Geração Confinatto: Castrar ou não, eis a questão

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Castrados ou não? Qual que vale a pena?

Uma dúvida que sempre paira na cabeça dos pecuaristas é sobre castrar ou não os machos destinados à recria e engorda. Será que vale a pena? Quanto deve ser a bonificação paga pelo frigorífico? Existem outros benefícios além do acabamento?

Pois bem, antes de começar a responder estes questionamentos, vale lembrarmos que, no passado, a castração foi uma técnica amplamente utilizada no Brasil, no qual, os animais “inteiros” eram penalizados na comercialização feita com o frigorífico.

O abandono da estratégia se deu com a consolidação da remuneração baseada no peso de carcaça, fazendo com que a castração perdesse espaço, uma vez que, machos inteiros apresentavam desempenho superior aos castrados. Hoje em dia, a castração é realidade apenas em alguns sistemas de produção, principalmente nos estados do RS e MS.

Com o passar dos anos, além da maior produtividade dos animais, vimos também a mudança acontecer no peso de abate. O desafio da reposição, com necessidade de diluição do ágio e/ou manutenção da relação de troca, demandou aumento do peso de abate, resultando em carcaças mais pesadas (Figura 1A). Entretanto, apesar do maior peso ao abate, o acabamento de carcaça foi uma característica que ficou em segundo plano, uma vez que se criou a ideia – não necessariamente verdadeira – de que: colocar gordura é caro, resultando assim em carcaças sem muito acabamento (Figura 1B).

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Figura 1. (A) Evolução peso de abate no Brasil, fonte IBGE; (B) Dados Farol da Qualidade, vermelho: indesejável; amarelo: tolerável; verde: desejável; fonte: Fábio Dias, Seminário Confinatto/2017;

Nos dias atuais, na contramão do cenário produtivo estabelecido, sem padrão definido, focado na produção do “boi comódite”, surge um mercado consumidor mais exigente em relação à qualidade da carne, o nicho do mercado Gourmet.

Sem dúvida, essa é uma nova demanda que vem ganhando cada dia mais força em restaurantes e boutiques especializadas, festivais de carne, chegando até aos churrasqueiros de finais de semana. O ponto comum a todos: pagar mais por um produto final diferenciado e padronizado.

Nesse cenário, surge então a necessidade de atender a esse novo nicho de mercado de carnes de “qualidade”, na qual as indústrias frigorificas vem trabalhando forte no lançamento de linhas especiais, voltadas na produção de animais jovens e bem-acabados, que, no caso de machos, normalmente exige-se que eles sejam castrados.

Para fomentar a produção desse tipo de carcaça pelos pecuaristas, são criadas as bonificações para “premiar” quem atingir os padrões de carcaças exigidos. Nesse caso, “premiar” não está entre aspas à toa, uma vez que, esse diferencial não pode ser visto apenas como um agrado da indústria e sim o valor pago por um produto diferenciado, com maior valor agregado e maior custo de produção quando comparado a carcaças comuns.

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Por que o animal inteiro ganha mais peso?

É sabido que machos inteiros desempenham melhor que machos castrados, sendo que o aumento do desempenho observado se dá pela maior produção hormonal do animal. A presença e atuação dos hormônios anabolizantes – produzidos pelo próprio animal – apresentam efeito direto sobre o aumento do ganho de peso e melhora do aproveitamento dos alimentos ingeridos, uma vez que, na presença desses componentes anabólicos, a energia consumida pelo animal é direcionada para o crescimento muscular.

Animais não castrados possuem composição do ganho de peso diferente dos animais castrados, apresentando maior deposição de tecido muscular do que tecido adiposo (gordura). Como o tecido muscular tem em sua composição grande quantidade de água, – cerca de 75% -, para cada grama de tecido muscular depositado, mais três gramas são somadas a esse peso, fazendo com que o ganho de peso muscular seja mais eficiente do que um animal depositando tecido adiposo.

No caso de animais castrados, a falta de compostos anabólicos em seu organismo, resulta na maior facilidade de deposição de tecido adiposo em comparação a um animal não castrado. Nesse caso, esse tecido é composto por apenas cerca de 15% de água e, por esse motivo, demanda mais energia para cada grama de tecido depositado, afetando assim o ganho de peso dos animais e consequentemente a conversão alimentar.

Ainda pensando no desempenho dos animais, outro fator que não podemos esquecer é o estresse causado pela castração, dependendo do método utilizado. No Brasil, a castração cirúrgica é a mais utilizada e, em sua grande maioria, é feita de forma errônea, sem aplicação de anestésico e desinfecção necessária, podendo causar sérias complicações pós-cirúrgicas, como: miíase, hemorragia e abcesso, podendo chegar, em alguns casos, à morte dos animais. Em consequência a essas complicações, no primeiro mês pós-castração, observa-se uma queda no desempenho, em que, quanto mais adulto os animais, maiores os efeitos.

Existe grande variação nos resultados de experimentos que avaliaram o efeito da castração no desempenho dos animais, as quais, podem ocorrer em função de diferentes fatores, como: sistema de produção, raça dos animais, idade da castração, entre outros (Tabela 1), sendo, na média, a redução observada de 17,5%.

Tabela 1. Efeito da castração na queda de desempenho dos animais

Fase

Sistema

Raça

Perda Desempenho

Referência

Recria Confinamento Charolês/Nelore -13,7% Restle, 2000.
Recria/Engorda Pasto ½ Angus x ½ Nelore -12,7% Nogueira, 2013
Recria Refeição ILP ½ Angus x ½ Nelore -16,5% Tipo, 2015
Engorda Pasto ½ Angus x ½ Nelore -23,5% Tipo, 2015
Engorda Pasto ½ Canchim x ½ Nelore -16,9% Itavo, 2008
Engorda Confinamento Sapo -19,0% Moletta, 2014
Engorda Confinamento úlcera -17,0% Prado, 2015
Engorda Confinamento Nelore -24,0% Marcondes, 2008
Engorda Confinamento ½ Angusx ½ Nelore -23,8% Miguel, 2013
Engorda Confinamento ½ Purunã x ½ Charolês -7,91% Cullmann, 2016

*Purunã – raça composta por igual proporção de sangue: Angus, Charolês, Caracu e Canchim.

Qual a remuneração para valer a pena?

Visto a queda no desempenho dos animais castrados e o maior custo de produção, a castração somente se justificaria frente a uma bonificação no momento da comercialização das arrobas produzidas. Nesse sentido, muito se discute quanto ao valor dessa bonificação, para justificar a castração.

Essa é uma pergunta difícil de ser respondida, uma vez que, a bonificação a ser paga para fazer a conta ficar interessante, dependerá de diferentes fatores, dentre eles: valor da arroba e redução na queda do desempenho. O desafio, nesse caso, é saber qual a perda de desempenho apresentada pelos animais em cada situação específica.

Pensando no mesmo tempo de cocho dos animais, com tempo mínimo de 90 dias e máximo de 130, no qual um animal não castrado apresenta um GMD (ganho médio diário) de 1,6 kg e rendimento de carcaça (RC) de 55% , variando a queda de GMD de 10 a 20% e travando o RC, temos que a bonificação para por arroba comercializada, para empatar a conta, apresenta uma variação de 3 a 10%, dependendo do cenário estabelecido (Figura 1).

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Figura 1. Bonificação para zerar a queda de desempenho em bovinos apresentando GMD de 1,6 kg e RC de 55%, em diferentes dias de cocho.

Pensando ainda que existem vários momentos de se realizar a castração – nascimento, desmama, recria ou animais já adultos –, a bonificação paga em cada um desses cenários seria diferente.

Vale a pena castrar?

Visto a variabilidade dos efeitos encontrados no GMD dos animais, a partir da castração, cabe a cada um identificar qual a bonificação necessária para viabilizar o projeto, sendo que, sem o bônus na comercialização, somente em cenários muito específicos valeria a pena ter esses animais castrados.

No Brasil, temos espaço para todos, visto seu grande mercado interno e externo. Sendo assim, existirá espaço para os mais variados mercados de carne, seja ele comódite ou de qualidade. Cabe ao produtor conhecer sua realidade, seus custos de produção, a aptidão da sua propriedade e da sua região, a demanda das indústrias frigoríficas em sua região e os mercados que elas podem atingir. Uma coisa é certa: de nada adianta produzir um produto diferenciado se não tiver um destino certo para ele.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

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