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Nem todo coporoduto do etanol de milho é DDG

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Com a difusão das usinas de etanol de milho no Brasil, cresceu a oferta de coprodutos da fermentação desse cereal para a nutrição de bovinos. Conforme estimativas da União Nacional de Etanol de Milho (Unem), o Brasil produzirá 2 milhões de toneladas de “grãos destilados” em 2021/2022, devendo atingir 6 milhões de toneladas em 2030/2031. O emprego desses insumos em suplementos e rações, contudo, exige conhecimento prévio sobre o processo industrial que lhe deu origem, além de sua composição nutricional, para que se possa maximizar o desempenho animal e o resultado econômico da fazenda. Levantar essas informações junto ao vendedor e fazer análise laboratorial de amostras antes da formulação da ração pode fazer total diferença.

Tais cuidados (recomendáveis para qualquer ingrediente) tornam-se especialmente importantes no caso dos coprodutos de usinas de etanol de milho, todos chamados genericamente de DDG, sigla em inglês para Dry Distillers Grains (grãos secos de destilaria), por falta de termos adequados em português. Isso tem causado grande confusão, porque existem diferentes processos de produção de etanol de milho, com geração de coprodutos também diferentes (secos ou úmidos, com mais ou menos fibra, mais ou menos proteína ou energia). Para entender melhor isso, vale uma revisão rápida sobre os dois processos industriais mais comuns de produção de etanol a partir do cereal.

 

Processo tradicional

O primeiro deles pode ser chamado de convencional e consiste no seguinte esquema: moagem e cozimento dos grãos, liquefação, fermentação da biomassa obtida e destilação para extração de etanol. Na sequência, o mosto residual (vinhaça completa) é peneirado e centrifugado para se separar a fração líquida (vinhaça fina) da fração sólida, batizada nos Estados Unidos de Wet Destillers Grain ou grãos úmidos de destilaria.  Quando esse material (WDG) é secado, tem-se o DDG típico.

Já a vinhaça fina, após o processo de concentração de solúveis por evaporação, dá origem ao “xarope de milho”, produto rico em aminoácidos livres, macro e microminerais, vitaminas e paredes de leveduras. Esse xarope pode ser adicionado tanto ao coproduto sólido úmido quanto ao seco, dando origem ao WDGS (grãos úmidos de destilaria com solúveis) e ao DDGS (grãos secos de destilaria com solúveis).

Em média, para cada tonelada de milho processada, tem-se 430 litros de etanol, 15 litros de óleo e 300 kg de resíduos sólidos. Vale ressaltar que os coprodutos úmidos são menos usados no Brasil. Como contêm até 70% de água, eles apresentam custo de transporte mais alto e menor vida útil, devendo ser fornecidos aos animais em três ou quatro dias, o que restringe sua venda praticamente ao entorno das usinas. Em compensação, o WDG e o WDGS apresentam custo menor, o que pode lhes garantir algumas vantagens competitivas.

Processo industrial alternativo

No outro processo industrial, os grãos também são moídos e cozidos, porém, antes de o mosto ser destinado à fermentação/destilação, o material é filtrado para separação da casca do milho. Nesta etapa do processo, já se obtém um coproduto passível de uso na alimentação animal, como veremos mais adiante. Após a fermentação do produto sem casca, extrai-se o etanol por meio de destilação. Em seguida, o mosto é centrifugado, separando-se a fração líquida (vinhaça fina) da sólida úmida, como no processo convencional.

O material sólido apresenta maior teor proteico e normalmente é comercializado seco, recebendo o nome de HPDG, do inglês High Protein Distillers Grains (grãos de destilaria de alta proteína). A vinhaça fina também pode ser concentrada por evaporação, mas normalmente é incorporada à casca do milho que foi removida no início do processo industrial, dando origem ao WDBS, do inglês Wet Destillers Bran plus Solubles (farelo de destilaria com solúveis). O WDBS pode ser seco, transforma-se em DDBS, do inglês Dry Destillers Bran plus Solubles (farelo seco de destilaria com solúveis).

Estes dois novos coprodutos apresentam excelentes atributos nutricionais, porém têm sido erroneamente denominados de DDG no mercado. Perceba que, de forma geral, estamos falando de três grupos distintos de ingredientes para alimentação animal: um originado do processamento convencional e outros dois do sistema industrial alternativo, que separa a casca do milho. Eles têm características nutricionais muito diferentes. Outro ponto que cabe ainda destacar é que a quantidade de solúveis (vinhaça fina) incorporada a alguns coprodutos também pode variar, pois o nível dessa adição depende do custo da biomassa que será queimada no processo de secagem. Isso também influi em sua composição e valor nutritivo.

 

O que esperar desses alimentos?

Descritos os processos industriais que levam à diferenciação dos coprodutos de destilaria de milho, é importante abordar duas questões. A primeira é uma possível adaptação de nomenclatura para o português, visando evitar confusões criadas pela atual “sopa de siglas”. A segunda é como usar esses insumos em formulações para bovinos. No que diz respeito aos nomes, as siglas DDG e WDG somente devem ser usadas, como já dissemos, para os materiais provenientes do processamento convencional de fabricação de etanol de milho, acrescentando-se o “S”, quando há incorporação de solúveis. Já o coproduto sólido (HPDG) resultante do novo método industrial, seria mais adequado chamá-lo de “DDG de alta proteína”; e os obtidos a partir da fibra da casca, poderiam ser denominados de “farelos (seco ou úmido) de destilaria com solúveis”, já que as siglas relativas a estes compostos (WDB e DDB) ainda não entraram no vocabulário do setor.

Avaliando a composição de tais alimentos, todos têm bom potencial de uso. O DDG e o DDGs têm fibra de alta digestibilidade (fonte de energia), apresentam entre 30% e 35% de proteína bruta (PB), bom teor de extrato etéreo e minerais. Quando incluído nas rações em percentuais de 15% a 20%, eles substituem totalmente o farelo de soja (principal fonte proteica empregada no Brasil). Já em percentuais maiores, podem retirar da dieta também parte do milho moído ou outra fonte energética. O “DDG de alta proteína”, por sua vez, tem 40% de PB, limitando-se basicamente à substituição do farelo de soja. Finalmente, o “farelo de destilaria com solúveis” contém menos proteína (20%), podendo ser empregado em maior quantidade nas rações, substituindo parte do milho e também parte das fontes proteicas.

Cabe aqui uma observação quanto ao uso de núcleos minerais específicos para dietas contendo coprodutos de usinas de etanol de milho. Esse questionamento normalmente surge porque, durante o processo de fermentação do amido do grão, ocorre uma alta concentração dos minerais. Os materiais obtidos apresentam muito mais fósforo e enxofre, por exemplo, do que o farelo de milho comum. Pois bem, a regra aqui é simples. Caso o DDG e/ou outros coprodutos estejam entrando na formulação como fonte proteica (normalmente em inclusões de até 20%), não se faz necessário um núcleo específico para essa dieta (a quantidade de P e S não é alterada significativamente). Entretanto, se forem usados como fontes proteica e energética, normalmente acima de 20%, passa a fazer sentido um núcleo mineral específico.

Para finalizar, independentemente do coproduto em questão, os trabalhos têm mostrado efeito positivo do seu uso em dietas de bovinos na fase de engorda (confinamento ou TIP) ou em suplementos para animais em recria a pasto. Como qualquer coproduto, devemos considerar sempre o custo seu custo de aquisição posto na fazenda versus os benefícios do seu uso já apresentados em edições anteriores aqui na DBO. Esperamos ter contribuído para uma primeira discussão sobre nomenclaturas para esses insumos. De qualquer forma, fique atento à origem dos coprodutos na hora de formular.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

 

Coautora: Simone Garcia – Consultora de serviços técnicos de bovinos de corte na Agroceres Multimix

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