Por dentro do cocho: Coprodutos da indústria de etanol de milho

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Cada vez mais comum no campo, os grãos de destilaria são coprodutos originados da indústria de etanol de milho, a partir da fermentação do amido e, dependendo da distância da unidade produtora, tem se mostrado uma ótima opção de ingrediente para compor a dieta de bovinos de corte.

Antes de mais nada, é importante saber que existem dois tipos de processamento do grão na originação do etanol, sendo que, cada um dará origem a um tipo de coproduto.

O primeiro seria o processamento convencional, que origina o que conhecemos como grãos de destilaria (DDG e DDGS ou WDG e WDGS). Neste, o milho é moído e na sequência cozido, recebendo enzimas (alfa-amilase e glucoamilase) que deixarão o amido mais disponível para a ação das leveduras durante o processo de fermentação. O material fermentado passa então pela destilação, na qual boa parte do amido dará origem ao etanol. O material residual dessa etapa contém sólidos, óleo, levedura e água, e será centrifugado, havendo a separação do material líquido e sólidos, sendo o WDG a porção com resíduos sólidos da centrifugação. A porção líquida remanescente passa pelo processo de evaporação no qual, com a retirada da água, originará o chamado solúveis de destilaria condensados (Xarope ou CDS). Esses solúveis podem ser vendidos ou, então, incluídos na porção sólida obtida na centrifugação, dando origem ao WDGS (grãos de destilaria com solúveis). Quando o WDG e WDGS passam pelo processo de secagem, dão origem ao DDG e DDGS, respectivamente. Na etapa de centrifugação, muitas industriais conseguem retirar parte do óleo do material residual, que é comercializado como óleo degomado.

O outro tipo de processamento utiliza um método mais moderno para processar o milho e origina um outro coproduto, mais fibroso, diferente dos grãos de destilaria, chamados de WDBS e DDBS. Nesse processamento o diferencial está na etapa de centrifugação, que ocorre antes da etapa de fermentação. O milho moído e cozido, já acrescido das enzimas, é centrifugado, para que ocorra a separação da fibra do grão (chamada de fibra úmida) dos demais componentes (amido, proteína, minerais, vitaminas). Esse processo de separação visa concentrar mais os componentes de interesse, aumentando a eficiência de fermentação e produção de etanol. As etapas que seguem são muitos semelhantes ao processamento convencional, porém, o coproduto originado é um material com alta proteína, que após ser seco é chamado de HPDG (high protein destillers grain), que apresenta mais de 42% de proteína e tem como foco principal a alimentação de monogástricos. A fibra úmida, retirada na primeira etapa de centrifugação, originará o WDB que, ao receber os solúveis condensados (xarope), dará origem ao WDBS (fibra úmida com solúveis), muito comum no Brasil. Essa fibra úmida pode ainda passar por uma secagem, originando o DDB que, com a inclusão do xarope, origina o DDBS (fibra seca com solúveis). No Brasil existem 2 empresas que trabalham com esse tipo de processamento, originando o WDBS e DDBS, localizadas em Goiás e Mato Grosso.

Resumindo, temos que, do processo de fermentação do milho para produção de etanol, os principais coprodutos originados e que podem ser utilizados na alimentação de bovinos de corte são:

– DDGS e DDG: grãos de destilaria secos, com e sem solúveis. No Brasil é mais comum a comercialização do material com solúveis (DDGS);

– WDGS e WDG: grãos de destilaria úmidos, com e sem solúveis. Também é mais comum encontrar no Brasil o produto com solúveis (WDGS);

– WDBS e DDBS: são coprodutos com solúveis, com mais fibras e menos proteína. Esses coprodutos, muitas vezes, são comercializados erroneamente como DDG ou WDG, uma vez que não passam pelo processo de destilação.


Composição e particularidades dos coprodutos do etanol de milho

As principais fontes de proteína verdadeira e energia utilizadas na nutrição de bovinos de corte no Brasil são o milho e farelo de soja. Com a elevação dos preços desses insumos no mercado, é natural que outras fontes de energia e proteína sejam consideradas como substitutas. Os grãos de destilaria têm assumido um importante papel nesse sentido, sendo utilizados para substituir tanto fonte proteica quanto parte da fonte energética, dependendo dos preços do insumo praticados no mercado. Surge então a necessidade de conhecer como são produzidos, assim como sua composição química, para definir de que forma ele pode ser incluído nas dietas dos animais.

Já vimos que, durante o processamento do milho para produção de etanol, o amido é retirado, tornando proteicos os coprodutos originados dessa indústria, já que a proteína do grão de milho, além de outros componentes como fibra (% FDN) e extrato etéreo (% EE), se concentram nesse resíduo. Porém, resultados experimentais e a campo têm demonstrado bons resultados ao incluir esses coprodutos, em substituição parcial ao milho, nas dietas de bovinos de corte, apresentando valores alimentares superiores ao milho (cerca de 10 a 50% superiores), mostrando então que este pode ser considerado também um ingrediente energético.

Parte dos resultados obtidos na substituição do milho pode ser explicado pela maior concentração de óleo presente nesses resíduos. Mesmo com a mudança no processamento e a retirada de parte do óleo do milho, os coprodutos encontrados ainda apresentam valores de extrato etéreo entre 6 a 8%.

Outro ponto que pode ajudar a explicar o papel energético dos coprodutos está ligado ao elevado teor de proteína não degradável no rúmen (PNDR). A PNDR, que fica em excesso em dietas com esses coprodutos, ao chegar no intestino, eleva o aporte de proteína metabolizável, aumentando o aporte de aminoácidos disponíveis para o animal. Uma parte desses aminoácidos é utilizada pelos tecidos dos animais para síntese proteica. Outra parte, após deamiado, pode virar glicose (energia) no fígado.

O elevado teor de PNDR nos coprodutos é explicado pelo processamento do milho: 1º) presença de glúten que não é retirado durante o processamento para obtenção do amido para produção de etanol; 2º) elevada temperatura utilizada durante o cozimento, promovendo uma reação química, denominada “reação de Maillard”, que diminui a digestibilidade da proteína.

A elevada fração de PNDR desses insumos é também o que o coloca como ótima opção para substituir as fontes de proteína verdadeira, como o farelo de soja.

A quantidade de proteína dos coprodutos pode apresentar uma elevada variação, devido aos diferentes processamentos e diferentes indústrias. No caso específico do DDBS e o WDBS, é possível encontrar uma variação considerável na quantidade de proteína bruta (18 a 33%), dependendo da planta industrial que é produzido.

Tabela 1. Comparação da composição química dos ingredientes com base na matéria seca

Milho moído

Grão úmido

DDGS

WDGS

DDBS (MT*)

WDBS (MT*)

WDBS (GO*)

HPDG (MT*)

%MS

87,22

70,54

90,00

31,44

88,50

42,40

33,82

94,50

%PB

8,79

8,75

30,79

30,63

18,20

18,20

33,85

44,34

%FDN

9,72

9,86

33,66

31,52

48,58

50,50

52,49

33,10

%EE

3,81

3,93

6 – 8

6 – 8

6 – 8

6 – 8

6,79

9

%NDT

87,60

90,40

89,00

98,00

—-

—-

—-

—-

Fonte: Portela, 2020 – Curso de coprodutos de etanol de milho para bovinos de corte.
*MT – empresa produtora de etanol localizada no Mato Grosso/ GO – empresa produtora de etanol localizada em Goiás

 

Uso dos coprodutos na alimentação de bovinos de corte

A inclusão dos coprodutos das indústrias de etanol de milho na alimentação de bovinos de corte permite diminuir a quantidade de carboidratos não fibrosos (como o amido e açucares), o que pode ajudar a manter um bom ambiente ruminal, diminuindo riscos de distúrbios metabólicos como a acidose.

Adotando a inclusão de até 20% na dieta, os coprodutos atuarão como fonte de proteína. Acima desse valor, assumem também papel energético na alimentação de bovinos de corte, sendo que a ótima resposta dos animais ocorre com uma inclusão de 30% na matéria seca. O ideal é que a substituição do milho por esses coprodutos fique entre 30 a 40%, pois valores maiores de substituição promovem queda no desempenho dos animais.

O uso dos coprodutos da indústria de etanol apresenta uma melhor resposta quando utilizado em dietas em que o milho sofre pouco processamento, já que, quando o milho passa por processamentos, como grão úmido ou reidratado, a dieta já está com elevada quantidade de energia. Além disso, como os coprodutos são utilizados visando reduzir os custos alimentares, ao processar o milho, os seus custos já são reduzidos.

Pontos de atenção

Enxofre

Dependendo do tipo de processamento do milho para produção de etanol, os coprodutos originados poderão ter elevada quantidade de enxofre (0,6 a 1,8%). Esse mineral é um ponto de alerta para os nutricionistas que manipulam os grãos de destilarias nas dietas de bovinos, uma vez que, em excesso, pode ocasionar sérios problemas de saúde, como por exemplo poliencefalomalácia, além de prejudicar o metabolismo e absorção de cobre. O enxofre é adicionado ao processo de produção de etanol através do ácido sulfúrico, na etapa de fermentação, visando reduzir o pH do material. Sendo assim, o DDG e o WDG tendem a ter um valor elevado de enxofre, pois ambos são oriundos do processo de fermentação. Já os coprodutos fibrosos (DDBS e WDBS), mais comercializados no Brasil, não são originados após o processo de fermentação, já que são obtidos através da centrifugação antes da etapa de fermentação. Além disso, a produção dos coprodutos fibrosos não recebe ácido sulfúrico, pois a adição de leveduras já controla o pH, semelhante ao processamento da cana de açúcar para produção de etanol, o que faz com que os solúveis adicionados ao DDB e WDB também apresentem baixa quantidade de enxofre.

Nesse sentido, é importante saber qual produto de fato está sendo ofertado (grãos de destilaria ou coproduto fibroso), o tipo de processamento utilizado, além da realização de uma análise para constatar a quantidade de enxofre presente no insumo.

Volumoso na dieta

As fibras úmidas com solúveis (DDBS e WDBS), apesar de serem coprodutos com maior quantidade de fibra, não devem ser utilizadas como possíveis substitutos de volumoso, uma vez que a fibra presente nesses alimentos é altamente digestíveis, apresentando pouca efetividade no rúmen (cerca de 4%, segundo NRC 2016). Dietas com esses coprodutos devem apresentar uma fração segura de fibra fisicamente efetiva, assim como qualquer outro tipo de dieta.

Transporte e armazenamento

O uso de coprodutos úmidos (30 a 45% de matéria seca) deve ser considerado em propriedades que estejam próximas às indústrias produtoras de etanol, já que a elevada umidade impacta no custo do frete, o que inviabiliza seu uso por questões financeiras.

Um outro ponto importante é o armazenamento de produtos úmidos. O WDGS ou WDDBS, ao ficar exposto ao oxigênio pode se deteriorar em questão de dias (3 a 4 dias). Por esse motivo, muitas propriedades acabam recebendo o produto a cada 3 a 5 dias, o que reduz as perdas nutricionais. Uma outra opção para manter a qualidade do material por mais tempo diz respeito a ensilagem. Esta pode ser feita em silos bolsa, por exemplo.

Já os coprodutos secos não apresentam problemas em relação ao armazenamento, podendo ser guardados, em boas condições, assim como o milho e farelo de soja.

 

Algumas considerações…

O uso desses coprodutos na alimentação de bovinos de corte ainda não é uma realidade em todo o Brasil e sua utilização ainda está restrita a regiões onde é produzido. Ainda temos muitas informações baseadas em resultados americanos, onde o milho, a dieta e manejo do gado, são diferentes. Com toda certeza os coprodutos da indústria de etanol farão parte da realidade pecuária brasileira, mas ainda estamos na etapa de conhecimento mais aprofundado desse insumo e de como encaixá-lo da melhor forma na realidade brasileira.

Os coprodutos originados da indústria de etanol de milho podem apresentar muita variabilidade em sua composição, dessa forma, é importante sempre estar atento em qual planta industrial está originando o coproduto, saber o processo utilizado para extração do etanol e realizar análises laboratoriais. Assim, o uso dos coprodutos pode ser feito de forma correta, otimizando o desempenho dos animais.

O preço dos insumos, aliado à composição nutricional do coproduto e seu valor alimentar, poderá servir como base para se atingir o melhor custo-benefício alimentar.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

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