Mastite: para onde estamos olhando? – Parte 2

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Mastite subclínica

Muito falamos, no artigo anterior, sobre a mastite clínica, entretanto, sua ausência ou baixa incidência no rebanho pode dar uma falsa tranquilidade ao produtor. Sabe-se que: atrás de um caso de mastite clínica, podem estar vários casos de mastite subclínica “escondidos”, que podem estar causando perda de produção e qualidade do leite (diminui níveis de caseína, gordura e lactose por exemplo), podendo ser “reservatório de patógenos” e se tornar um caso clínico no rebanho. A mastite subclínica é a que resulta em maiores prejuízos e seu monitoramento e combate requerem conhecimento, disciplina e ação direcionada.

O que fica invisível aos olhos do produtor é o dano causado ao tecido mamário em um animal que apresente mastite subclínica (o dano também é causado em mastites clínicas). Uma vez verificado queda de produção de leite, uma catástrofe pode estar acontecendo dentro do úbere, com lesões graves de células secretoras de leite encontradas na glândula mamária. Essas lesões podem ser interrompidas quando erradicado o problema, mas sua reconstituição é incompleta e a produção fica comprometida pelo resto da vida produtiva do animal.

Um dos métodos mais utilizado para auxiliar no diagnóstico de mastite subclínica é o CMT (California Mastitis Test), que deve ser realizado antes de ordenhar o animal e após a eliminação dos primeiros jatos de leite. É composto por uma substância que detecta a presença de células somáticas e promove uma reação, tornando o meio gelatinoso. Quanto mais células somáticas, mais gelatinoso fica o meio. É um método barato, que custa, no máximo, R$1,00 por animal e deve ser realizado, de preferência, de 15 em 15 dias, em todos os animais.

Figura 1. Testes de CMT indicando possível mastite subclínica.

Entretanto, a CCS (contagem de células somáticas), é o melhor método de diagnóstico de mastite subclínica, utilizado para avaliação individual (estimar índices epidemiológicos, prejuízo econômico e auxiliar na tomada decisões de manejo), ou do rebanho com amostras de leite do tanque (resposta direcionada sobre a % de vacas com mastite subclínica no rebanho). A CCS nada mais é do que células, em sua maioria, de origem sanguínea, chamadas de leucócitos, cuja função é de defesa da glândula mamária (MARQUES, 2006). O ponto de corte, hoje utilizado para CCS, é de 200.000 células/mL de leite, sendo que vacas que apresentam CCS superiores a esse valor, podem estar com mastite subclínica. Além disso, esse mesmo valor de CCS avaliado em uma amostra de leite do tanque pode indicar que 20% do rebanho tem mastite subclínica, devido à correlação positiva entre CCS e mastite subclínica (Pantoja et al., 2009).

Amostras de leite para avaliação de CCS devem ser enviadas, de preferência, uma vez ao mês ao laboratório. Devem ser coletadas amostras gerais de cada animal, sendo que, cada amostra fica em torno de R$2,00 a R$3,00/animal. Os resultados mensais são um ótimo parâmetro para avaliação de índices epidemiológicos, como incidência e prevalência de mastite subclínica.

A incidência nos dá uma resposta sobre a disseminação da doença, ou seja, o quão rápido está passando de vaca para vaca, é uma medida mensal e deve ser controlada. Já a prevalência, nos quantifica a fração da população que está afetada, ou seja, o quão grave está a situação, sendo que a incidência e a duração dos casos interferem nesse valor.  É interessante medir a prevalência mensal e a prevalência no primeiro e último teste do período de lactação, pois se ela aumenta com os dias em lactação, pode ser devido a uma mastite contagiosa, porém, se aumenta no início da lactação, pode ser devido a mastite ambiental proveniente, na maioria dos casos, do período seco.

Figura 2. Exemplo de gráfico indicando duas situações: caso de mastite contagiosa e ambiental.

Os dados de CCS também nos ajudam a avaliar taxa de cura e de casos crônicos, que merecem atenção redobrada. Os microrganismos classificados como contagiosos e relacionados à mastite subclínica são o Staphylococcus aureus e o Streptococcus agalactiae, os principais encontrados nas fazendas no Brasil. Atualmente, são os únicos microrganismos que, quando detectados, podem levar a vaca ao tratamento da mastite subclínica durante a lactação. Mas o tratamento dependerá de análises, como idade e número de quartos afetados, assim como histórico de CCS (animais jovens têm maior chance de cura contra infecção por S. aureus), caso não seja recomendado o tratamento durante a lactação, poderá ser realizado a secagem do animal antecipada ou a inativação do quarto, quando o patógeno for agressivo.

Rebanhos com alta prevalência e acometidos por infecção causada por S. agalactiae podem ser submetidos a tratamento associado a um bom manejo dos animais. A linha de ordenha garante segurança para as vacas sadias e a “blitz-terapia” pode ser indicada para o tratamento simultâneo dos animais infectados, um manejo complicado, mas que, realizado da forma correta, apresenta bons resultados.

A análise mensal de CCS do tanque também pode ser aplicada, mas alguns cuidados devem ser tomados. Vacas com alta CCS podem ter o leite desviado e o mesmo não ser destinado ao tanque, subestimando o valor final. Além disso, o efeito da diluição da CCS pode ser outro fator para gerar dados não confiáveis e retardar uma ação no momento correto.

Tabela 1. Exemplo de avaliação de dados para gerenciamento do rebanho. Análises mensais de CCS do rebanho e do tanque auxiliam nas tomadas de decisões

*Vaca destinada ao descarte por apresentar mastite crônica procedente de infecção por S. aureus.

Resumindo, o acompanhamento e monitoramento da mastite subclínica pode ser feito utilizando-se menor pacote tecnológico, com uso do método CMT. Avançando um pouco, o aprimoramento pode ser adquirido utilizando a CCS do leite, individual, como parâmetro de avaliação e, por último, e mais tecnológico, o uso da cultura na fazenda, que pode ser realizada no rebanho todo, uma vez por semestre ou a cada vaca recém parida ou que apresente altos valores de CCS ou alterações no teste CMT. Lembrando que, a cultura poderá nos indicar com precisão qual o microrganismo responsável pela infecção.

Entretanto, mesmo as fazendas que não utilizam a cultura microbiológica podem controlar o rebanho, fazendo análises mensais de CCS e formando lotes de animais com CCS alta, para serem ordenhados no final da ordenha. Nas vacas com alta CCS, pode ser feito o teste CMT para detecção do quarto afetado pela infecção e, dessa forma, apenas a análise microbiológica daquele quarto pode ser realizada, tornando o procedimento menos oneroso.

O procedimento de análise microbiológica do leite também pode ser utilizado para “terapia da vaca seca”, que pode ser dispensável quando a cultura der negativa, utilizando apenas o selante para controle de entrada de patógenos, via canal do teto. O importante é realizar ao menos um dos manejos supracitados, juntamente com estratégias de prevenção de mastite, e seguir as recomendações de manejo, tratamento e controle da doença que serão listados no próximo capítulo.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

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