Mastite: para onde estamos olhando? – Parte 3

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Boas práticas

Não vamos falar aqui dos manejos pré e pós-ordenha recomendados, pois é um assunto que já tratamos em outras publicações. Vamos tratar de manejos pouco utilizados e que são importantes na prevenção de mastite.

  • Ordenha

As vacas precisam ser estimuladas corretamente, os tetos higienizados e o teste de mastite feito em caneca de fundo preto. O ambiente precisa ser calmo e o processo tem que ser rotineiro. Vacas não gostam de mudanças. Além disso, os equipamentos devem ser monitorados e revisados com frequência, para evitar alto ou baixo vácuo, como também a entrada de ar nos conjuntos de tereiras. Deve-se ter um mínimo de queda e reinserção de teteiras nas vacas, e a sobreordenha não pode existir, pois provoca relaxamento de esfíncter e hiperqueratose. O uso de ordenha com extrator automático auxilia a evitar a sobreordenha, pois trabalha com fluxo de leite mínimo para retirada das teteiras, agredindo menos os tetos, mas o seu funcionamento precisa ser monitorado com frequência.

O estímulo à descida do leite é muito importante. Vacas mal estimuladas demoram mais para “descer o leite”, alterando o fluxo e aumentando o tempo de ordenha. O tempo do primeiro estímulo até a colocação da teteira deve durar, no mínimo, um minuto e meio, e se o ordenhador realizou todo o procedimento de limpeza (pré-dipping, secagem dos tetos e teste da caneca) em um tempo menor, deve-se esperar completar o tempo para inserção do conjunto. O tempo para ação do pré-dippind também é importante e deve durar em torno de 30 segundos, pelo menos. Limpar os tetos antes desse tempo pode prejudicar sua ação.

Alguns softwares ligados a sistemas de ordenha geram informações em forma de gráficos sobre o fluxo de leite por vaca, por ordenha, ou geram relatórios de porcentagem de produção por tempo de ordenha. O segundo avalia a porcentagem de produção em períodos específicos da ordenha (indicador utilizado: porcentagem de produção do leite em dois minutos de ordenha) e o primeiro avalia a curva de fluxo de leite, os dois indicam se o estímulo das vacas está sendo feito de forma correta.

Figura 1. Gráfico de fluxo de leite desejável (animal estimulado corretamente). Fonte: Weiss et al., 2004.

Algumas metodologias são utilizadas para avaliação da higiene do ambiente, equipamentos e manejo do ordenhador. Para avaliação de higiene pré, durante e pós-ordenha, usa-se como método o escore de sujidade de tetos e úberes, além disso pode-se avaliar a sujeira que fica no papel utilizado para secagem de cada teto. Outro manejo é a avaliação da sujeira dos filtros da ordenha, que também nos dá um indicativo de mastite clínica e pôr fim a eficiência do pós-dipping, que deve ser inserido em toda a extensão do teto. Uma avaliação importante da saúde dos tetos é o escore de hiperqueratose (deformidade de ponta de teto), que dá um indicativo de sobreordenha. Por fim, mas de extrema importância, é o acompanhamento da ordenha pelo responsável e os registros de todas essas medidas e do tempo que o ordenhador leva para estimular as vacas e realizar a ordenha.

Figura 2. Ponta de teto sadia (à direita) e com hiperqueratose (à esquerda). Esta última aumenta o risco de novas infecções, pois acomete a primeira barreira física contra entrada de patógenos.

Outro ponto importante é sobre a linha de ordenha, que deve existir e ser bem clara para os ordenhadores e colaboradores. A linha de ordenha nada mais é do que a ordem na qual as vacas devem ser ordenhadas, pensando sempre em evitar a contaminação de vacas sadias. Sendo assim, a ordem dos lotes de vacas a serem ordenhadas deve ser a seguinte:

Lote 1: vacas primíparas (sadias);

Lote 2: vacas multíparas sadias e sem histórico de mastite;

Lote 3: vacas com histórico de mastite que foram curadas;

Lote 4: vacas hospital;

Lote 5: vacas com mastite subclínica (CCS>200.000 UFC/mL);

Lote 6: vacas com mastite clínica (leite com grumos deve ser descartado, e o período de carência de cada medicamento deve ser respeitado).

  • Ambiente

O ambiente (pasto, galpões, sala de ordenha) precisa ser mantido limpo e seco. Ao monitorar a higiene desses locais, além de ajudar na prevenção da mastite, auxilia no controle e erradicação da mastite ambiental. Estreptococos ambientais são encontrados onde há sujeira, além disso, gostam de areia e pasto e podem ficar viáveis por muito tempo no ambiente.  A Klebsiella cresce em camas de serragem e maravalha em que a umidade está presente e, apesar de ser da família das enterobactérias, é altamente resistente a antibióticos e pode causar mastite severa, provocando a morte dos animais. A Prototheca é uma alga de extrema importância, que gosta de umidade e sujeira, é de difícil combate e pode causar surtos de mastite no rebanho.

Esses são alguns exemplos de microrganismos associados à falta de higiene, entretanto, muitos outros também podem ser isolados. A cama é onde se encontram a maioria dos patógenos, e, levando em consideração que a vaca fica deitada por um período de 12 a 14 horas, a higiene desse local é de extrema importância. Portanto, vale lembrar que nenhum pré-dipping ou manejo correto na ordenha fará milagre se a vaca chegar suja na ordenha e viver em um ambiente contaminado.

  • Vacas

A decisão de ordem de ordenha e o destino de cada vaca dependerá de cada caso. Anotações e um histórico de casos por vaca ajudará o responsável na decisão do futuro das vacas. Por isso, a primeira medida a ser tomada na fazenda é a avaliação da incidência e prevalência de mastite, o período em que mais ocorre e o lote de animais que mais acomete. Paralelamente, entender os dados de CCS individual e do tanque, e buscar uma análise microbiológica auxiliará no diagnóstico. Tratamentos às cegas podem resultar em vacas não curadas, mastite de repetição e gastos excessivos.

  • Estratégias nutricionais

A partir de tudo que vimos nos artigos anteriores, como diminuir os índices de mastite e melhorar a saúde, produtividade e qualidade do leite?

A resposta é: prevenindo novas infecções e curando as já existentes. A segunda se alcança com tratamentos certeiros e/ou decisões de manejo dos animais (descarte, segregação). A primeira se alcança reduzindo a contaminação do ambiente e dos tetos das vacas, melhorando manejo e aumentando a resposta imune das vacas, esse último ponto é o que vamos abordar agora.

A nutrição é peça-chave para o desenvolvimento e produção dos animais, atuando também na recuperação e fortalecimento do sistema imunológico para combate de doenças infecciosas, como a mastite. Vacas passam por períodos críticos que afetam sua saúde e desempenho, sendo o principal deles o período de transição, que corresponde ao período de 21 dias antes e 21 dias depois do parto. Nesse período, ocorrem mudanças hormonais, metabólicas, fisiológicas e anatômicas, além do balanço negativo de energia e aminoácidos, que favorecem uma condição de imunossupressão.

Neutrófilos, células de defesa do organismo, migram do sangue para a glândula mamária infeccionada, fagocitam e matam as células bacterianas. Entretanto, a diminuição da função neutrofílica no período pós-parto indica um animal imunossuprimido, condição que ocorre em muitas espécies. Alterações metabólicas, como a cetose, podem comprometer o sistema imunológico, aumentando os riscos de mastite (altas concentrações de ácidos graxos não esterificados e corpos cetônicos versus baixa concentração de glicose). A hipocalcemia também pode ter um papel importante, pois o cálcio participa de diversas reações metabólicas intracelulares, inclusive dos neutrófilos, e, dessa forma, diminuiria sua atividade.

A mastite está associada à liberação de radicais livres, aumento da capacidade oxidante total e diminuição da capacidade antioxidante total no leite. Dessa forma, minerais e vitaminas antioxidantes desempenham um papel fundamental no sistema imunológico, reprodutivo e no crescimento de vacas leiteiras (Shankar e Prasad, 1998). A suplementação de vacas leiteiras no período pré e pós-parto, com vitaminas antioxidantes, como: vitamina A e o precursor βcaroteno, vitamina C, vitamina E e minerais antioxidantes, como: selênio, zinco e cobre, é muito importante para ajudar o sistema imunológico do animal no combate de doenças infecciosas e também no alcance de melhores índices de desempenho.

A vitamina A ajuda na resistência da glândula mamária à entrada de patógenos, pois é importante na manutenção da saúde do tecido epitelial e integridade da superfície da mucosa. Além disso, o βcaroteno atua como antioxidante e protege o tecido do úbere e do leite contra os efeitos nocivos dos radicais livres. Adicionalmente, os dois atuam como estimulantes de células de defesa do organismo. Pesquisas demonstram que vacas com teste de CMT positivas, apresentavam concentrações plasmáticas de vitamina A e βcaroteno, menores quando comparadas a vacas com teste negativo (Yang e Li, 2015).

A vitamina E é um componente da membrana lipídica, que protege as células contra o ataque oxidativo, eliminando radicais livres liberados pelas células bacterianas, que são degradadas dentro das células de defesa do organismo animal.  Alimentos conservados são pobres em vitamina E, sendo a suplementação importante para o fortalecimento do sistema imunológico. Alguns trabalhos relacionaram casos de mastite com baixa concentração de vitamina C (Naresh et al., 2002), e demonstraram que pode ter efeito terapêutico na mastite (Ranjan et al., 2005).

O selênio e o cobre têm função antioxidante, capaz de reduzir a produção de radicais livres através da ativação de enzimas específicas. Estudos avaliando a suplementação de selênio em vacas durante a lactação demonstraram redução na incidência de mastite e contagem de células somáticas (Overton e Yasui, 2014), e aumento na produção de eritrócitos e neutrófilos na corrente sanguínea (Morgante et al., 1999; Wintergerst et al. 2007).

O zinco faz parte da composição química de diversas enzimas relacionadas ao metabolismo das células, além de atuar na formação óssea e crescimento celular, atividade de células do sistema imune e na integridade da queratina, encontrada na camada superior da pele. Estudos verificaram redução na CCS do leite, de 294.000 UFC/mL para 196.000 UFC/mL em vacas que receberam suplementação com o complexo Zn e metionina (Kellogg et al., 2004).

Aminoácidos podem ser considerados nutrientes anti-inflamatórios, como a glutamina, que melhora a função da barreira intestinal, além dos aminoácidos contendo enxofre, envolvidos nos sistemas antioxidantes (Grimble, 2002). A metionina, quando absorvida no intestino, pode aliviar a inflamação e o estresse oxidativo durante o período de transição (Osório et al., 2013 e 2014). A vitamina D3, pode diminuir a produção de células inflamatórias em favor da produção de células anti-inflamatórias (Hewison 2012).

Foram listados alguns nutrientes que foram estudados em alguma pesquisas,  que atuam melhorando a resposta imunológica de vacas, ressaltando a importância de uma dieta balanceada e uma suplementação mineral vitamínica adequada para auxiliar na resposta animal em períodos críticos e situações adversas. A nutrição, aliada a um bom manejo dos animais e procedimentos de ordenha, como descritos anteriormente, permitem que os animais alcancem níveis elevados de produção, mantendo um rebanho saudável.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

Referências:

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