Estratégias nutricionais para vacas no período de pré-parto

0
1327
período pré-parto

O período pré-parto corresponde a 21 dias antes do parto, no qual as vacas passam por dramáticas alterações metabólicas e fisiológicas, em que se prepara para o parto e a futura lactação. Esse período é caracterizado por alterações hormonais decorrentes da proximidade do parto, maior demanda de nutrientes para a síntese de colostro e leite, desenvolvimento contínuo da glândula mamária, rápido crescimento fetal e, por fim, mudanças de ambiente, incluindo a introdução da vaca recém-parida em um novo grupo de vacas. Através de estratégias nutricionais é possível minimizar a incidência de possíveis distúrbios metabólicos e melhorar o desempenho produtivo subsequente além de promover uma qualidade de parto, garantindo também a saúde da cria.

Uma das principais consequência do estado fisiológico da vaca no período pré-parto é a redução de consumo de matéria seca (CMS). Nos 21 dias que antecedem o parto, há um decréscimo no consumo de matéria seca pelo animal e na contramão, há um aumento na demanda de nutrientes pela vaca, feto e membranas fetais. Com isso, boa parte da energia, proteína e minerais necessários para suprir as demandas nesse período são provenientes da mobilização de reservas corporais tais como glicogênio hepático e muscular, tecido adiposo, minerais do tecido ósseos entre outros. Disponibilidade e acesso a dieta são os principais fatores que podem vir a comprometer o consumo de alimento por vacas de leite.

A competição por alimento deve ser reduzida ao máximo. Vacas adultas têm a tendência de exercer dominância sob novilhas de primeira cria, o que pode gerar competição por espaço na linha de cocho e nas áreas de descanso. Fatores como conforto, espaço na linha de cocho, hierarquia, condição corporal no período seco, estresse térmico, entre outros, são fatores que afetam o consumo de MS de vacas durante o período pré-parto. Garantindo o espaço adequado de linha de cocho (60 a 70 cm/vaca) e área para descanso com sombra, reduzirá a possibilidade de competição e estresse nos animais mais submissos. Apesar das inúmeras variáveis que interferem no CMS, a disponibilidade de alimento é certamente o principal fator que influencia o consumo. Há uma alta correlação entre consumo de matéria seca pré e pós-parto. Vacas que apresentam alto consumo de alimento no período pré-parto são as que têm maiores CMS nas primeiras semanas de lactação e, portanto, menos propensas a distúrbios metabólicos.

Outro aspecto importante é o escore de condição corporal (ECC) das vacas no momento da secagem e do parto. A literatura recomenda ter vacas chegando ao parto com ECC entre 3,25 a 3,5. Vacas parindo muito magras ou muito gordas têm maiores probabilidade de ter problemas ao parto e no início da lactação. O ideal é que as vacas já cheguem ao momento da secagem com o ECC correto para o parto. Se a vaca chega ao parto com ECC acima de 3,50 ela terá maior risco de desenvolver diversos distúrbios metabólicos, como cetose, febre do leite (hiopocalcemia) e deslocamento de abomaso. Além disso vacas mais gordas apresentam menor ingestão de matéria seca (IMS) após o parto, o que agrava ainda mais os problemas. Porém, se o ECC ao parto for menor que 3,25 a produção de leite tende a ser menor, o animal não atinge o pico esperado de produção e pode perder peso em excesso, o que será desastroso para a eficiência reprodutiva.

Na suplementação mineral e vitamínica, o selênio tem um papel importante no sistema imunológico das vacas em período pré-parto. Esse micromineral essencial participa do complexo glutationa-peroxidase (GT-P), que funciona como parte do sistema imunológico e participa de respostas imunes específicas a infecções da glândula mamária. O fornecimento adequado de selênio e vitamina E para vacas e novilhas prenhes minimiza a incidência de retenção de placenta, infecções uterinas e mastite clínica no início de lactação.

O fornecimento contínuo e em quantidade adequada de selênio resulta em teores adequados de selênio no sangue das vacas após o parto e nos bezerros, trazendo respostas na saúde e taxa de sobrevivência das crias. Para animais em pastejo, é essencial o fornecimento de concentrados com níveis suficientes de selênio diariamente, eliminando qualquer variação de consumo dos suplementos minerais. Segundo o NRC (2001), a recomendação para vacas no período pré-parto é de 0,3 ppm (mg/kg) de selênio na matéria seca da dieta e de vitamina E de 1.000 a 2.000 UI por dia.

Um dos principais desafios das propriedades leiteiras é o controle da hipocalcemia ou “febre do leite”. Entre os últimos dias de gestação e as primeiras semanas de lactação, a vaca de leite apresenta um certo nível de hipocalcemia (Ca < 8,5 mg/dl), a qual pode ou não se manifestar com sintomas clínicos. A concentração de cálcio no colostro é quase 2 vezes superior à concentração no leite. Logo após o parto, uma vaca elimina cerca de 2,3 g de cálcio por quilo de colostro produzindo. Isso representa cerca de 8 a 10 vezes a quantidade total de cálcio sanguíneo em uma vaca de 600 kg. Para equilibrar a excreção de cálcio no colostro e leite e as concentrações séricas de cálcio sejam mantidos, a vaca de leite terá que mobilizar cálcio do tecido ósseo e aumentar a sua absorção intestinal. Levando em consideração essas mudanças metabólicas, uma vaca de leite terá sua exigência de cálcio aumentada de 12 g/d (período seco) para cerca de 47 g/d logo após o parto.

A imagem mostra vacas comendo silagem. A imagem se refere ao artigo sobre o período pré-parto das vacas.

Como estratégia para minimizar a hipocalcemia, é necessário priorizar alimentos que apresentem baixos níveis de sódio e potássio e que o nutricionista analise a composição mineral de todos os ingredientes da dieta. Silagem de milho e de sorgo apresentam níveis de potássio geralmente inferiores a 1,5% e de sódio inferiores a 0,02% enquanto alfafa apresenta níveis de potássio que variam entre 2,5 a 3,5%. Evitando alimentos com altos níveis de potássio, o animal entra num estado de acidose metabólica a qual afeta uma serie de parâmetros metabólicos, uma delas é a queda no pH sanguíneo.

Através de mecanismos de adaptação do próprio organismo, há uma diminuição da excreção de cálcio, aumento da absorção intestinal e reabsorção óssea, havendo mais cálcio disponível na corrente sanguínea. Porém, quando não é possível ou não há um controle eficiente da dieta, é recomendado que se utilize uma dieta aniônica no período de pré-parto. Essa dieta consiste no fornecimento de sais aniônicos com base em sulfatos e cloretos para negativar o balanço cátion-aniônico da dieta (DCAD), acelerando a queda no pH sanguíneo.

A atenção e cuidado especial para as vacas nesse período fisiológico é fundamental e tem grande impacto na rentabilidade da fazenda. Para maximizar a produtividade e assegurar um bom desempenho reprodutivo, é essencial que o CMS seja entre 11 a 12Kg MS por dia, com níveis adequados de macro e micronutrientes. Inadequada formulação de dietas, manejo alimentar de pouca qualidade ou estresse ambiental excessivo podem acabar comprometendo os potenciais benefícios das dietas para a categoria.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

 

Referências

10° Animal Production Symposium: Bovine Confinement. In Proc. X Simpósio de Produção Animal, Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, USP. Piracicaba, SP. Brazil. 1998. pp. 165-214

Lopera, C., R. Zimpel, A. Vieira-Neto, F. R. Lopes, W. Ortiz, M. Poindexter, B. N. Faria, M. L. Gambarini, E. Block, C. D. Nelson, J. E. P. Santos. 2018. Effects of level of dietary cation-anion difference and duration of prepartum feeding on performance and metabolism of dairy cows. J. Dairy Sci. 101:7907-7929.

Zimpel, R., M. B. Poindexter, A. Vieira-Neto, E. Block, C. D. Nelson, C. R. Staples, W. W. Thatcher, J. E. P. Santos. 2018. Effect of dietary cation-anion difference on acid-base status and dry matter intake in dry pregnant cows. J. Dairy Sci. 101:8461-8475.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui