Grande parte das propriedades suinícolas possui sua própria fábrica de rações. Custo, logística e facilidade na rotina explicam essa opção.
Entretanto, essa estrutura aumenta a responsabilidade e os compromissos, exigindo duas administrações diferentes, pois são equipes, custos e produções distintas.
Uma forma interessante e eficiente de enxergar esse cenário é encarar a granja e a fábrica de rações como empresas distintas; ou melhor: pensar que a granja é o cliente e a fábrica de rações, o fornecedor. Esse modo de pensar pode ser uma virada de chave quanto a forma de gerenciar os setores.
Abaixo serão descritos itens que desvendam essa linha de raciocínio, podendo ser utilizados como reestruturação organizacional em casos de propriedades que já atuam dessa forma; ou como planejamento para implantação do sistema. Como exercício, trataremos durante o texto a granja como cliente e a fábrica de rações como fornecedor.
Para iniciar, o cliente deve ter em mente exatamente o que precisa para o pedido ser feito corretamente e com antecedência, a fim de evitar situações prejudiciais com o fornecedor.
Imagine que uma lanchonete peça seus pães sem consumo previsional. Isso certamente gerará prejuízo ou pela falta do insumo ou pela entrega após os pães terem acabado, impossibilitando a lanchonete de produzir e vender seus lanches. É um exemplo simples, porém, é uma boa analogia com a granja: se não pedir ração na quantidade (e características) correta, não produzirá eficazmente.
Para realizar o pedido, a granja precisa de algumas informações: quantos animais há em seu plantel de acordo com a categoria animal; qual a idade média do lote de cevados ou em qual período gestacional ou lactacional se encontram suas fêmeas; e o consumo previsto para cada fase.
Com essas informações em mãos, multiplica-se a quantidade de animais pelo consumo previsto no período (exemplo: sete ou quinze dias). Para tornar ainda mais preciso esse cálculo, uma importante atividade, muitas vezes é deixada de lado ou não é feita corretamente, é a leitura de silo.
É por meio da leitura de silo que se obtém a quantidade de ração sobrante no silo, resultado do consumo dos animais. Vejamos a seguir o esquema que ilustra o cálculo e alguns exemplos do porquê é importante considerar a sobra de ração:
Para elucidar a importância da correta leitura de silo, tem-se as seguintes situações:
Capacidade do silo:
Simplesmente por não considerar a ração sobrante, o pedido de ração realizado pode exceder a capacidade do silo, gerando transtornos tanto para a equipe da granja – forçando o ensaque da ração excedente ou procurando um outro silo para descarregar a ração –, quanto para os motoristas dos caminhões graneleiros, pois atrasa o processo de entrega de rações e, por conseguinte, prejudica a rotina da fábrica de rações, que depende do retorno do caminhão para despachar e produzir outras rações.
Troca de tipo de ração:
O programa alimentar é desenhado para garantir que os animais recebam os nutrientes necessários e consigam atingir o máximo potencial genético ao melhor custo financeiro.
A falta de acompanhamento frequente da sobra de ração pode prejudicar as trocas de tipo de ração de acordo com a idade dos animais. Como exemplo, basta imaginar que um lote de recria tenha que mudar o tipo de ração durante os próximos dias, mas o silo está com uma quantidade muito alta, impedindo que a granja solicite a nova ração.
Esse cenário pode prejudicar fatores financeiros, pois a granja não utilizará a ração de melhor custo-benefício para a fase em questão. Ou seja, os animais consumirão uma ração com custo mais alto do que o necessário. Concomitantemente, impede que os nutricionistas avaliem de forma eficiente o programa alimentar, já que os animais não estão consumindo o que foi programado – tanto em dias quanto em quantidade, provavelmente.
Se as rações envolverem medicamentos, a situação é ainda mais preocupante: os animais consumirão quantidades excessivas do princípio ativo ou quantidade aquém do prescrito, podendo, respectivamente, intoxicar os animais ou não causar efeito algum.
Qualidade da ração:
o movimento de descida da ração no silo, conforme exposto na imagem abaixo, impede rações que ficam na “parede” do funil de descerem, podendo demorar dias ou semanas para serem fornecidas aos animais.
Quanto mais tempo as rações ficam armazenadas, maior
é a probabilidade de diminuir sua qualidade, sofrer fermentação e por vezes causar intoxicação dos animais. Por isso, é fortemente recomendado que periodicamente os silos sejam postos a zero, evitando esses malefícios.
Controle de consumo:
O acompanhamento do consumo em tempo real é um parâmetro extremamente relevante para avaliação dos animais, especialmente dos cevados. Com base no que os animais consomem é possível identificar a má regulagem de cocho – tanto para casos de desperdício quanto para restrições; e até acometimento de doenças – já que os animais não consomem ração adequadamente quando estão enfermos.
Quanto melhor (e mais frequente) é a análise do consumo, se torna possível a elaboração de um plano de ações com tempo hábil para correções. E para conseguir realizar a monitoração eficiente desse número, é fundamental realizar a leitura de silo e calcular periodicamente o consumo dos animais (subtraindo o que sobrou pelo que foi fornecido).
Planejamento da Fábrica de Rações:
As oscilações da quantidade de ração a ser produzida de uma semana para outra são uma das principais dificuldades encontradas em fábricas de rações.
Quando há boa gestão de sobras de ração nos silos e pedidos de ração feitos com precisão, a fábrica consegue se planejar melhor, resultando em constância de produção e padrão nos procedimentos. Esse é um assunto que será aprofundado mais adiante.
Mas como se faz a leitura de silo?
A correta leitura de silo compreende a abertura do silo, subida de um colaborador utilizando os equipamentos de proteção individual (EPI) e averiguação da quantidade de ração que sobrou olhando dentro do silo por onde a ração é descarregada.
O silo é composto pelo funil e por anéis. Essas partes têm diferentes capacidades de armazenamento a depender das dimensões. Abaixo está apresentada uma ilustração exemplo a fim de orientar a leitura de silo:
É possível observar que os anéis possuem capacidade de 2 toneladas cada, e o funil tem capacidade de 3 toneladas, totalizando 7 toneladas. Conforme exposto, o primeiro anel não tem ração, o segundo tem, aproximadamente, metade da sua capacidade e o funil está completo. Portanto, a quantidade de ração sobrante é de 4 toneladas.
Uma variante bastante evidente é quanto a densidade volumétrica dos ingredientes utilizados para a produção da ração. O milho tem densidade volumétrica superior ao sorgo, diferenciando as rações quanto ao volume. Ou seja, com o mesmo peso, as rações ocupam diferentes espaços. Isso interfere significativamente na capacidade do silo e por conseguinte na leitura de silo.
Apesar dos fabricantes de silo, em geral, orientarem sobre a capacidade do silo, sugere-se fortemente que periodicamente – e especialmente quando há troca de ingredientes –os colaboradores programem o esvaziamento do silo, peçam para a fábrica produzir uma quantidade pouco menor do que a capacidade do silo (6 toneladas, utilizando o exemplo anterior). Assim que a ração for descarregada, o colaborador sobe no silo (com EPI) e observa em qual nível do silo a ração está. Dessa forma, a equipe aprende com as condições da granja, tanto pelo equipamento quanto pela densidade volumétrica de sua ração.
À medida que os colaboradores colocam essa atividade em sua rotina, eles adquirem métodos de averiguação, aumentando a acurácia, por exemplo, contando quantos parafusos – que fixam os anéis – estão aparentes.
Gestão de Produção – Fábrica de Rações
É comum, apesar de indesejável, ocorrer pedidos de ração de última hora (e no desespero) quando acaba a ração do silo e os animais já estão quase sem ração nos cochos. Quando não há programação, perde-se capacidade fabril da unidade, tornando-a susceptível a falhas nos procedimentos, aumento das horas extras da equipe, atrasos nas entregas de ração, de recebimento de matéria prima etc.
Essa situação se agrava quando há necessidade de trocas de peneira do moinho ou mudança de ingredientes, porque essas ações levam tempo e a equipe acaba acelerando a execução das atividades para cumprir a produção planejada. Por isso, é necessário implantar a Ordem de Produção de Rações.
É fundamental que seja estudado pormenorizadamente qual a capacidade de produção da fábrica de rações, levando em conta a capacidade do misturador, tempo por batida de ração, capacidade do moinho, silos de armazenagem e a capacidade de cada um, quanto tempo os colaboradores levam para fazer os procedimentos de pesagem dos micronutrientes, medicamentos e macronutrientes e o tempo para fazer a pré-mistura. São diversos fatores que impactam na produção.
Ao compilar todas as informações que interferem no potencial de produção e entrega de rações, será possível predizer quantas toneladas de ração a fábrica consegue produzir por turno, período, dia ou semana.
A partir do recebimento do pedido – feito corretamente e entregue no prazo –, a fábrica poderá correlacionar as informações passadas pela granja com a sua capacidade produtiva e organizar a ordem de produção levando em conta as instruções da Portaria 798/2023 sobre contaminação cruzada, ingredientes a serem utilizados e granulometria específica para produzir cada tipo de ração.
Também permite fazer a pesagem previa dos micronutrientes e quando houver a necessidade, a pesagem de medicamentos, fazer as pré-misturas e até procedimentos mais simples, mas que otimizam tempo como organização e abertura de sacarias.
Uma exigência para as fábricas de ração muitas vezes negligenciada é a limpeza e organização dos produtos. Com o planejamento correto, é praticável a execução dessas atividades.
Segue abaixo um modelo de Ordem de Produção de Ração. Nota-se que é adequado conter informações com o local onde a ração será descarregada, tipo de ração, quantidade e observações gerais como: limpeza, troca de ingredientes, dia de receber o pedido de rações, entre outros.
Auditoria interna
Somando todos os assuntos envolvidos descritos anteriormente, a propriedade se beneficia de uma auditoria interna, onde consegue ter um melhor controle do consumo dos animais, e a fábrica de rações que, por entrar em um ciclo de produção constante e padronizado, consegue ter facilmente em mãos a entrada e saída dos insumos.
Como consequência, possibilita um controle de estoque acertado e em tempo real, possibilitando um melhor planejamento da compra de matérias-primas e antevendo possíveis faltas de produtos para produções futuras.
Na prática
A confecção do pedido de ração deve conter informações obtidas por meio do cálculo baseado na leitura de silo, quantidade de animais e consumo previsto; além do tipo de ração requerida.
A granja deve ter uma postura de cliente, sabendo exatamente o que quer “comprar”, respeitando as condições de prazo do seu fornecedor, a fábrica de rações, que, por sua vez, deve estar estruturada para atender ao pedido e entregar um produto de qualidade e na data combinada.
Considerações Finais
Ao levar em consideração todos os assuntos abordados, a administração se torna mais eficiente, e o fluxo de produção, mais fluido, resultando em ganhos produtivos tanto para a granja quanto para fábrica de rações.
Não obstante, torna a rotina de ambas as equipes mais leve e previsível, devido à padronização dos procedimentos. E, o mais interessante, é não haver necessidade de despendimento financeiro, ou seja, basta metodologia e organização.