Boas práticas no manejo pré-abate de suínos

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Evitando que agentes estressores prejudiquem o bem-estar e a qualidade do produto final

Após o último dia dos animais na granja, antes do abate, muitos produtores acham que as perdas, em termos de rendimento e qualidade da carne, são mínimas, porém um manejo mal realizado nesse período pode comprometer o resultado final esperado, gerando uma surpresa nada agradável ao produtor. Para que isso não ocorra – e todos saiam perdendo – é responsabilidade das agroindústrias, produtores, transportadores e do poder público, assegurar boas práticas de manejo (COSTA et al., 2005).

Apesar de todos estarem envolvidos, os produtores são responsáveis por seguir as normas e acompanhar diretamente algumas etapas, como: tempo de jejum, transporte, tempo e distância do transporte. Indiretamente, algumas etapas podem ser monitoradas e solicitadas ao abatedouro, como: desembarque, tempo de descanso, escoriações/fraturas e padrão de qualidade da carne (JACINTO et al., 2017).

Com isso, iremos discutir um pouco mais sobre os pontos importantes que devem ser levados em consideração para as boas práticas do manejo de suínos pré-abate.


1. TIPOS DE ESTRESSE

O conceito de bem-estar da Farm Animal Welfare Council – FAWC (2009) considera que: para as condições de bem-estar do animal, os animais dentro da cadeia produtiva devem estar livres de fome e sede; dor; doenças; ter liberdade para expressar seus comportamentos naturais e estar livre de medo. Vários mercados que importam carne suína do Brasil exigem que essas liberdades sejam cumpridas.

Entretanto, muitos produtores entendem que o fim do clico produtivo se dá quando os animais chegam à idade e peso esperado, com uma conversão alimentar adequada, porém vamos explorar uma etapa crucial do processo produtivo que devemos dar uma atenção especial, o manejo pré-abate. Além de abertura de novos mercados, a adequação dos métodos de bem-estar na produção animal e no manejo pré-abate contribuem para o aumento de produtividade.

O estresse pode ser compreendido como qualquer fator que possa ferir essas liberdades e, nesse caso, o estresse tem sido associado com a ocorrência de mortes durante o manejo pré-abate ou com a chegada de animais ao abatedouro e estes podem ser causados por alguns fatores, como ilustrado abaixo:

Fonte: MONDELLI, 2000

Cada fator tem a sua importância dentro do processo e vamos discutir alguns pontos importantes dentro do manejo pré-abate, visando agregar informações para a correta tomada de decisão para evitar perdas econômicas e de qualidade do produto final.


2. JEJUM PRÉ-ABATE

O primeiro ponto após se definir a data de venda dos animais é separar os lotes destinados à venda e definir em qual horário será fornecido o jejum. Pode parecer estranho, mas o jejum pré-abate é de extrema importância para a cadeia produtiva (PELOSO, 2002). Para esse manejo o responsável deve retirar toda a ração por 16 horas antecedentes ao abate, nesse caso pode-se subtrair do tempo de transporte às 16 horas previstas e marcar em qual hora do dia deve-se retirar toda a ração. Lembrando que a água deve ser fornecida sem restrição aos animais. Uma dica seria deixar as luzes do galpão e/ou baias apagadas para não aumentar o estresse dos animais.

Essa prática contribui muito para a redução da taxa de mortalidade durante o transporte, diminuição do volume de dejetos e das ocorrências de vômitos durante o transporte, facilita e aumenta a velocidade do processo de evisceração na linha de abate no frigorífico e possibilita maior segurança alimentar (DALLA COSTA, 2006).


3. CONDUÇÃO E EMBARQUE DOS ANIMAIS NO CAMINHÃO

Essa fase pode ser considerada crucial para o produtor, pois nesse momento todos os animais previamente selecionados irão se dirigir para o caminhão que fará o transporte até o frigorífico (COSTA, et al., 2005). Nesse momento, é importante olhar a condição física dos animais, assim como se há algum animal refugo. Caso sejam notados animais com alguma anomalia é aconselhável a separação dos mesmos e que a venda do animal seja impedida, evitando maiores transtornos no frigorífico.

A tarefa pode parecer fácil, porém conduzir os animais da baia até o caminhão requer um bom planejamento. Não é recomendado a soltura de todos os animais no corredor do caminho de embarque, pois pode aumentar muito o estresse dos animais e, caso um animal venha a empacar, ficará muito difícil conduzir os demais com o corredor cheio. Uma dica pode ser a utilização de placas de condução e chocalhos para evitar o contrafluxo dos animais durante o embarque e possíveis lesões no colaborador que tem a missão de conduzi-los.

LEWIS & BERRY (2006) avaliando o efeito do tamanho do grupo, constataram que grupos pequenos, de quatro a cinco animais, levados à rampa de embarque, são mais fáceis de manejar e estarão menos suscetíveis ao estresse. FAUCITANO (2000), por outro lado, afirma que o momento de interação entre homem e animal é o estágio mais crítico antes do embarque, pois ao mudar de ambiente são induzidos a uma atividade física moderada nos corredores e rampas, o que pode deixar os animais nervosos, dificultando o manejo. Os animais não devem sofrer agressões, choques, traumas e qualquer tipo de manejo que prejudique seu bem-estar, mas esse processo deve ser feito da forma mais ágil possível.


4. TRANSPORTE E DESEMBARQUE NO FRIGORÍFICO

Após o embarque dos animais é dever do motorista compreender que sua carga é viva e merece algumas atenções especiais. É recomendado que os animais sejam transportados nas horas mais frescas do dia (início da manhã ou final da tarde) e molhados por um período de, no mínimo, 30 minutos, com auxílio de aspersores ou com mangueira de baixa vazão. Esse procedimento ajudará a abaixar a temperatura corporal dos animais de forma rápida e diminuir o estresse que o embarque provavelmente causou. Países importadores de carne suína vêm criando regulamentações para estabelecer normas especificas para atender o bem-estar dos animais.

Há pelo menos dois sistemas para medir o estresse e que podem ajudar os envolvidos no processo de tomada de decisão, sobre a melhor forma de transportar os animais. Um deles é através do comportamento e o outro pela avaliação na carne dos animais que pode levar a uma perda de qualidade (LUDTKE et al., 2012).

Além das possíveis perdas de qualidade da carne – segundo alguns estudos – o transporte é responsável por até 70% das mortes no período pré-abate e é possível reverter esse quadro seguindo algumas regras de transporte, como ilustrado a seguir:

Parâmetros

Valores

Temperatura Média

Até 30,0°C

Densidade

235 kg/m²

Piso

Antiderrapante

Tempo

Até 24 horas

Altura do Piso do Caminhão

> 90 cm

Fonte: (ABCS, 2016; WARRISS, 1998)

Para garantir um adequado transporte e reduzir as perdas por estresse, logo que chegam ao frigorífico, os animais devem ser desembarcados e levados para área de descanso. Quando não há possibilidade de desembarque imediato, os veículos devem aguardar em um local arejado, livre de sol e que os animais tenham acesso à água (TORREY et al, 2013).

Apesar de o desembarque ser considerado menos estressante que o embarque, existem alguns cuidados que devem ser tomados, como: a inclinação e piso da rampa de desembarque, desembarque gradual dos animais, acessórios de manejo adequados, ambiente protegido das condições climáticas, sem barulho para evitar aglomerações e pânico, estresse e hematomas em carcaças.

Após o desembarque, devem ser submetidos à dieta hídrica, para recuperar os animais desidratados durante o transporte, reduzir o estresse térmico, facilitar a eliminação do conteúdo gastrointestinal, evitando assim que as vísceras sejam rompidas durante a evisceração e posterior contaminação de carcaça (WSPA, 2010).


5. TEMPO DE DESCANSO E ABATE

Após passar por todos os processos que antecedem o abate, os animais precisam ficar em descanso por um período de, no mínimo, 3 horas. Esse período é importante para que os animais se hidratem, recuperem-se do estresse do transporte e desembarque e para retornar os níveis de glicogênio muscular que são importantes para o processo de transformação do músculo em carne (WARRISS et al., 2003). Também é importante que as baias de espera sejam bem projetadas – em temos de tamanho – para não se tornarem outro agente estressor aos animais. Para animais de 100 kg de peso vivo é indicado 0,60 m² por animal. Estudos mostram que o número de lesões provenientes de brigas pode chegar a 30% (JACINTO, 2017). Os animais devem ter livre acesso à água limpa e abundante, de modo que 15% dos animais devem poder beber água simultaneamente.

O ponto final do processo se resume ao abate propriamente dito e ele pode ser divido em algumas fases, que são importantes para garantir a boa qualidade da carne. A primeira dessas etapas é a recepção, e nela o uso de água aspergida sobre os animais que ajuda em 2 pontos: lavagem previa do couro e “antistress” dos animais. O importante é que a água seja clorada e que dure em média 3 minutos. Após isso os animais são conduzidos para a insensibilização, que consiste na instantânea e completa inconsciência. Geralmente, é feita por choque elétrico, com alta voltagem (350-750V) e baixa amperagem (0,5-2,0A), atrás da orelha do animal (fossas temporais) e esse processo dura em média de 6 a 10 segundos.

Para essa operação é de extrema importância que o frigorifico treine muito bem o colaborador responsável para que não seja dado um choque excessivo nos animais e em regiões incorretas, pois isso pode causar dor e queimaduras na carcaça dos animais.


6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para terminar essa troca de informações não deixe de conversar com todos os elos da cadeia (produtores, colaboradores, motoristas, frigoríficos e agroindústrias) e ressaltar a importância de se adotar boas práticas. Com toda certeza, os ganhos provenientes da aplicação de um correto manejo pré-abate serão colhidos por todos, sem exceção, e fortalecerão toda a cadeia.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

REFERÊNCIAS:

COSTA, O.A.; LUDTKE, C.B.; ARAÚJO, P. Sistema de produção de suínos no Brasil e o Bem-estar animal e a qualidade: Instalações e manejo. Botucatu-SP: Unesp, 2005.

DALLA COSTA, O. A. Efeitos do manejo pré-abate no bem-estar e na qualidade de carne de suínos. 2006. 162 f. Tese de Doutorado em Zootecnia, Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, Universidade Estadual Paulista, Jaboticabal, SP, 2006.

EMBRAPA SUÍNOS E AVES. Dados agrometeorológicos: . Acessado em: novembro 2019.

Faucitano, L. Efeitos do manuseio pré-abate sobre o bem-estar e sua influência sobre a qualidade de carne. Conferência virtual internacional sobre qualidade de carne suína. EMBRAPA, Concórdia. 2000.

FÁVERO, J. A.; DE FIGUEIREDO, E. A. P. Evolução do melhoramento genético de suínos no Brasil. Ceres, v. 56, n. 4, 2015.

JACINTO, J. S. et al. Influência do manejo pré-abate na qualidade da carne de suínos. 2017. Dissertação de Mestrado. Universidade Tecnológica Federal do Paraná.

Lewis, N. J. & Berry, R. J. Effects of season on the behaviour of early-weaned piglets during and immediately following transport. Applied Animal Behaviour Science, 100, 182-192. 2006.

Ludtke, C. B., Dalla Costa, O. A., Roça, R. d. O., Silveira, E. T. F., Athayde, N. B., Araújo, A. P., Mello Júnior, A. & Azambuja, N. C. Bem-estar animal no manejo pré-abate e a influência na qualidade da carne suína e nos parâmetros fisilógicos do estresse. Ciência Rural, 42, 532-537. 2012.

MONDELLI, G. Importância do emprego das técnicas de abate humanitário para os consumidores de carnes e frigoríficos. Monografia (Graduação em Técnicas de Abate) – Universidade do Sagrado Coração, Bauru.2000.

OLIVEIRA, R. F. et al. O estresse térmico agudo compromete a fisiologia dos suínos em crescimento. Archivos de zootecnia, v. 68, n. 262, p. 300-302, 2019.

PELOSO, J. V. Influência do jejum pré-abate sobre a condição muscular em suínos e seus efeitos na qualidade final da carne para industrialização. In: CONFERÊNCIA VIRTUAL INTERNACIONAL SOBRE QUALIDADE DA CARNE SUÍNA, v.2. 2001, Concórdia. Anais… Concórdia: EMBRAPA Suínos e Aves, 2002. p. 385-392.

TORREY, R. Bergeron, T. Widowski, N. Lewis et al. Transportation of market- weight pigs: I. Effect of season, truck type, and location within truck on behavior with a two-hour transport. Jornal of Animal Science – Ottawa-ON. 2013.

VELARDE, A. et al. Animal welfare towards sustainability in pork meat production. Meat science, v. 109, p. 13-17, 2015.

WARRISS, P. D. Optimal lairage times and conditions for slaughter pigs: a review. The Veterinary Record, v. 153, p. 170-176, 2003.

WSPA, lançamento do programa de bem-estar animal. http://www.wspabrasil.org/latestnews/2010 . acessado em 25/11/2019, Brasília, 2010.

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