Manejo e instalações

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manejo dos animais

A pecuária de corte, grande responsável pela expansão das fronteiras agrícolas no Brasil, já foi marcada pelo baixo uso de tecnologia e apropriação de terras baratas, fato este que já não é mais uma verdade.

A valorização da terra, a concorrência com outras culturas mais rentáveis e o aumento dos custos de produção, foram vetores que empurram a pecuária de corte, em todos os cantos do país, rumo à intensificação, colocando a palavra eficiência produtiva no dia a dia do campo.

Mas afinal, o que é eficiência produtiva?

É a produção pecuária racional, com o bom uso dos recursos, sem desperdícios e perda de dinheiro.

Nas linhas que seguem, discutiremos as necessidades dos animais e do ambiente, no contexto dos sistemas intensivos de produção, como a terminação intensiva a pasto (TIP) e os confinamentos, abordando tópicos que julgamos fundamentais para alcançarmos a eficiência produtiva e darmos passos mais largos em direção a uma pecuária mais sustentável.


Utilizando o manejo a nosso favor

Ações voltadas ao bom manejo dos animais, associadas às boas condições de saúde e nutrição, que visem conforto e liberdade para que os animais expressem seus comportamentos naturais, independente da fase da criação, são fundamentais para o equilíbrio dos sistemas.

No dia a dia, existem vários manejos rotineiros que realizamos, que podem ser ajustados no intuito de facilitar a adaptação e manejo dos animais ao meio em questão, apresentando reflexo direto no desempenho e retorno econômico da atividade.

  • Ambientação ou familiarização

As mudanças que marcam o início do confinamento são estressantes para o animal. Transporte, recepção, processamento, mudança de ambiente e do padrão alimentar, reagrupamento social, alojamento em grandes grupos, redução do espaço disponível por animal e maior exposição a condições climáticas adversas, são algumas delas, e, partindo do princípio de que todo ação pode ser desafiadora, cabe a pergunta: o que podemos fazer para minimizar os efeitos do estresse?

A adaptação a qualquer novo ambiente se inicia no momento da chegada dos animais. Confinamentos que possuem pastos ou piquetes com disponibilidade de forragem e água de qualidade, se utilizados para a recepção dos animais, ofertam boas condições de descanso para os animais, pós-viagem, possibilitando hidratação e alimentação em um ambiente mais familiar.  Nesse caso, ações como: processamento, vacinação e vermifugação, apartação e identificação, só seriam feitas após os animais terem se reestabelecidos do estresse do transporte.

Durante o processamento e aparte no curral, devemos sempre lembrar da importância da formação de lotes homogêneos, levando em consideração: o peso, a categoria, o padrão racial e, em algumas situações, o frame.

O tamanho do lote é outro ponto que deve ser considerado. Lotes muito grandes dificultam o reconhecimento e a memorização do status social pelos animais, comprometendo a formação da nova hierarquia de dominância, resultando em mais interações negativas (como: brigas, tentativas de monta e cabeçadas) no lote. Adicionalmente, trabalhar com lotes grandes exige maior demanda estrutural, incluindo bebedouros, cochos, cercas, área dentro de praças ou currais de confinamento, além de mão de obra.

Vale destacar que, no caso do confinamento, sempre que for possível, fazer a adaptação dos animais ao cocho e aos membros do novo lote, em áreas maiores que os currais de confinamento. Existirá ganhos em desempenho nos primeiros dias de cocho, resultante desta pré-adaptação ao tipo de dieta e ao cocho. Outro ponto da pré-adaptação, que facilita essa fase inicial de manejo dos animais, é o contato com os tratadores/vaqueiros, barulhos das máquinas e a definição da hierarquia de dominância dentro do lote em um ambiente mais amplo.

  • Hora do trato

O monitoramento do trato é uma ferramenta simples e objetiva para evitar o desperdício, podendo ser definido como umas das chaves para o sucesso da operação. Dentro do monitoramento do trato vale destacar que tanto a falta quanto o excesso resultaram em perda de desempenho.

Uma característica do comportamento natural dos bovinos, que interfere na dinâmica do horário do trato, é que eles são animais sociais que gostam de rotina no manejo diário. Assim sendo, quanto mais rotineiro e pontual for o fornecimento do trato diário, melhor será o desenvolvimento da curva de consumo e, consequentemente, o desempenho dos animais.

Atraso no fornecimento da dieta pode levar os animais ao quadro de fome, e, quando alimentados, chegarem ao cocho com muita voracidade, aumentando a quantidade e velocidade de ingestão de alimento durante a refeição, favorecendo a ocorrência de distúrbios metabólicos, como a temida acidose. Por vezes, tais distúrbios não se manifestam visualmente, como diarreias por exemplo, mas afetam negativamente o consumo no dia seguinte, comprometendo o desempenho e/ou favorecendo sobras no cocho e consequente desperdício.

Recomendamos que o fornecimento do trato deva ser ajustado com base em leituras de cochos, auxiliando assim a quantidade de dieta que será colocada no cocho.

  • Desperdício

Eliminado os custos da reposição, o desperdício de insumos é o maior custo da operação de confinamento. Nas engrenagens de produção, o desperdício deve ser considerado como “dinheiro jogado fora” ou dinheiro que deixou de gerar mais dinheiro. Precisamos ter ciência do quanto é caro deixar de ganhar. Nesse caso, muitos não se assustam por não mensurar o consumo, ou melhor, quantos quilos de dieta foram gastos para produção de uma arroba.

Para ilustrar o impacto do desperdício vamos tomar como exemplo uma fazenda com 1.000 bois terminados em confinamento, por ano. Se considerarmos 3% de desperdício de dieta durante o período de confinamento, de 2 giros por ano (120 dias/giro), de 500 animais cada,  com consumo médio por animal de  10 kg de MS/dia, a um custo de R$ 0,70/kg de MS, temos que um custo por animal/dia – considerando só a alimentação – é de R$ 7,0, no qual 3% de desperdício significa R$0,21/cabeça/dia. Ou seja, nesse exemplo, operar o confinamento com 3% de desperdício significa um prejuízo de R$ 29.400 por ano.

  • Manejo pré-abate

Um problema frequente e que se traduz em prejuízo para o pecuarista são as perdas originadas no manejo dos animais pré-abate. O mau manejo no curral, tanto na condução dos animais como no embarque propriamente dito, podem levar a contusões na carcaça. Estas, no frigorífico, após a esfola do animal, são removidas e descontadas do peso pago ao produtor.

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Podemos afirmar que, aproximadamente, 60% das carcaças abatidas no país possuem pelo menos um hematoma, que, em média, resulta em 0,70 kg de apara. Desconto que é removido na limpeza da carcaça antes da pesagem na balança do frigorífico. Para ilustrar, considerando o confinamento já descrito, com abate de 1.000 animais no ano, estamos falando da retirada de 28,0 arrobas de carne retirada devido aos hematomas. De novo, considerando o valor de venda de R$ 180,00/@, totalizaríamos um prejuízo de R$ 5.040 por ano.

O mais curioso é que perdas como essa, ou a anterior, muitas vezes não são registradas e “sentidas” pelo produtor.

Lembre-se que: a margem final estará diretamente ligada à redução dos desperdícios que, por vezes, são tão simples de serem evitados. A questão é saber que eles existem, mensurar e buscar ações de manejo para minimiza-los.

 

Instalações

As instalações assumem papel fundamental em projetos intensivos, por permitirem que as estratégias de manejos dos animais sejam bem executadas.

Da mesma forma que os recursos nutricionais são avaliados, a implementação de melhorias estruturais não foge à regra, sobre o ponto de vista da relação custo-benefício.

 É fundamental dar atenção especial à instalação em si (dimensionamento) e as estruturas que a compõe, como os cochos e bebedouros. Estruturas para projeção de sombra e uso de aspersores são estratégias que têm mostrado grande potencial de uso em alguns projetos e regiões do Brasil.

  • Espaçamento de cocho e baia

É sempre importante lembrar que bovinos são animais sociais, que vivem em grupo e competirão pelos mesmos recursos caso estes estejam de difícil acesso.

A competição, em bovinos, significa ocorrência de interações negativas, como: cabeçadas, empurrões e brigas, que resultarão em perda de desempenho.

Assim sendo, quanto maior o número de animais no grupo como, por exemplo, nos sistemas rotacionados, integração lavoura-pecuária, confinamento e TIP, maior a importância da disponibilidade e o acesso aos recursos, que devem ser compatíveis com o tamanho do grupo, tanto em metragem por animal como em distribuição na área.

Quando a distribuição e o acesso aos recursos não forem compatíveis com o tamanho do grupo, os animais submissos – dentro da hierarquia de dominância – podem não consumir, ou consumir menos, o alimento fornecido no cocho, resultando na heterogeneidade do lote, levando ao famoso descasque de lote “cabeceira-meio-fundo”.

No confinamento a atenção deve ser redobrada em função do espaço de cocho disponível por animal, visto que o boi recebe exclusivamente no cocho a dieta total fracionada em diversos tratos, a qual deve ser consumida por todos os animais do lote num determinado período.  Não é raro ver, na prática, espaçamentos de cocho menores que 35 cm por animal. Estes podem ser suficientes para categorias mais leves, como animais em recria, mas não são suficientes para animais maiores em terminação. Nesse caso, recomenda-se pelo menos 45 cm por animal. Nas baias, o espaçamento de cocho nunca é demais.

Ainda precisamos considerar o espaço de baia por animal. Bons projetos contemplam de 18 a 22 m2 por animal. Isso facilitará o convívio social dos animais e a menor ocorrência de brigas.

  •  Sombra

É comum que os animais confinados enfrentem condições climáticas adversas como, por exemplo, radiação solar direta durante todo o dia, sem a possibilidade de se proteger e de melhorar seu conforto térmico.

A disponibilidade de sombra nos confinamentos, na maioria das vezes, é atribuída a um grande equívoco: que os animais reduzem seu consumo por ficarem muito tempo debaixo da sombra, longe do cocho.

Uma forma de avaliar se um recurso é importante para um animal é oferecendo-o a eles e observando o seu esforço e/ou o tempo de uso. Se eles usarem, ou se esforçarem para conseguir o acesso, o recurso é importante, simples assim.

Nosso país possui clima tropical, com temperaturas média elevadas (> 37°C) e umidades que variam de 10 a 90%, em boa parte de seu território.  Bovinos zebuínos são mais resistentes ao calor do que os taurinos, mas isso não significa que eles não se beneficiem da presença de sombra no curral.

Em qualquer animal, reduzir o estresse por calor, proporcionando mais conforto térmico, trará benefícios que resultarão em maior eficiência e em ganho de desempenho adicional.

Um dos recursos para fornecimento de sombra aos bovinos é o dimensionamento e a instalação das telas de sombreamento artificial, visto que, se mal feito, a sombra não durará dentro do curral de confinamento.

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O ponto principal a ser considerado é: qual área sombreada (m²) será disponibilizada por animal? Nesse caso, se mal planejada, o que traria benefícios pode resultar em problemas, visto que, disponibilizar o recurso de maneira ineficiente pode resultar em disputa para seu uso, prejudicando o desempenho do lote.

Outro ponto a ser levado em consideração na instalação é a projeção da sombra dentro das baias ao longo do dia. O ideal é que a tela de sombreamento seja instalada no sentido Norte-Sul para que a sombra se desloque durante o dia.

Por fim, mas não menos importante, é preciso ter em mente que sombra é um recurso dentro do sistema, e não podemos cometer o grande equívoco de instalar a sombra na mesma área de outros recursos, como cochos e bebedouros. Isso  fará com que os animais disputem o espaço para o uso dos diferentes recursos dispostos em uma mesma área.

Em diferentes projetos, temos observado melhora na eficiência alimentar, com ganhos adicionais de 60 gramas de carcaça por animal/dia quando comparado aos animais sem acesso à sombra. A quantidade de sombra ótima ofertada por animais tem girado em torno de 3m2.

  • Lama

A formação de lama nos currais de confinamento impacta diretamente o desempenho dos animais, principalmente nas regiões com índices pluviométricos elevados e durante o período das águas.

 Quando a lama atinge entre 11 a 20 cm de profundidade, observa-se redução significativa de até 15% no consumo de MS pelo animal. Casos mais graves, em que a lama chega a 60 cm de profundidade, a redução na taxa de ingestão pode chegar até a 30%.

Adicionalmente, além da redução do consumo, os animais passarão mais tempo em pé e gastando mais energia para se locomover. Como se fosse pouco, aumenta-se também os riscos de ocorrência de doenças pulmonares e problemas de casco.

Em períodos favoráveis ao acúmulo de lama nos currais, como no período chuvoso, a área disponível por animal tem relação direta com a formação de lama, visto que, quanto maior a pressão física que os animais exercem no ambiente mais favorável será a formação de lama.

Assim, em espaços reduzidos (10 a 12 m²/animal), maiores serão os riscos de acúmulo de lama, dejetos, deterioração e a necessidade de manutenção naquelas estruturas.

Em confinamento no qual foi disponibilizado 24m2 por animal, observou-se desempenho médio adicional de 0,140 kg/dia, redução das brigas e disputas por recursos, menores problemas locomotores resultante da menor frequência de tentativas de monta e diminuição da profundidade da lama, em comparação à disponibilidade de 12 m2 por animal. Isso demonstra o quanto o espaço ofertado por animal influencia o resultado. Por vezes, ajustes do projeto trarão maior flexibilidade de ajuste de lotação dentro da baia ao longo do ano, sendo que, muitas vezes, por um custo muito baixo, deixamos de potencializar o desempenho dos animais, além de comprometer o bem-estar deles.

Lembre-se!

Precisamos estar cientes de que, hoje em dia, trabalhamos para o aproveitamento máximo das estruturas e instalações para a redução de custos – diluição de capital imobilizado – e para manter um ganho de peso nos períodos críticos de disponibilidade de forragem. Quando falamos em desempenho no confinamento, devemos considerar – obviamente com razão: a genética, idade, dieta, bem como os protocolos sanitários de processamento. Mas isso não é tudo! É importante lembrar que preparar um curral de confinamento não é apenas delimitar e construir as cercas, instalar bebedouro e colocar uma metragem de cocho. É preciso lembrar (caso contrário, o prejuízo será alto) de que os bovinos (nossa base produtora), a parte essencial para o sistema, precisam ter suas necessidades básicas (físicas e psicológicas) atendidas por meio dos manejos de adaptação, fácil acesso aos recursos, como: água, alimento e sombra, espaço de cocho (m linear/animal) e área disponível (m²/animal) adequados, conforto ambiental, como controle de poeira no tempo seco ou de lama no tempo chuvoso e monitoramento constante para resolver qualquer situação que coloque em risco o sucesso da atividade.

Precisamos ter em mente que minimizar o estresse do animal (e das pessoas envolvidas na atividade) contribuirá com a melhoria de desempenho. Por fim, e não menos importante, observar o comportamento dos animais é uma boa maneira de aprender sobre bem-estar animal.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

1 COMENTÁRIO

  1. Bom dia!
    Reportagens excelentes. Aconselho a todos os pecuaristas, principalmente os menos estruturados, que leiam estas reportagens, para que evitem falhas nos métodos como conduzem a criação de seus rebanhos. Parabéns pela iniciativa de deixar tais reportagens ao alcance de todos.

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