Por dentro do cocho: Perfil nutricional dos diferentes tipos de DDGs

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imagem destaque do artigo sobre DDG

Após entendermos os diferentes processos de produção do etanol, que irão gerar diferentes coprodutos, o próximo passo é entender a composição de cada um deles e assim definir a melhor forma de utilizá-los, seja no confinamento, seja na suplementação a pasto.

O grão de milho pode ser dividido em três partes principais: pericarpo, endosperma e gérmen. O pericarpo, corresponde cerca de 7% do grão do milho e é composto basicamente por fibras de alta digestibilidade. O endosperma representa 70 a 80% do grão e é composto por amido e proteínas. Já o gérmen corresponde a 11% do grão e é composto por óleo, minerais e açucares.

ddg
Figura 1. Estrutura do grão de milho

No processamento convencional, todo o grão de milho, após moagem, cozimento e adição de enzima/leveduras, passa pela etapa de fermentação e destilação.

Os coprodutos originados desse processo – o WDG e DDG tradicionais – caracterizam-se por apresentar fibra de alta digestibilidade (fonte de energia), bom teor de proteína (cerca de 60% de proteína não degradável no rúmen), bom teor de extrato etéreo (mesmo com a retirada parcial do óleo na etapa de centrifugação após a destilação) e minerais. Como 2/3 do grão de milho é amido, o que vemos é a concentração de 3x dos demais nutrientes no resíduo da destilaria (a exceção da proteína).

Algumas indústrias incorporam ainda os solúveis de destilaria a esse coproduto, originando o WDGS e o DDGS. Pode-se dizer que os coprodutos originados no processamento convencional são “alimentos completos”, atuando como uma boa fonte proteica (podendo substituir 100% o farelo de soja, por exemplo) e boa fonte de energia (substituindo parcialmente o milho). Vale lembrar que apesar de ter FDN (fibra em detergente neutro) mais alta, esta não deve ser utilizada em substituição de volumoso na dieta.

No outro tipo de processamento, que envolve a retirada da fibra antes da etapa de fermentação, tem-se outros dois produtos com características diferentes do citado acima. O pericarpo retirado nada mais é do que a casca que protege o grão de milho e é composto por celulose (23%) e hemicelulose (67%). Essa alta concentração de fibra digestível faz com que esse coproduto, conhecido como farelo de milho, atue como uma fonte alternativa de energia, permitindo diminuir a quantidade de carboidratos não fibrosos (como o amido e açúcares), o que pode ajudar a manter um bom ambiente ruminal, diminuindo riscos de distúrbios metabólicos como a acidose. Como esse coproduto corresponde ao pericarpo, tem baixo teor de proteína. Algumas indústrias adicionam os solúveis a esse coproduto, melhorando parcialmente seu teor de proteína.

Ao retirar fibra antes da fermentação, origina-se um material concentrado em amido, proteínas, óleo, minerais e açúcares, que correspondem ao endosperma e gérmen. O amido é consumido por leveduras durante o processo de fermentação, originando etanol. Parte do óleo é retirado na etapa de centrifugação, que ocorre após a fermentação e destilação. Sendo assim, origina-se um coproduto que apresenta uma boa fonte proteica (rico em proteína não é degradável no rúmen), minerais e açúcares, com baixo teor de fibra, que recebem o nome de DDG de alta proteína. Normalmente, esse coproduto não recebe os solúveis.

O elevado teor de óleo (com grande escape para o intestino, não prejudicando a fermentação ruminal), aliado à elevada proteína não degradável no rúmen (PNDR), explicam parte do benefício energético desses coprodutos. A PNDR, que fica em excesso em dietas com esses coprodutos, chega ao intestino e eleva o aporte de proteína metabolizável, aumentando a oferta de aminoácidos para o animal. Uma parte desses aminoácidos é utilizada para síntese proteica pelos tecidos dos animais. A outra parte é quebrada e pode virar energia (glicose) no fígado.

De forma geral, inclusões de até 20% na dieta permitem que os coprodutos atuem como fonte de proteína. Acima desse valor assumem o papel energético na alimentação de bovinos de corte, sendo que a ótima resposta dos animais ocorre com uma inclusão de 30 a 40% na matéria seca. Mais estudos relacionados a inclusões dos coprodutos, originados do processamento em que ocorre a separação da fibra, são necessários, já que esse método de produção de etanol é relativamente novo e os insumos originados dele apresentam características muito distintas dos grãos de destilaria convencionais.

Tabela 1. Comparação da composição química de alguns ingredientes com base na matéria seca

 

DDGS

WDGS

Farelo de milho seco com solúveis

Farelo de milho úmido com solúveis

DDG de alta proteína

% MS

90,00

31,44

88,50

33 – 42

94,50

% PB

30-31

30-31

15-20

15-35

40-48

% EE

5-9

6-8

6-8

6-8

7-9

% FDN

33,66

31,52

48,58

50 – 52

33,10

 

Algumas considerações…

  • Enxofre

O excesso de enxofre em dietas costuma ser um ponto de alerta para os nutricionistas, porque, em excesso, pode reduzir o consumo de matéria seca, prejudicar a absorção do cobre e ainda, em casos extremos, causar problemas de saúde como a poliencefalomalácia.

Os coprodutos da indústria de etanol de milho apresentam elevada quantidade de enxofre, assim como de outros minerais como, por exemplo, o fósforo (com boa biodisponibilidade). Isso ocorre porque ao se retirar o amido do milho para produzir o etanol todos os outros componentes nutricionais ficam concentrados no que sobrou no grão.

Muitas vezes, o elevado teor de enxofre é relacionado ao uso de ácido sulfúrico na indústria. Atualmente, o ácido sulfúrico é utilizado para limpeza dos equipamentos e, posteriormente, é recolhido, minimizando os riscos de contaminação. Nos Estados Unidos ocorre uma maior preocupação com o enxofre, incorporado nos coprodutos decorrentes do processo, mas isso se deve ao fato de a água americana (utilizada no processo) apresentar alta quantidade de sulfato (fonte de enxofre).

 

  • Proteína

A proteína dos coprodutos convencionais (WDG/DDG) e do DDG de alta proteína é basicamente composta pelas proteínas presentes no gérmen (albuminas, globulinas e gluteínas) e pelas células das leveduras, utilizadas no processo de fermentação, o que a torna uma proteína de boa qualidade. A maior parte dessa proteína não é degradada no rúmen (PNDR), escapando para o intestino, onde é absorvido e utilizada como proteína metabolizável.

As indústrias – em geral – controlam a temperatura de todo o processo que originará os coprodutos, dessa forma a proteína desses alimentos não sofrem reação de Maillard e são bem aproveitadas pelos animais no intestino, sendo este um ponto de atenção.

 

  • Solúveis condensados de destilaria

Os solúveis também são coprodutos oriundos da produção de etanol, originados após a etapa de fermentação e destilação. Esse coproduto pode ser comercializado, o que é comum ocorrer nos Estados Unidos, ou incorporados aos outros coprodutos (WDG/DDG e farelo de milho), como ocorre no Brasil.

A quantidade de solúveis incorporados aos coprodutos pode influenciar as características físicas (os solúveis deixam o coproduto mais escuros) e nutricionais do alimento. Os solúveis são ricos em células de leveduras e aminoácidos, o que os transforma em boa fonte de proteína, podendo melhorar o desempenho dos animais quando incluído cerca de 20% nas dietas.

Não existe uma normativa que especifique a quantidade mínima de solúveis que precisa ser incorporada aos coprodutos para que eles sejam nomeados como “enriquecidos com solúveis”, sendo esta inclusão a critério de casa usina.

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  • Volumoso na dieta

Os grãos de destilaria convencionais (WDG, WDGS, DDG e DDGS) ou o farelo de milho, apesar de apresentarem alta quantidade de fibra, não devem ser utilizados como possíveis substitutos de volumoso na dieta, uma vez que a fibra presente nesses alimentos é altamente digestível, apresentando pouca efetividade no rúmen (cerca de 4%, segundo NRC 2016). Dietas com esses coprodutos devem apresentar uma fração segura de fibra fisicamente efetiva, assim como qualquer outro tipo de dieta.

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  • Transporte e armazenamento

O uso de coprodutos úmidos (30 a 45% de matéria seca) deve ser considerado em propriedades que estejam próximas às indústrias produtoras de etanol, já que a elevada umidade impacta no custo do frete, o que inviabiliza seu uso por questões financeiras.

Um outro ponto importante é o armazenamento de produtos úmidos. O WDGS ou WDDBS, ao ficar exposto ao oxigênio pode se deteriorar em questão de dias (3 a 4 dias), por esse motivo, muitas propriedades acabam recebendo o produto a cada 3 a 5 dias, o que reduz as perdas nutricionais. Uma outra opção para manter a qualidade do material por mais tempo diz respeito à ensilagem. Esta pode ser feita em silos bolsa – exemplo -, porém cabe dizer que faltam estudos sobre ensilagem desses materiais úmidos.

Já os coprodutos secos não apresentam problemas em relação ao armazenamento, podendo ser guardados, em boas condições, assim como o milho e farelo de soja, por até 1 ano.

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Atenção!

Assim como quaisquer outros, os coprodutos originados da indústria de etanol de milho podem apresentar muita variabilidade em sua composição, muitas vezes relacionada ao processamento, matéria-prima, quantidade de solúveis incorporados, entre outros fatores.

A informação sobre qual coproduto – de fato – está sendo ofertado (DDG, Farelo de milho, DDG de alta proteína), aliado à uma análise bromatológica e o seu preço, poderá servir como base para se atingir o melhor custo-benefício alimentar.

Além disso, não podemos esquecer que aqui, no Brasil, temos muitas opções de insumos e outros coprodutos em diversas regiões do país, além de diferentes perfis de dietas. Sendo assim, entender como cada um desses diferentes coprodutos atuam em combinação com os mais variados insumos é de extrema importância para uma nutrição de precisão.

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Lembre-se:
Nem tudo que está sendo vendido é DDG.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

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