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Rentabilidade da suinocultura – Aumento de matrizes ou do peso ao abate?

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Rentabilidade da suinocultura

Rentabilidade na suinocultura

Em momentos de reinvestir na atividade da suinocultura, muitos produtores buscam ampliar o número de matrizes, o que garante um crescimento orgânico do negócio. No entanto, é necessário aproximadamente um ano para que se inicie o retorno sobre o investimento, da aquisição das matrizes até a venda dos cevados, o que pode submeter o sistema produtivo aos riscos naturais da suinocultura, os quais compreendem as oscilações de preço de venda dos cevados e custo com alimentação. Nesse sentido, o custo aproximado para a ampliação de granjas de suínos, em ciclo completo de produção, será considerado de US$ 3.000,00 por matriz instalada, dado que se considera como base para cálculos de investimentos em suinocultura no Brasil e em outros países das Américas. Esse custo tem uma variação regional. Varia de acordo com os elementos que farão parte do orçamento de custo de implantação, mas serve como base para a nossa discussão neste material e poderá ser transformado por cada um dos leitores na sua realidade, o que vai nos importar realmente é o raciocínio comparativo.

O método de alocação dos custos seguirá a metodologia proposta pelo Índice de Custo de Produção do Suíno Paulista do Laboratório de Pesquisa em Suínos da FMVZ – USP (ICPS) e contemplará três categorias: i) custos variáveis (alimentação do rebanho; despesas veterinárias com vacinas e medicamentos; manejos reprodutivos; bens de consumo, como: luvas e agulhas, dentre outros; despesas com transporte, carregamento e seguros e outras despesas variáveis, como: ICMS, FUNRURAL e outras taxas variáveis); ii) custos fixos (mão de obra assalariada; despesas com telefonia, internet, energia e combustíveis; depreciações de ativos biológicos, benfeitorias, instalações, máquinas e equipamentos; manutenção desses mesmos itens; e outras despesas fixas, como o ITR, impostos e taxas fixas); iii) custo de oportunidade do capital e da terra (remunerações sobre o capital imobilizado; capital de giro; e remuneração da terra). Assim, todos os itens de custo foram alocados de acordo com a “Teoria Econômica”. Para esse trabalho, não incluiremos os custos de oportunidade nos cálculos, exceto o capital investido no crescimento da granja, que é o objetivo da discussão.

Rentabilidade da suinocultura

Simulamos o processo de crescimento de uma granja hipotética de mil matrizes, de acordo com a premissa de custo de implantação. Para que a granja tenha um crescimento na produção de 330 cevados ao mês, será necessário implantar mais 140 matrizes, presumindo uma venda média de 28 cevados por matriz instalada. Considerando que essa granja tenha como rotina abater os animais aos 110 kg de peso vivo, teremos uma projeção de vendas de 292 toneladas ao mês com o incremento de 140 matrizes. No cenário anterior, aquela granja com mil matrizes produzia 260 toneladas. Para esse crescimento na produção da granja, seria necessário o investimento de R$ 2,3 milhões, ou US$420 mil. Uma vez que, didaticamente não haveria crescimento no peso de venda dos cevados, a lucratividade percentual da fazenda continuaria como sempre foi, ainda que o valor lucrado seria proporcional ao novo volume de animais vendidos. Vale ressaltar que esse novo volume deverá estar de acordo com os custos atuais, pois houve aumento de produção, mantendo o mecanismo, principalmente o peso de abate. Para a simulação dessa lucratividade foi considerado os custos fixos da produção, representando 31% dos custos totais e os 69% restantes foram atribuídos ao custo da alimentação dos animais, segundo a metodologia proposta pelo ICPS. Para essa distribuição de custos não levamos em consideração o custo da terra e a remuneração sobre o capital investido na atividade já instalada, que para o exemplo em discussão foi de 1000 matrizes, por entender que esses dois fatores são rendas do produtor, através do fechamento final da atividade econômica da propriedade. Lembrando que, na conjuntura econômica atual, vivemos alta proporção dos custos da alimentação sobre o custo final da atividade de produção industrial de suínos no Brasil.

O mesmo aumento de volume de peso, em kg, de vendas de cevados pode ser atingindo através do aumento no peso do abate, elevando-se o peso de abate da granja de 110 kg para 125 kg. Nesse caso, haveria a mesma produção total de carne, 292 toneladas ao mês, com as mesmas mil matrizes da granja hipotética inicial. Mas vocês devem estar se perguntando: haverá espaço na granja para estender a terminação por mais 15 dias? Sim, essa é a resposta. Haverá a necessidade de ampliação das terminações para mais 15 dias de alojamento. Considerando que os animais modernos ganham mais de 1,0 kg ao dia de peso, serão necessários mais 15 dias de capacidade de alojamento na terminação para suportar esse aumento. O custo médio da construção civil subiu consideravelmente e deve ter variações importantes em cada uma das regiões. Assim, para a ampliação das instalações gerais, deverá ser considerado o valor de mercado de US$ 3.000,00 por matriz instalada e para a ampliação da terminação o valor de US$ 60,00 por metro quadrado de construção dos galpões. Partindo desses valores, seria necessário um investimento aproximado de R$ 2,0 milhões no aumento das instalações de terminação, além do custo adicional com as rações, devido ao aumento do tempo de permanência dos animais na terminação. Os cálculos iniciais podem ser observados na tabela 1.

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Considerando que haverá novos investimentos em instalações e aumento do volume de ração produzida, os custos fixos serão praticamente mantidos, em função da manutenção do número de matrizes. O custo de produção por quilograma de animal vendido ao mês será reduzido devido à diluição do custo da ração, já que as rações finais são consideravelmente mais baratas que as rações da creche e da maternidade. Atualmente, a redução poderá atingir de 2 a 3% os custos de ingredientes. Ao final, a lucratividade percentual da granja eleva-se em dois pontos percentuais, se comparados ao modelo de ampliação de matrizes instaladas, partindo das mesmas premissas estabelecidas para a formação do custo de produção. Em síntese, seria possível elevar a lucratividade da unidade de produção em dois pontos percentuais optando-se por aumentar o peso de abate dos animais em comparação ao aumento do número de matrizes instaladas, com isso o montante lucrado mensalmente seria mais favorável. A comparação financeira entre as alternativas avaliadas pode ser observada na tabela 2.

Tabela 2. Comparação financeira entre as alternativas propostas

Premissas Básicas

Partida

Alternativa 1 – maior número de matrizes

Alternativa 2 – aumentar peso de abate

Número de matrizes

1000

1140

1000

Vendidos por matriz produtiva

2333

2660

2333

Peso de Abate

110

110

125

Produção mensal (kg)

256.667

292.600

291.667

Consumo 1 (kg) *

526.167

599.830

526.167

Consumo adicional (R$) **

212.733

Custo de Implantação (R$) ***

2.352.000,00

2.016.000,00

Custo médio produção de cevado (R$/kg cevado)

7,37

7,37

7,21

Redução do custo médio de produção (%)

2,10

Receita bruta mensal

1.925.000

2.194.500

2.187.500

Custo mensal de produção

1.890.964

2.155.699

2.103.697

Lucro bruto mensal

34.036

38.801

83.803

Margem bruta

1,77%

1,77%

3,83%

* Considerou-se a conversão alimentar como 2,05

** Considerou-se a conversão alimentar como 3 e o preço da ração como R$ 2,03

*** Custo de implantação por matriz de U$ 3000 e custo por metro quadrado na terminação U$ 60, com U$ 1 equivalendo a R$ 5,6.

É importante lembrar que o raciocínio matemático foi simulado para a equiparação do volume de carne produzida nos dois sistemas, sendo um caminho a elevação do número de matrizes instaladas e o outro a elevação do peso ao abate.

Para atingir o mesmo montante, aproximado, de valor monetário captado com o investimento em aumento do peso de abate, seria necessário implantar muito mais matrizes na mesma granja original de 1000 matrizes, porém, a lucratividade relativa seria mantida a mesma obtida com a granja original, já que os custos fixos seriam acrescidos praticamente na mesma intensidade, considerando que todas as instalações teriam que ser ampliadas. Para esse cálculo, não foi considerado o custo de oportunidade do capital investido na ampliação, pois os dois valores foram muito parecidos, mas no caso do crescimento do plantel de matrizes, seria necessário um ano para o início do retorno financeiro. Já para o caso da ampliação da terminação, aumentando o peso de abate para 125 kg, seriam necessários apenas 15 dias de tempo entre a instalação finalizada e a venda do primeiro produto desse investimento.

O mercado de suínos para o abate é bastante diverso entre as diferentes praças de comercialização. Os abates da região sudeste e do nordeste do país são mais fortemente direcionados para a comercialização de carne in natura, por isso preferem animais mais leves, próximo dos 110 kg. Esse fator é o maior incentivador do padrão de peso ao abate dessas regiões. Entretanto, os mercados do sul e centro-oeste do país são bastante voltados para o processamento da carne. Para essas destinações, o aumento no peso individual das carcaças é favorável para a melhoria da eficiência das plantas frigoríficas, já que permitem a otimização das instalações e mão de obra. Com vistas sobre esta simplificada análise dos comportamentos dos mercados consumidores de suínos para o abate, percebe-se a oportunidade de ampliação de rentabilidade para as regiões que estão abatendo animais mais leves, já que também existirá ganho de rentabilidade para os frigoríficos que passarem a receber animais mais pesados para o processamento. Esse comportamento pode ser observado ao longo dos anos. Mesmo as regiões mais tradicionais têm implantado aumentos no peso do abate dos animais para melhorar a qualidade das suas operações financeiras na indústria de processamento de suínos abatidos. A tendência nacional de aumento do peso ao abate pode ser observada na Figura 1.

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Figura 1. Peso vivo médio de abate de suínos no Brasil nos últimos 10 anos (Adaptado de: ABPA, 2020)

Voltando ao exercício da simulação e, considerando que as maiores indústrias de processamento de carne suína do país que, segundo a ABCS, respondem por mais de 65% do abate nacional e já estão abatendo animais com mais de 130 kg de peso vivo, realizamos o cálculo para avaliar o quanto seria incrementada a taxa de lucratividade do mesmo sistema hipotético de 1000 matrizes. A coparação pode ser observada na tabela 3.

Tabela 3. Comparação financeira entre abate aos 110, 125 e 135 kg.

Premissas Básicas

Granja original

Abate aos 125 kg

Abate aos 135 kg

Número de matrizes

1000

1000

1000

Vendidos por matriz produtiva

2333

2333

2333

Peso de Abate (kg)

110

125

135

Produção mensal (kg)

256.667

291.667

315.000

Consumo geral p/ ciclo completo (kg) *

526.167

526.167

526.167

Consumo adicional (R$) **

212.733

212.733

Consumo adicional 2 (R$) **

151.277

Custo de Implantação (R$) ***

2.016.000,00

3.360.000

Custo médio produção de cevado (R$/kg cevado)

7,37

7,21

7,16

Redução do custo médio de produção (%)

2,10%

2,83%

Receita bruta mensal R$

1.925.000

2.187.500

2.362.500

Custo mensal de produção R$

1.890.964

2.103.697

2.254.974

Lucro bruto mensal R$

34.036

83.803

107.526

Margem bruta

1,77%

3,83%

4,55%

Consumo geral por ciclo completo, matrizes e cevados até 100 kg de peso vivo; ** Consumo adicional para elevação do peso de 110 aos 125 ou 135; ***Custo da implantação das instalações para a terminação adicional; Custo médio de produção em R$ / kg de peso produzido.

O percentual da lucratividade foi acrescido em 2,8 pontos percentuais quando comparado o abate aos 110 kg para animais abatidos aos 135 kg de peso vivo. O acréscimo em percentual de lucratividade por animal parece ser pequeno, mas na conjuntura descrita neste exemplo, representa sair de R$14,59 de lucro bruto por cevado vendido aos 110 kg e chegar a R$46,09 para cevados vendidos aos 135 kg de peso vivo, aumento de 215% no valor absoluto do lucro bruto por animal vendido. Sabe-se que os valores absolutos são particulares de cada sistema de produção, por isso evitamos utilizá-los no texto, mas podem demonstrar os ganhos em lucratividade que podem ocorrer a partir da ampliação do peso do abate.

Como já demonstrado em cálculos, na tabela 1, há uma importante vantagem em aumentar a produção de uma granja, incrementando o peso de abate e não aumentando o número de matrizes, uma vez que os custos fixos de produção são diluídos. Com base nesse raciocínio, seria interessante analisar as principais consequências associadas ao aumento de peso de abate.

Enquanto o mercado brasileiro não pode ser considerado homogêneo (algumas regiões tendo preferências por animais mais leves e outras que favorecem a escolha de carcaças mais pesadas), a tendência mundial é clara: o abate com cevados mais pesados já é adotado. As normas em países como EUA, Canadá, Alemanha e Itália já são abater animais com mais de 110 kg e, em algumas situações, podendo chegar a preferência de carcaças com até 130 kg.

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Apesar disso, ainda existe uma certa preocupação entre os produtores sobre a qualidade e composição da carne de animais mais pesados, o que poderia levar a produção de uma carne mais gorda e tornando o produto menos atrativo para os consumidores. No entanto, as empresas que se dedicam a comercialização de materiais genéticos têm programas acelerados de melhoramento que estão se adaptando a essas tendências. Já possuem animais adaptados para o abate tardio, para a produção de carnes mais atrativas para o consumo in natura e, sobretudo, animais mais eficientes em taxa de crescimento e conversão alimentar. O suíno moderno tem grande capacidade de ganhar peso, sem necessariamente modificar a composição de sua carcaça. Os suínos abatidos com até 130 kg não apresentam grandes mudanças na composição da carcaça. Esses animais mais pesados, inclusive, apresentam maior rendimento de carcaça que os cevados abatidos mais leves. Apesar dos avanços na genética moderna, ainda é interessante que os produtores sejam cuidadosos na alimentação dos animais, para garantir a composição de carcaça adequada.

A partir desse exercício de simulação de cenários de custos de investimentos para a ampliação das unidades de produção de suínos, esperamos ter trazido elementos aplicáveis para a tomada de decisão dos suinocultores que desejam ampliar suas atividades ou garantir maior rentabilidade para seus negócios. As condições regionais de custos de construção civil e custos com a alimentação dos animais são os dois elementos mais relevantes nesse processo de decisão. Eles precisarão ser ajustados a cada realidade, para que a análise tenha maior acurácia. Muitas vezes, percebemos que as oportunidades de melhorias da lucratividade da suinocultura, como está sendo a crise de oferta de carne suína mundial causada pelo avanço da peste suína africana na Europa e Ásia, não são adequadamente aproveitadas por causa da repetição de ações do passado. Quando a suinocultura era uma atividade de altas margens, nas décadas de 70 e 80 e o Brasil era carente de oferta de carne suína, era muito viável a expansão do número de matrizes para perpetuar as margens que já eram praticadas. Hoje, 40 anos depois, somos um dos principais produtores de suínos do mundo, temos uma estabilização do mercado interno, de consumo de carne suína e estamos nos preparando para permanecermos ocupando a posição de importante player exportador de carne suína para o mundo. Nessa conjuntura, a melhoria da lucratividade seria fundamental para suportar os intemperes do mercado internacional de carnes e firmar o Brasil como um exportador de carne suína.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

 

Autores:

Profº Dr. Cesar Augusto Pospissil Garbossa, Professor de Nutrição e Produção de Suínos no Departamento de Nutrição e Produção Animal da FMVZ/USP

Profº Dr. Cesar Augusto Pospissil Garbossa
Professor de Nutrição e Produção de Suínos no Departamento de Nutrição e Produção Animal da FMVZ/USP

 

 

Bruno Braga Carnino
Bolsista de iniciação científica do departamento de Nutrição e Produção Animal, membro do Laboratório de Pesquisa em Suínos da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP

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