Início Suínos O que precisamos saber sobre enriquecimento ambiental na suinocultura – Parte 1

O que precisamos saber sobre enriquecimento ambiental na suinocultura – Parte 1

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ASPECTOS GERAIS

Hoje, mais do que nunca, não podemos pensar apenas em produzir proteína de origem animal, mas sim produzir com qualidade. Um dos atributos de qualidade refere-se à implementação de um sistema de produção que produza de acordo com as diretrizes do bem-estar animal (BEA).

Houve um aumento do consumo global de carne nas últimas duas décadas, algo em torno de 58%, esse aumento justifica-se pelo aumento da população mundial, também pelo aumento da renda per capita. Projeções futuras indicam que o consumo de carne irá dobrar até 2050. Números animadores e que nos deixam com o “sinal de alerta” ligado (NASCIMENTO, 2020).

Em outras palavras a demanda pela produção de carne será alta em todo o mundo, principalmente por carne suína, que corresponde cerca de 40% do consumo per capita mundial. Contudo, a globalização associada a velocidade de difusão das informações sinaliza o quão ágil tem sido para a resolução de diversos problemas no dia-a-dia do produtor.

Se antes a forma como se produzia a carne suína não tinha interesse/curiosidade hoje já se é possível rastrear diversas, ou, todas as etapas do processo produtivo, inclusive se as granjas adotam práticas de BEA. Hoje temos no Brasil, por exemplo empresas que desenvolvem a certificação do processo produtivo visando melhorar e monitorar as boas práticas de produção. Essas empresas têm como missão melhorar a vida dos animais criados em fazendas e granjas direcionando a demanda do mercado para produtos elaborados com práticas mais humanizadas e responsáveis de criação. Após ser auditado o produtor é habilitado a comercializar o produto final (carne, ovos, leite, etc.) com um selo de BEA, que agrega mais um atributo de valor ao produto.

É importante frisar que a avaliação/certificação do bem-estar dos animais necessariamente precisa incluir a análise de todos os cinco domínios do BEA (Figura 2), que são: nutricional, sanitário, ambiental, comportamental e emocional. Para tanto, quatro grandes conjuntos de indicadores devem ser utilizados no momento da avaliação e fiscalização das condições de BEA. O agrupamento dos indicadores em quatro grupos direciona para uma avaliação completa do estado do animal em relação ao seu ambiente, evitando restrições do entendimento do termo “bem-estar animal”, cujo significado ordinário ou cotidiano é usado para se referir a qualidade de vida dos animais (FRASER, 2012).

Figura 1. Indicadores para avaliação do grau de bem-estar animal.

Os sistemas convencionais e modernos de produção animal frequentemente são constituídos de instalações simples e monótonas, estes aspectos construtivos são sustentados pela máxima eficiência econômica. Isso faz com que o suíno tenha pouca ou nenhuma oportunidade para que expresse comportamentos naturais (VANHEUKELOM et al. 2012). O suíno doméstico permanece com a necessidade de demonstrar comportamentos exploratórios. Neste sentido, o enriquecimento ambiental é uma estratégia importante para viabilizar esse tipo de comportamento e não necessariamente necessita de um alto investimento para instalação.

Pode-se definir o enriquecimento ambiental como as transformações nos ambientes de confinamento que são favoráveis às funções biológicas (NEWBERRY, 1995). Entretanto o conceito é amplo e requer uma reflexão sobre a oferta de “algo extra” para os animais e que desperte o interesse deles. É preciso que os materiais permitam a expressão de comportamentos inatos dos suínos (BRACKE, 2017). Conceitualmente, todas as modificações no ambiente de confinamento como a instalação de ventiladores, lâminas d’água e gotejadores podem ser enquadrados como enriquecimento ambiental. Contudo, no sentido mais restrito e empregado na literatura científica, o termo refere-se ao provimento de substratos orgânicos (ex. palha, casca de arroz, maravalha, etc.) oferecidos no chão em grandes quantidades e dos popularmente denominados “brinquedos”, ambos disponibilizados (AECS, 2020).

ENRIQUECIMENTO AMBIENTAL PARA A FÊMEA SUÍNA

A avaliação do comportamento dos animais pode apresentar boas evidências significativas sobre a efetividade do enriquecimento sobre o BEA. O uso dos indicadores (comportamentais e ambientais) já citados neste artigo são boas ferramentas para se medir o grau do bem-estar das matrizes suínas.

Para esta categoria animal em alojamento coletivo, informações sobre o uso do enriquecimento ainda são escassas (GREENWOOD et al., 2014), sobretudo em relação ao uso de “brinquedos”. Já com relação aos substratos, o fornecimento de palha (arroz, trigo ou maravalha) para matrizes em fase de gestação visa fornecer principalmente conforto: Físico (durante o descanso); Térmico (principalmente em condições de frio); Comportamental (evitando comportamentos estereotipados) e até mesmo benefício alimentar dado ao valor nutritivo do material (BARNETT et al., 2001).

A palha ou maravalha (pinus ou eucalipto) (Figura 3) utilizadas como cama no local de alojamento em grupo também pode diminuir as injúrias de patas e aumentar a longevidade da matriz (SPOOLDER et al. 2009). O fornecimento de algum tipo de material volumoso na área de descanso de baias coletivas tem sido atribuído a menores frequências de mordeduras de vulva em matrizes mantidas em baias com sistema de alimentação eletrônica tipo túnel (BENCH et al., 2013).

Figura 2. Uso de maravalha como enriquecimento ambiental em alojamento coletivo de matrizes suínas.

Alguns cuidados são substanciais quando utilizado a palha. Podemos citar o risco sanitário, pois dependendo da origem desse material pode-se ter uma porta aberta para a introdução de patógenos dentro do sistema de produção. Existe também a necessidade de atenção no uso desses materiais em regiões de altas temperaturas, pois esses materiais podem dificultar a troca de calor e criar uma condição de estresse por calor (SCOTT et al., 2009; GREENWOOD et al., 2014; HORBACK et al., 2016; SILVA et al., 2016). Esses pontos devem ser muito bem analisados e colocados na “ponta do lápis” pois podem impactar negativamente os índices reprodutivos da granja e reduzir a lucratividade do sistema. Em outras palavras podem piorar a condição de bem-estar das fêmeas ao invés de melhorar, por isso o alerta em se analisar muito bem a introdução de enriquecimentos ambientais nas granjas escolhendo bem os materiais e suas efetividades em produzir distração segura aos animais.

Uma alternativa, é o uso do material de cama em momentos estratégicos, como por exemplo na mistura de animais para formação de novos lotes, pois nesse tipo de situação há uma maior incidência de lesões por mordedura de vulvas, que podem ferir as fêmeas abrindo porta para infecções e, consequentemente, não atender os requisitos do bem-estar animal (SPOOLDER et al. 2009).

Outro enriquecimento ambiental empregado em algumas granjas refere-se ao uso de enriquecimento sonoro através da música, um recurso utilizado de forma empírica, com o intuito de deixar os animais mais calmos e adaptados aos manejos contribuindo para redução das perdas em produtividade (SARUBBI, 2014). Porém, ainda é limitado o conhecimento sobre os reais impactos dos sons na produção animal. Considerando seus bons efeitos, relatados por produtores na prática, a utilização de música como forma de enriquecimento ambiental na suinocultura é uma área a ser desenvolvida. Além disso, pode representar uma forma de contribuir para o bem-estar dos funcionários da granja.

Em um dos trabalhos sobre os benéficos da música na produção de os suínos divididos em duas baias, que ficavam lado a lado, separadas por uma parede. A baia tratamento ouvia música clássica, enquanto a baia controle não. A intensidade e a frequência do som foram monitoradas e a temperatura dos animais também, para garantir que não estavam com nenhuma doença. Os suínos ouviram a música durante um mês e a pesquisadora coletava dados a cada hora. A música diminuiu brigas entre os suínos em experimento; animais também consumiram menos ração mantendo ganho de peso normal (ITO, 2018).

Um dos poucos estudos sobre o conhecimento e a utilização de enriquecimento ambiental em granjas comerciais brasileiras foi feito em 2018. Foram entrevistados proprietários ou colaboradores, além da estrutura das unidades de creche, engorda (recria e terminação) e reprodução. Do total de entrevistados, 51,7% afirmaram saber o que é enriquecimento ambiental e 48,3% não sabiam o significado do termo. Grande parte das granjas (89,1%) já faz uso de algum material de enriquecimento ambiental, mesmo que os proprietários/colaboradores não saibam o que significa o termo. Ou seja, a utilização desta ferramenta já é uma realidade brasileira. Além disso, foi possível perceber que, salvo exceções, os entrevistados mostraram-se interessados em receber mais conhecimentos e orientações sobre o assunto (97,8%) e apresentam uma visão otimista (92,4%) sobre a utilização desta metodologia, assinalando que acreditam que o enriquecimento propicia algum benefício aos animais ou aos manejos empregados na granja (RIBAS et al., 2020).

Dentre esses benefícios podemos citar evitar brigas; prevenir/diminuir canibalismo; evitar que os animais defequem e/ou urinem em local inadequado; prover entretenimento/divertimento ao animal; interesse pessoal (0,8%); exigência do mercado consumidor; entre outros.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O uso de enriquecimento ambiental não é a solução de todos os problemas de bem-estar em sistema de produção que confina os animais, contudo vem despertando o interesse não só dos produtores, mas também do mercado consumidor, mostrando-se como uma oportunidade de melhoria de bem-estar dos animais com possíveis ganhos em produtividade. Pelo discutido neste artigo não é preciso ter um grande investimento para enriquecer o ambiente dos animais, o uso da criatividade por parte dos produtores, utilizando os recursos disponíveis pode facilitar a introdução dessas alternativas e com isso, melhorar a qualidade de vida dos suínos e atender um mercado consumidor cada vez mais atentos nas boas práticas de produção.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARNETT, J. L.; HEMSWORTH, P. H.; CRONIN, G. M.; JONGMAN, E. C.; HUSTON, G. D. A review of the welfare issues for sows and piglets in relation to housing. Australian Journal of Agricultural Research, Victoria, v. 52, p. 1-28, 2001.

BENCH, C. J.; RIOJA-LANG, F. C.; HAYNE, S. M.; GONYOU, H. W. Group gestation sow housing with individual feeding – II: How space allowance, group size and composition, and flooring affect sow welfare. Livestock Science, Amsterdam, v. 152, p. 218-227, 2013.

BRACKE, M.B.M. Chains as proper enrichment for intensively-farmed pigs? In: ŠPINKA, M. Advances in Pig Welfare. Duxford: Woodhead Publishing, 2017. cap. 6, p. 167-197.

CERTIFIED HUMANE BRASIL. Selo de bem-estar animal: como funciona a inspeção. Disponível em: . Acesso em: 16/03/2022.

FRASER, D. Compreendendo o bem-estar animal: a ciência no seu contexto cultural. Londrina: Eduel, 2012.

GREENWOOD, E. C.; PLUSH, K. J.; WETTERE, W. H. E. J. Hierarchy formation in newly mixed, group housed sows and management strategies aimed at reducing its impact. Applied Animal Behaviour Science, v. 160, p. 1-11, 2014.

HORBACK, K. M.; PIERDON, M. K.; PARSONS, T. D. Behavioral preference for different enrichment objects in a commercial sow herd. Applied Animal Behaviour Science, v. 184, p. 7-15, 2016.

ITO, E. H. Enriquecimento sensorial do ambiente buscando o bem-estar de suínos. 2018. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo.

NASCIMENTO, H. 2020. A produção e o consumo de carne suína no mundo. Disponível em: . Acesso em: 16/03/2022.

NEWBERRY, R.C. Environmental enrichment: increasing the biological relevance of captive environments. Applied Animal Behaviour Science, v. 44, n. 2, p. 229-243, 1995.

RIBAS, J. C. R.; DIAS, C. P.; LUDKE, C. B.; BUSS, L. P. Suinocultura: uma saúde e um bem-estar. Secretaria de Inovação, Desenvolvimento Rural e Irrigação. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. – Brasília: AECS, 2020. 500 p. Disponível em: .

SCOTT, K.; TAYLOR, L.; GILL, B. P.; EDWARDS, S. A. Influence of different types of environmental enrichment on the behaviour of finishing pigs in two different housing systems 3. Hanging toy versus rootable toy of the same material. Applied Animal Behaviour Science, v. 116, p. 186-190, 2009.

SILVA, C. A.; MANTECA, X.; DIAS, C. P. Needs and challenges of using enrichment material in the pig industry. Semina Ciências Agrárias, v. 37, n. 1, p. 525-536, 2016.

SPOOLDER, H. A. M.; GEUDEKE. M. J.; VAN DER PEET-SCHWERING, C. M. C.; SOEDE, N. M. Group housing of sows in early pregnancy: A review of success and risk factors. Livestock Science, Amsterdam, v. 125, p. 1-14, 2009.

VANHEUKELOM, V.; DRIESSEN, B.; GEERS, R. The effects of environmental enrichment on the behaviour of suckling piglets and lactating sows: A review. Livestock Science, v. 143, p. 116-131, 2012.

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