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Ferramentas nutricionais para reduzir efeitos do estresse calórico em aves

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A avicultura dentre os diversos sistemas de produção animal, foi o que apresentou maiores índices de evolução nos últimos anos, tornando-se uma das atividades mais importantes para a economia brasileira. Por outro lado, apesar do alto potencial de produtividade, a sua produção segue enfrentando vários desafios à medida que novos e eficientes índices produtivos são alcançados. Dentre o grande número de variáveis que existem e que podem influenciar, os fatores ambientais são os que mais interferem diretamente na expressão do potencial genético, na eficiência da utilização de nutrientes e nos aspectos sanitários das aves (Oliveira et al., 2006).

Embora o Brasil apresente um mercado promissor, é um país de clima tropical com alta temperatura e umidade relativa do ar em grande parte de seu território. Os fatores térmicos afetam diretamente as aves, pois comprometem sua função vital, que é a manutenção de sua homeotermia (Tinôco, 2001). Estudos relatam que 80% da energia ingerida é utilizada para a manutenção da homeotermia e apenas 20% para produção (Abreu & Abreu, 2011).

As aves são animais homeotérmicos, pois possuem a capacidade de manter a temperatura interna constante. Do ponto de vista termodinâmico, isso significa que as aves são capazes de realizar trocas contínuas de calor com o meio, desde que as temperaturas ambientais se mantenham dentro da zona de termoneutralidade.

A zona de conforto térmico é definida como a faixa de temperatura ambiente efetiva que proporciona conforto térmico e reduz a taxa metabólica a seu nível mínimo, ou seja, é uma zona em que o animal mantém a temperatura corporal com a mínima utilização de mecanismos termorreguladores (Saeed et al., 2019).

Quando as aves estão fora da zona de conforto térmico, o equilíbrio entre a produção e perda de calor corporal é alterado, a perda de calor diminui e há aumento na produção de calor, resultando em estresse térmico (Saeed et al., 2019). Com isso, podem desencadear alterações comportamentais, bioquímicas, fisiológicas e hormonais (Nazareno et al., 2009; Vosmerova et al., 2010). Estas alterações são capazes de refletir em decréscimos produtivos, capacidade reprodutiva e resistência a doenças, sendo que em temperaturas extremas podem ocasionar até a morte do animal (El-Kholy et al., 2017; Porto e Fontenele-Neto et al., 2017).

O principal ponto a ser considerado quando se estuda os efeitos do estresse por calor na produção das aves são suas particularidades anatômicas, principalmente a ausência de glândulas sudoríparas. Tal ausência faz com que as aves dependam de mecanismos fisiológicos distintos para conseguir dissipar calor (Goel, 2021). Quando as aves são expostas a altas temperaturas, respostas fisiológicas compensatórias como vasodilatação periférica aumenta a perda de calor não evaporativo. Para aumentar a dissipação do calor, a aves conseguem aumentar a área superficial ao manter as asas afastadas do corpo, eriçando as penas e intensificando a circulação periférica. Ainda, há um aumento da taxa respiratória e os animais se tornam mais ofegantes, como também ocorre maior produção de urina por conta do maior consumo de água (Borges et al., 2003).

De forma resumida, as aves apresentam dois mecanismos de liberação de calor: sensíveis e latentes. Nas trocas sensíveis se tem a radiação para as superfícies, ou seja, as cristas e barbelas ficam bem avermelhadas, pois o sangue chega as extremidades na tentativa de reduzir o calor do corpo, na condução as aves abrirão as asas e deitarão sobre a cama de modo a buscar perder calor para o meio e por último a convecção para o ar, onde elas procurarão áreas mais frescas do aviário (Goel, 2021; Nawaz et al., 2021).

Nas trocas latentes, se tem a evaporação para o ar, onde em situações de aumento de temperatura ocorre a hiperventilação (aumento dos movimentos respiratórios por minuto), ocasionando em quadros severos de hipertermia e redução da pressão parcial de gás carbônico no sangue (PCO2), com consequente queda nas concentrações de ácido carbônico (H2CO3) e de íons de hidrogênio (H+). Em resposta, os rins aumentam a excreção de bicarbonato (HCO3) e reduzem a excreção de H+ resultando em distúrbios no equilíbrio ácido-básico (alcalose respiratória), que pode levar a alta mortalidade das aves (Borges et al., 2003; Goel, 2021; Nawaz et al., 2021).

Sabemos que as boas práticas de manejo aliado a ambiência são algumas das formas eficientes para amenizar os efeitos ocasionados pelo estresse térmico. No entanto, existem outras estratégias que podem ser consideradas, como o manejo nutricional. Alternativas como adição de óleos e gorduras na dieta, diminuição da proteína bruta, suplementação de vitaminas/minerais, adição de eletrólitos e uso de compostos fenólicos podem ser adotadas de forma isolada ou conjunta (Lopes et al., 2015).

A implementação de óleos e gorduras surgiram como excelentes fontes de energia e ácidos graxos essenciais na alimentação das aves, elevando o aporte energético das rações, no sentido de compensar a baixa ingestão de nutrientes decorrente da diminuição no consumo e melhorar a palatabilidade em climas quentes. Além destas vantagens, estas substâncias são capazes de proporcionar menor incremento calórico quando comparado aos carboidratos e proteínas, e favorece a absorção de vitaminas lipossolúveis (Nobakht et al., 2011). Assim como, a sua adição faz com que haja uma menor taxa de passagem do alimento pelo trato gastrointestinal, favorecendo a digestibilidade dos demais nutrientes (Furlan & Macari, 2008).

A redução da proteína bruta da dieta e suplementação com aminoácidos sintéticos como a lisina e a metionina é outra medida que pode ser tomada. Com os avanços das indústrias de aminoácidos sintéticos foi possível elaborar dietas aplicando-se o conceito de proteína ideal, ou seja, fornecendo um balanço de aminoácidos equilibrado, evitando excessos e deficiências, de modo que supra a demanda de todos os aminoácidos essenciais para mantença e favoreça a máxima deposição proteica (Lima & Silva, 2007; Matos et al., 2011), proporcionando menor incremento calórico e reduzindo a excreção exagerada de nitrogênio no ambiente (Daghir & Lebanon, 2009).

A suplementação de rações com vitamina C pode promover a degradação de corticosteroides liberados durante o estresse, controlando seus níveis circulantes (Sahin et al., 2003), uma medida nutricional capaz de melhorar o desempenho e a reposta imune das aves nestas condições. Além disso, é capaz de intensificar a peroxidação dos lipídios nas membranas, incluindo membranas de células de defesa, como linfócitos T e B (Laganá & Ribeiro, 2007). Já a vitamina E destaca-se pela sua importante função antioxidante, pois intervém na estabilização dos ácidos graxos poliinsaturados, da fração lipídica das membranas celulares, evitando a formação de lipoperóxidos tóxicos, capazes de formar lesões nos vasos sanguíneos e na estrutura das células (Lopes et al., 2015).

A suplementação de minerais como selênio e zinco também vêm demonstrando benefícios importantes ao sistema imune, já que temperaturas elevadas promovem a utilização mais rápida e/ou degradação destes no sangue e, portanto, aumentam a sua exigência (Ribeiro et al., 2008). O selênio exerce um papel relevante na manutenção da integridade das membranas celulares, ativando a enzima glutationa peroxidase, enzima com atividade antioxidante responsável pela destruição de radicais livres (Maiorka & Macari, 2002; Beterchini, 2006). E o zinco é um cofator de muitas enzimas como o lactato desidrogenase, fosfatase alcalina e anidrase carbônica, que são enzimas essenciais para a manutenção da integridade das células envolvidas na resposta imunológica (Maiorka & Macari, 2002).

A suplementação de eletrólitos via água/ração tem sido considerado uma proposta eficiente para corrigir as alterações no equilíbrio ácido-básico decorrentes ao estresse por calor (Vieites et al., 2011). O sódio (Na+), o potássio (K+) e o cloro (Cl) são íons escolhidos pela importância que desempenham no metabolismo, pela participação no balanço osmótico, no balanço ácido-básico e na integridade dos mecanismos que regulam o transporte através das membranas celulares (Judice et al., 2002). Em condições normais, o conteúdo de água e eletrólitos do corpo são mantidos dentro do limite, porém em condições de estresse as alterações na evaporação de água pelos pulmões e o consumo de ração e água podem alterar a concentração dos eletrólitos no sangue (Furlan et al., 2008). Com isso, é fundamental que a formulação de ração seja baseada no conceito balanço eletrolítico, onde a proporção entre eles seja ideal para manter a homeostase ácido-base e obter o máximo desempenho das aves (Mongin, 1981).

Por fim, outra medida que vem ganhando destaque é o uso de aditivos fitogênicos na nutrição animal, que consistem em produtos compostos por extratos vegetais e óleos essenciais, que são utilizados nas rações das aves com o intuito melhorar o desempenho e promover a modulação benéfica da microbiota intestinal (Carlos et al.,2013; Dhama et al.,2015). Alguns destes efeitos são atribuídos a determinadas substâncias presentes em suas composições químicas, que ajudam a minimizar os efeitos deletérios ocasionados pelo estresse calórico. Dentre os principais benefícios de sua utilização podemos citar: ação antioxidante, capacidade de retardar a peroxidação lipídica, controlar a microbiota intestinal pela ação antimicrobiana, redução de microrganismos patogênicos e aumento da digestibilidade dos nutrientes devido a redução da degradação das vilosidades intestinais (Brenes & Roura, 2010; Bakkai et al., 2008).

Diante do exposto, o manejo nutricional pode e deve ser utilizado como uma ferramenta para minimizar os efeitos abrasivos do estresse calórico, diminuindo a produção de incremento calórico, proporcionando equilíbrio ácido-base adequado, atuando no sistema imunológico, melhorando o desempenho das aves e consequentemente promovendo bem-estar ao sistema produtivo.

REFERÊNCIAS

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