A produção brasileira de frangos de corte se destaca no cenário mundial em função de suas vantagens competitivas, resultantes de um ciclo produtivo curto, elevada eficiência biológica e de uma estrutura organizacional predominantemente verticalizada. Além disso, o produto final apresenta elevado valor nutricional e constitui uma das principais fontes de proteína de baixo custo disponíveis para consumo humano.
O setor avícola nacional é caracterizado pelo constante aprimoramento tecnológico e investimento contínuo em inovação, fatores que têm contribuído para o crescimento sustentado da produção. Esse avanço busca otimizar os resultados econômicos e zootécnicos, ao mesmo tempo em que promove melhorias nos aspectos sanitários, produtivos e de bem-estar das aves (ABPA, 2023).
Entre os diversos fatores que influenciam o desempenho produtivo, o manejo destaca-se como um dos principais pontos determinantes para que as aves expressem seu máximo potencial genético. Por outro lado, falhas de manejo podem comprometer o desempenho zootécnico, aumentar a incidência de doenças, a taxa de mortalidade e a desuniformidade dos lotes, além de resultar em maior número de condenações de carcaças no abatedouro (BERTOLINI, 2018).
No frigorífico, as aves são submetidas a inspeções rigorosas antes e após o abate, conforme estabelecido pelo Decreto nº 9.013/2017, que regulamenta o Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (RIISPOA). A norma prevê uma avaliação minuciosa de todas as partes das carcaças durante a inspeção post mortem, com o objetivo de identificar e destinar adequadamente aquelas que devem ser condenadas (BRASIL, 2017).
As causas de condenação são variadas e, em grande parte, provém de falhas ao longo da cadeia produtiva. De modo geral, essas causas podem ser classificadas em não patológicas e patológicas.
Causas não patológicas: associadas a falhas de manejo durante as etapas de apanha, transporte, pendura e abate, frequentemente decorrentes de captura ou manipulação inadequada das aves, o que pode ocasionar lesões, fraturas e hematomas, comprometendo a qualidade da carcaça e da carne (GARCIA et al., 2021; IANNETTI et al., 2020).
Causas patológicas: relacionadas a lesões provenientes de processos infecciosos ou de outras enfermidades que acometem as aves ainda no campo (BELINTANI et al., 2019; BERND et al., 2020).
Dentre as causas patológicas mais frequentemente associadas à condenação de carcaças no abatedouro, destacam-se a artrite, a pododermatite e a ascite. Essas afecções apresentam origens multifatoriais e estão relacionadas tanto a aspectos sanitários quanto a falhas de manejo e condições ambientais inadequadas durante a criação.

As artrites constituem um dos principais distúrbios locomotores em frangos de corte, caracterizando-se por inflamação da articulação tibiotársica, que limita a locomoção e compromete o desempenho das aves. Essa condição pode ter origem infecciosa, causada principalmente por Staphylococcus spp., Escherichia coli, Mycoplasma spp., Pasteurella spp., Salmonella spp. e o Reovírus, assim como pode estar associada a fatores ambientais, como tipo e umidade da cama, densidade de alojamento e condições inadequadas de manejo (SILVEIRA, 2022; BARRETO et al., 2022).
As aves acometidas geralmente apresentam aumento de volume articular, dor e claudicação nas formas agudas, podendo evoluir para rigidez articular e imobilidade nos casos crônicos. As lesões são caracterizadas por inchaço articular e acúmulo de exsudato purulento, caseoso ou hemorrágico, que pode se estender a ligamentos e tendões (ALMEIDA, 2020; SILVEIRA, 2022).

A transmissão do Reovírus ocorre predominantemente por via horizontal, direta ou indireta, e, em menor escala, por via vertical, a partir de reprodutoras infectadas (ASSUNÇÃO; PALKA; PAVONI, 2018; SOUZA, 2019). As aves afetadas apresentam dificuldade de locomoção, permanecendo deitadas, o que reduz o consumo de ração e água, podendo resultar em perda de desempenho e até mortalidade por inanição e desidratação (ASSUNÇÃO; PALKA; PAVONI, 2018).
No abatedouro, a artrite representa uma importante causa de condenação, já que as lesões não podem ser removidas manualmente antes do corte automático das patas, sob risco de contaminação dos equipamentos. Nos casos unilaterais, em que apenas uma pata apresenta lesão, realiza-se a retirada manual desse membro. Já nos casos bilaterais, quando ambas as patas estão acometidas, a carcaça é integralmente condenada. (BARRADAS, 2019; BRASIL, 2021).

O diagnóstico é baseado nos sinais clínicos e nas lesões observadas nas articulações, podendo ser confirmado por exames laboratoriais. O controle envolve a adoção de boas práticas de manejo, uso de cama seca e de qualidade, controle da densidade de alojamento e medidas rigorosas de biosseguridade. Como o tratamento individual é inviável em sistemas intensivos, a prevenção é a principal estratégia para reduzir as condenações e melhorar o bem-estar e o desempenho dos lotes (SILVEIRA, 2022; SOUZA, 2019).

Além das artrites, outras lesões locomotoras também comprometem o desempenho e o bem-estar das aves, destacando-se a pododermatite, conhecida popularmente como “calo de pé”. Trata-se de uma lesão inflamatória que acomete o coxim plantar, podendo evoluir de um simples espessamento da epiderme até úlceras profundas e necrose dos tecidos subjacentes (MARTINS et al., 2021). Essa condição é multifatorial e está diretamente associada à qualidade da cama, umidade excessiva, tipo de material utilizado, densidade de alojamento e manejo inadequado da ventilação (MELLO et al., 2019).
A presença de umidade elevada na cama favorece o amolecimento do coxim plantar e o contato prolongado das aves com as excretas, promovendo irritação cutânea e infecção secundária por bactérias oportunistas, como Staphylococcus aureus e Escherichia coli (BERND et al., 2020). A severidade das lesões é um importante indicador de bem-estar e pode ser utilizada para monitorar as condições de manejo e ambiência dos lotes (BORTOLUZZI et al., 2018).

No abatedouro, os casos severos de pododermatite podem resultar na condenação das patas e, em situações mais graves, das carcaças, especialmente quando há sinais de infecção sistêmica (GARCIA et al., 2021). Essa condenação representa uma perda significativa para o setor, uma vez que o pé de frango é considerado um subproduto de alto valor agregado, amplamente exportado e valorizado por mercados internacionais, como o asiático, onde é destinado ao consumo humano.
Assim, a manutenção da integridade e qualidade desse produto tem impacto direto na rentabilidade dos abatedouros e na competitividade da cadeia avícola brasileira (ABPA, 2023).
O controle e a prevenção da pododermatite envolvem o manejo adequado da cama, ventilação eficiente para controle da umidade, densidade adequada de aves e formulação nutricional equilibrada (SOUZA, 2019; MARTINS et al., 2021).

Outro problema patológico de relevância é a ascite, ou síndrome do abdômen aquoso, uma condição metabólica caracterizada pelo acúmulo anormal de líquido na cavidade abdominal, resultante de um desequilíbrio entre o fornecimento e o consumo de oxigênio pelos tecidos (OLIVEIRA et al., 2020). Essa síndrome está frequentemente associada a altas taxas de crescimento e ganho de peso típicas de frangos modernos, cujo rápido metabolismo exige maior demanda de oxigênio do que o sistema cardiovascular é capaz de suprir (MACARI; GONZALES, 2013).
Fatores ambientais e de manejo exercem grande influência na ocorrência da ascite, especialmente a ventilação inadequada, temperaturas baixas, densidade elevada, dieta com alto teor energético e condições que provoquem estresse térmico (JULIAN, 2017). Essas situações aumentam a pressão pulmonar e sobrecarregam o ventrículo direito, levando à dilatação e, consequentemente, ao extravasamento de plasma para a cavidade abdominal (OLIVEIRA et al., 2020).

No abatedouro, as aves acometidas por ascite apresentam abdômen distendido e conteúdo líquido seroso, de coloração amarelada, com odor característico. As carcaças afetadas são condenadas total ou parcialmente durante a inspeção post mortem, de acordo com o grau de comprometimento (BRASIL, 2017). Além das perdas diretas relacionadas às condenações, a ascite também representa um problema de bem-estar, pois as aves afetadas apresentam dificuldade respiratória, letargia e menor consumo de alimento (SILVA et al., 2021).
A prevenção da ascite depende de um manejo integrado que envolva o controle da ventilação e temperatura ambiental, densidade adequada, programas nutricionais equilibrados e monitoramento constante da taxa de crescimento, especialmente nas fases iniciais (JULIAN, 2017; OLIVEIRA et al., 2020).
Impactos Econômicos
Além dos aspectos zootécnicos e sanitários, as condenações no abatedouro representam prejuízos econômicos significativos. Estima-se que as perdas por condenação possam atingir entre 0,5% e 2% da produção total, variando conforme a gravidade e a frequência das lesões (EMBRAPA, 2022).
Em um frigorífico que abate aproximadamente 200 mil aves/dia, uma taxa de condenação de apenas 1% pode resultar no descarte de cerca de 2.000 carcaças diariamente. Considerando um valor médio de R$ 7,00 por carcaça, o prejuízo pode alcançar R$ 14 mil por dia, ultrapassando R$ 350 mil por mês (SANTOS et al., 2019). Esses valores não incluem custos adicionais relacionados à inspeção, ao descarte e à redução do rendimento de abate (ABPA, 2023; GARCIA et al., 2021).
A pododermatite também causa perdas relevantes: a condenação de 5% das patas em um abatedouro que processa 400 mil unidades/dia resulta em 20 mil patas inutilizadas, o que corresponde a aproximadamente 1 tonelada/dia — produto altamente valorizado no mercado asiático (ABPA, 2023).
No caso da ascite, além das condenações de carcaças, ocorre também redução no desempenho zootécnico, piora na conversão alimentar e aumento no custo de produção. Estudos demonstram que lotes com alta incidência de ascite podem apresentar até 5% de aumento no custo por kg de frango produzido (OLIVEIRA et al., 2020; OBA et al., 2018).
A prevenção das principais causas de condenação não é apenas essencial para o bem-estar animal, mas também uma estratégia economicamente vantajosa para o sistema produtivo.
O monitoramento sistemático dos índices de condenação no abatedouro auxilia na identificação de falhas de manejo e na avaliação da eficácia das medidas preventivas adotadas nas granjas, funcionando como um importante parâmetro de desempenho sanitário e de bem-estar (GARCIA et al., 2021; BERND et al., 2020).
A compreensão dessas causas ao longo de toda a cadeia produtiva, do manejo inicial à inspeção final, é fundamental para a implementação de estratégias eficazes que assegurem qualidade de carcaça, melhor aproveitamento de subprodutos e maior rentabilidade.
Assim, o controle rigoroso das condições sanitárias, ambientais e nutricionais, aliado ao monitoramento constante do bem-estar das aves, representa não apenas uma exigência legal e de mercado, mas também uma ferramenta essencial para garantir a sustentabilidade e a competitividade da avicultura brasileira.
REFERÊNCIAS
ABPA – Associação Brasileira de Proteína Animal. Relatório Anual 2023. São Paulo: ABPA, 2023.
ALMEIDA, M. E. Patologias locomotoras em frangos de corte: diagnóstico e prevenção. Belo Horizonte: UFMG, 2020.
ASSUNÇÃO, P.; PALKA, L.; PAVONI, R. Reovírus aviário e artrites em frangos de corte: aspectos clínicos e sanitários. Revista de Medicina Veterinária, v.10, n.2, p.77–85, 2018.
BARRETO, C. A. et al. Ocorrência de artrites em frangos de corte e fatores associados. Revista Brasileira de Ciência Avícola, v.24, n.3, p.1–8, 2022.
BARRADAS, J. C. Inspeção post mortem de aves e causas de condenação. Boletim Técnico de Inspeção Animal, v.9, n.1, p.35–42, 2019.
BELINTANI, R. et al. Causas patológicas de condenação em frangos de corte. Revista Ciência Animal Brasileira, v.20, p.1–8, 2019.
BERND, L. A. et al. Lesões locomotoras e causas de condenação em frangos de corte. Revista de Saúde e Produção Animal, v.21, n.3, p.123–131, 2020.
BERTOLINI, M. Manejo e desempenho produtivo de frangos de corte. Porto Alegre: UFRGS, 2018.
BORTOLUZZI, C. et al. Footpad dermatitis in broilers: a review of risk factors, evaluation, and prevention. Poultry Science, v.97, p.3362–3375, 2018.
BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Decreto nº 9.013, de 29 de março de 2017. Regulamenta o RIISPOA. Diário Oficial da União, Brasília, 2017.
EMBRAPA. Avicultura de corte: indicadores econômicos e produtivos. Brasília, DF: Embrapa Suínos e Aves, 2022.
GARCIA, R. G. et al. Fatores associados às condenações em abatedouros de aves. Arquivos do Instituto Biológico, v.88, p.1–9, 2021.
IANNETTI, L. et al. Causes of broiler carcass condemnation and economic impact in poultry processing plants. Italian Journal of Food Safety, v.9, n.2, p.125–133, 2020.
JULIAN, R. J. The pathology of ascites in broilers, with special reference to pulmonary hypertension syndrome. Avian Pathology, v.46, n.2, p.97–113, 2017.
MACARI, M.; GONZALES, E. Fisiologia Aviária Aplicada a Frangos de Corte. 2. ed. Jaboticabal: FUNEP, 2013.
MARTINS, R. F. et al. Fatores predisponentes à pododermatite em frangos de corte. Revista Brasileira de Ciência Avícola, v.23, n.4, p.1–10, 2021.
MELLO, J. L. et al. Condições ambientais e ocorrência de pododermatite em frangos de corte. Engenharia Agrícola, v.39, n.1, p.105–114, 2019.
OBA, A. et al. Factors affecting ascites and economic losses in broilers. Poultry Science, 2018.
OLIVEIRA, T. F. et al. Aspectos fisiopatológicos e manejo da síndrome ascítica em frangos de corte. Revista de Medicina Veterinária e Zootecnia, v.27, n.3, p.450–458, 2020.
SANTOS, F. R. et al. Economic impact of poultry carcass condemnations in Brazilian slaughterhouses. Brazilian Journal of Poultry Science, 2019.
SILVA, C. M. et al. Condenação de carcaças de frangos de corte por causas metabólicas e infecciosas. Revista Brasileira de Ciência Avícola, v.23, n.2, p.1–9, 2021.
SILVEIRA, D. R. Afecções locomotoras em frangos de corte e seus impactos produtivos. Curitiba: UFPR, 2022.
SOUZA, A. P. Aspectos sanitários e de bem-estar relacionados a lesões em frangos de corte. Acta Veterinaria Brasilica, v.13, n.2, p.89–96, 2019.









































