é logo abaixo da amarração. Apertar o barbante com muita força pode resultar em ruptura do cordão umbilical. O contrário, pode levar ao sangramento e morte do leitão por hemorragia.

1.3. Fornecimento de colostro

A placenta das fêmeas suínas impossibilita a transferência de imunoglobulinas, proteínas, carboidratos, lipídeos, minerais e alguns fatores de crescimento que são importantes para o crescimento e proteção inicial dos leitões (BLAND et al., 2003). Nesse sentido, leitões devem ingerir o máximo possível de colostro, nas primeiras 4 a 12 horas de vida, pois é nesse período que há a maior absorção desses importantes nutrientes que garantirão um bom desenvolvimento e uma alta taxa de sobrevivência na maternidade e, posteriormente, na sua vida (WESTROM et al., 1985). Após os manejos de secagem, corte e desinfecção do umbigo, os animais podem ser marcados com número no dorso, conforme a ordem de nascimento, para direcionar as mamadas com o objetivo de proporcionar ingestão uniforme de colostro por todos os leitões.

Uma prática comum é marcar com números o dorso dos animais e direcionar a mamada dos 7 primeiros leitões que nasceram aos tetos com maior produção de leite. Após cerca de 40 minutos, esses leitões devem ser presos no escamoteador e o restante dos leitões que nasceram devem receber a mesma prática de manejo. Essa alternância entre os grupos garante que todos os leitões mamem quantidades semelhantes de colostro e evita a disputa excessiva por tetos, que consome muita energia dos recém-nascidos. Em situações em que a porca não puder fornecer o colostro, recomenda-se transferência da leitegada para matrizes recém-paridas (ABCS, 2014).

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1.4. Identificação

 Identificação é uma palavra que usamos constantemente dentro das nossas granjas, não é mesmo? É um tal de número de lote para cá, transferência de leitão para lá… Apesar da brincadeira, esse assunto é muito sério. Granjas que querem obter elevados índices produtivos devem prover a identificação de todos os animais dentro do plantel, pois isso facilita a rastreabilidade e otimização do trabalho no dia a dia. A marcação dos leitões, sem dúvidas, melhorará o controle do rebanho (idade do leitão, origem materna, paterna e lote) e deve ser realizada em conjunto a outras práticas de manejo (dia de corte de dentes e corte da cauda). Podem-se ser utilizados brincos, tatuagem ou marcação australiana. Não existe regra e sim uma necessidade de se fazer. Essa prática torna-se ainda mais necessária quando temos a reposição interna dentro da granja. Identificar as futuras matrizes recém-nascidas é fundamental para o sucesso do programa genético.

1.5. Transferência de leitões

Devido ao aumento da prolificidade das fêmeas, existe uma maior probabilidade de nascimento de leitões com peso desuniforme, por isso a equalização da leitegada é uma prática de manejo que deve ser tomada, visando uniformizar o peso dos leitões ao desmame. Antes da transferência, os leitões devem ter mamado o colostro (BARBOSA et. al., 2008). A transferência pode ser realizada até três dias de idade, porém é mais bem-sucedida no primeiro dia.

Lembre-se: transferir não é “pegar” qualquer leitão de uma porca e “jogar” em outra. Precisamos de critérios claros e objetivos. Alguns aspectos precisam ser considerados na transferência dos leitões: deve-se certificar que o número de leitões não é maior do que o número de tetos funcionais; adequar o tamanho e vigor dos leitões com a conformação dos tetos das porcas; garantir e não transferir leitões oriundos de leitegadas com histórico de enfermidades para uma leitegada normal.

Quanto melhor o manejo de uniformização nos três primeiros dias, menor a necessidade de movimentação entre leitegadas posteriormente. Entretanto, com o passar dos dias, é comum ocorrer atraso no desenvolvimento de determinados leitões, em decorrência de secagem de tetos. Nesse caso, deve-se retirar todos os leitões de mesma porca e colocá-los em uma mãe de leite, alojada na sala dos animais transferidos. A diferença de idade dos leitões e dias de lactação da fêmea que os adotar não deve ser superior a sete dias, para que a produção de leite seja compatível com a demanda dos leitões.

1.6. Leitões de baixa viabilidade

Sei que esse assunto gera um pouco de discórdia, mas é preciso se fazer uma pergunta: Uma balança em minha unidade de produção é um gasto ou um investimento? Se a resposta for investimento, que ótimo, pois estamos no caminho certo!

A pesagem dos leitões é uma atividade indispensável para monitorar esse indicador tão importante para o setor reprodutivo do rebanho. Com esses dados podemos definir as melhores estratégias nutricionais, modificações do ambiente térmico, renovação do plantel, etc.

Para isso, a pesagem pode ser realizada junto ao manejo de desgaste dos dentes e a marcação. Recomenda-se realizá-la, no máximo, até no dia seguinte do parto, para que se possa traçar estratégias nutricionais e práticas de manejo que visam incrementar o peso ao nascimento. A pesagem dos leitões é uma informação que demonstra, por exemplo, como está a oscilação entre o peso dos animais e qual a tomada de decisão que deve ser feita para correção desse problema dentro do plantel.

Segundo SOBESTIANSKY et. al (1998), em sistemas mais intensivos, em que os índices de produtividade são mais bem estudados, é aconselhável a remoção e sacrifício de animais que com peso ao nascimento inferior a 700g, visto que eles demandam um grande tempo de acompanhamento e, na maioria das vezes, não se desenvolvem como os demais leitões.

1.7. Desgaste dos dentes

O desgaste dos dentes é realizado para evitar que os leitões possam causar lesões no aparelho mamário da fêmea e nos demais leitões, durante brigas ou na própria estimulação do aparelho mamário. O desgaste dos dentes nunca deve ser realizado antes da primeira mamada, evitando assim que esse procedimento interfira na ingestão de colostro,- geralmente 24 horas após o nascimento – que é um período ideal para se realizar esse procedimento. É recomendável o uso de um aparelho desgastador e nunca alicate, pois o alicate pode, além de quebrar os dentes e provocar muita dor, provocar corte profundos na gengiva e nos lábios dos leitões. O desgaste dos dentes é uma prática que causa dor ao leitão e isso pode acarretar redução temporária à sucção de leite. Para a realização dessa tarefa, é fundamental que a cabeça do leitão esteja bem fixada e a boca, aberta. Deve-se desgastar o terço superior do dente, tomando cuidado para não lesar a língua, a gengiva e os lábios (EMBRAPA, 2006).

1.8. Corte da cauda

O corte da cauda (caudectomia) é um manejo adotado para prevenir o canibalismo nas fases de crescimento e terminação dos suínos. O ideal é que ela seja realizada nos três primeiros dias de vida, com um aparelho que permita cortar e cauterizar ao mesmo tempo, para prevenir hemorragias e promover a cicatrização mais rápida do tecido. É importante que o aparelho seja desinfetado, para diminuir a possibilidade de infecções. O corte deve ser uniforme e a cauda após o corte deve apresentar 2/3 do tamanho natural (NUNES, 2014).

1.9. Aplicação de ferro

O leitão nasce com reserva de, aproximadamente, 20mg de ferro no organismo e sua necessidade diária é de 5mg por dia. O leite da porca fornece somente 1mg de/leitão/dia, sendo assim, a suplementação do ferro se faz necessária. Recomenda-se a aplicação de 200mg de Ferro Dextrano, via intramuscular (no músculo do pescoço), no 2º ou 3º dia de vida do leitão. Deve-se utilizar ferro de boa qualidade, além de ter rigoroso cuidado em sua aplicação, evitando refluxo do produto, o que pode levar à ocorrência de anemia entre o 5° ao 10° dias após a aplicação de ferro (ABCS, 2014).

1. 10. Castração dos machos

A castração dos machos na suinocultura visa a redução do odor e sabor desagradáveis na carne desses animais. É um procedimento cirúrgico que deve ser realizado ainda na primeira semana de vida (5-7 dias), com o objetivo de diminuir o risco de hemorragias e infecções. É importante manter os materiais (bisturi, solução desinfetante e luvas) bem higienizados. O primeiro passo é a limpeza da pele do saco escrotal com antisséptico, seguido de um corte longitudinal na bolsa escrotal sobre cada testículo, com exposição dos testículos e extirpação dos mesmos juntamente com o cordão espermático. Após a castração recomenda-se aplicar sobre o corte cirúrgico solução cicatrizante (WOLOSZYN, 2005). Alguns sistemas de produção utilizam uma vacina que atua no sistema imunológico do suíno, controlando as substâncias envolvidas no odor de macho inteiro, o que dispensa a castração cirúrgica.

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REFERÊNCIAS:

QUINIOU, N.; NOBLET, J. Influência de altas temperaturas ambientais no desempenho de porcas lactantes multíparas. Journal of Animal Science, Champaign, v.77, n. 8, p. 2124-2134, 1999. DOI: https://doi.org/10.2527/1999.7782124x.

PERDOMO et al. Efeito de diferentes sistemas de aquecimento no desempenho de leitões. Concordia: EMBRAPA – CNPSA, 1987. p. 1-3 (Comunicado Técnico, 122).

KIM, Sung Woo et al. Melhorando a eficiência da produtividade de porcas: nutrição e saúde. Journal of animal science and biotechnology, v. 4, n. 1, p. 26, 2013.

BLACK, J. L;, MULLAN, B. P.; LORSCHY, M. L.; GILES, L. R. Aleitamento da porca durante o estresse térmico. Livestock Production Science. v.35, p.153-170, 1993.

RENAUDEAU, David; NOBLET, Jean. Efeitos da exposição a alta temperatura ambiente e nível de proteína na produção de leite de porcas e desempenho de leitões. Journal of animal science, v. 79, n. 6, p. 1540-1548, 2001.

ABRAHÃO, A. A. F.; VIANNA, W. L.; CARVALHO, L. F. de O. e S.; MORETTI, A. de S.: Causas de mortalidade de leitões neonatos em sistema intensivo de produção de suínos. Brazilian Journal of Veterinary Research and Animal Science, 41:86-91, 2004.

BLAND, I. M.; ROOHE, J. A.; BLAND, V. C.; SINCLAIR, A. G.; EDWARDS, S. A.; Aparecimento de imunoglobulina G no plasma de leitões após a ingestão de colostro, com ou sem demora na sucção. Animal Science, v.77, p. 277-286, 2003.

WESTRON, B.R.; OHLSSON, B.G.; SVENDSEN, J.; TAGESSON, C.; KARLSSON, B.W. Transmissão intestinal de macromoléculas no leitão neonatal: efeito de Incremento do colostro, proteínas e inibidores de proteinase. Biology of the neonato, Lund, v.47, p.349-366, 1985.

BARBOSA, L. et al. Estimação de parâmetros genéticos para tamanho de ninhada em suínos usando análises multi-traits. Revista Brasileira de Zootecnia, v. 37, n. 11, p. 1947-1952, 2008.

WOLOSZYN, N. Procedimentos básicos para a produção de suínos nas fases de reprodução, maternidade e creche. Embrapa Suínos e Aves-Documentos (INFOTECA-E), 2005.

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