Geração agPastto: Suplementar nas águas é chover no molhado? - Parte 1 - Blog da Agroceres Multimix

Geração agPastto: Suplementar nas águas é chover no molhado? – Parte 1

Estamos no período das águas, momento de colher a tão aguardada “safra” de capim, na qual, se fizemos bem a lição de casa, teremos na fazenda o cenário ideal para os animais – principalmente aqueles em recria – expressarem todo o seu potencial genético. Nesse cenário, olhar para os pastos verdes e com boa oferta de capim nos leva à conclusão de que qualquer suplementação, além do sal mineral, seria completamente desnecessária.

Pois bem, de fato, durante esse período do ano, “facilmente” os bovinos apresentam ganhos expressivos, se mantidos em pastagens de média/boa qualidade, recebendo sal mineral (500 a 700 gramas/cabeça/dia). Esses resultados, normalmente, são obtidos em fazendas com bom manejo da pastagem, que ofertam ao animal pastos com boa estrutura, facilitando a formação do bocado e ingestão de matéria seca. Uma vez consumido o alimento, a composição nutricional do capim verde permitirá uma fermentação ruminal eficiente, resultando em bons ganhos.

Quando pensamos em suplementação – além do sal mineral -, a primeira ideia que vem à cabeça seria o uso da suplementação energética, uma vez que o capim consumido no período das águas facilmente apresenta níveis acima de 10-12% de proteína bruta. O problema, ou melhor, o desafio em trabalhar com a suplementação energética, é que esta deve ser explorada em maiores quantidades, aumentando o volume de suplemento fornecido ao animal, o que demandará uma série de ajustes na fazenda (estrutural, operacional e financeiro), inviabilizando por vezes sua adoção, principalmente nos projetos em início de intensificação.

Sendo assim, o primeiro salto tecnológico a ser explorado no período das águas – mais uma vez, além do sal mineral -, que permite explorar ganhos adicionais em um custo: benefício muito interessante, seria o uso da suplementação proteica de baixo consumo, fornecida na quantidade de 0,1% do peso vivo dos animais ou 100 g por 100 kg de peso vivo.

Em um primeiro momento, pode parecer estranho pensar em fornecer suplemento proteico durante o período em que o pasto apresenta elevada quantidade de proteína. Nos parágrafos que seguem, serão apresentadas as razões pelas quais a suplementação proteica de baixo consumo no período das águas tem permitido explorar ganhos adicionais da ordem de 100 a 150 g a mais, justificando seu uso.

Para começar a entender o efeito da suplementação proteica no período das águas, podemos nos ater em dois pontos principais: 1) ajuste fino da dieta, principalmente da fração proteica em ação conjunta ao uso de aditivo e 2) regularidade de consumo de suplemento (principalmente minerais).

Pois bem, uma simples análise do perfil proteico da forragem colhida no período das águas nos revela que existem diferentes frações compondo o valor total de proteína bruta, tida até então como ideal.

Basicamente, o fracionamento permite avaliar a composição proteica do alimento, demonstrando a velocidade de liberação/quebra deste nutriente no ambiente ruminal. Esse é um ponto importante, uma vez que, as bactérias ruminais requerem que esta quebra ocorra, para poderem utilizar o N liberado no processo a fermentação. O problema é que, quando avaliamos o perfil proteico das forragens no período das águas, existe uma fração dessa proteína (conhecida como fração A) que apresenta rápida velocidade de quebra e é liberada rapidamente no ambiente ruminal, não sendo totalmente assimilada pelas bactérias. Existe ainda uma outra fração (fração C), ligada à fibra da forragem e que não consegue ser utilizada, tornando-se indisponível às bactérias ruminais, sendo perdida nas fezes (Tabela 1).

Espécie

PB

(% MS)

Frações (% PB)

Fonte

A

B1

B2

B3

C

Tifton 851

10,2

17,3

2,5

36,1

26,9

16,9

Malafaia et al.,1997 e 1998

Tifton 852

14,6

12,3

9,1

29,3

40,8

8,2

Cabral et al. 1999a, 1999b

Tifton 853

9,9

26,8

4,0

23,5

34,2

11,4

Cabral et al. 1999a, 1999b

Tifton 854

13,7

34,8

10,7

15,4

19,6

19,5

Moreira, 2004

Tifton 854

10,0

28,1

13,6

23,2

17,3

17,8

Moreira, 2004

Tanzânia5

12,2

24,0

5,9

21,1

40,0

9,0

Balsalobre, 2002

Mombaça

12,2

13,0

6,8

32,7

41,1

6,4

Clipes et al., 2006

Mombaça6

11,3

14,9

52,8*

20,5

11,9

Lista et al. 2007

Elefante7

10,6

8,8

57,9*

22,1

11,2

Lista et al. 2007

Elefante

11,8

14,9

7,2

40,8

31,0

6,0

Clipes et al., 2006

Elefante

17,9

26,1

1,8

32,7

33,0

6,0

Romero, 2008

Fica claro que existe diferenciações no perfil proteico da planta, sendo o papel nutricional do proteinado: promover um ajuste fino na ingestão de proteína pelo animal, servindo como fonte de proteína verdadeira e complementando o balanço proteico, no intuito de fornecer aminoácidos e peptídeos para melhorar a eficiência microbiana.

Temos ainda um outro componente importante presente na formulação, os aditivos promotores de crescimento. Basicamente, o papel do aditivo no rúmen é selecionar bactérias mais eficientes, otimizando o uso do alimento no ambiente ruminal. Sendo assim, ter um ambiente ajustado pela correção proteica promovida pela suplementação, fará com que o aditivo tenha seu efeito potencializado. Por esse motivo, o uso combinado do aditivo e da suplementação proteica apresenta resultado superior ao obtido com as estratégias trabalhadas de forma separada.

Para ilustrar, veja os dados apresentados na figura abaixo (Figura 1, Alvez et al., 2014). O uso da suplementação mineral com aditivo permitiu aumento no GMD da ordem de 8%, ao passo que a suplementação proteica permitiu aumento de 13%, entretanto, quando combinada as duas estratégias o aumento do GMD foi da ordem de 22%, ganho este, superior ao somatório das duas estratégias trabalhadas de forma isolada.

O segundo ponto que deve ser considerado ao utilizar o proteinado nas águas, está relacionado à melhora no padrão de consumo de minerais e ao atendimento das exigências dos mesmos. É sabido que a ingestão de sal mineral não ocorre todo dia e, principalmente quando falamos em bovinos em recria, este torna-se um ponto de extrema importância, uma vez que, a taxa de síntese de tecidos nessa categoria, principalmente ósseos, é maior que nas demais. Sendo assim, o fornecimento de um proteinado – pelo fato de ser um produto mais palatável – estimula o animal a consumir o suplemento no cocho todos os dias, regularizando assim a ingestão dos minerais.

Por fim, resumidamente, a suplementação proteica nas águas deve ser tida como um conceito Muito Mais que Nutrição, uma vez que seu uso confere ao animal uma série de benefícios que vão além dos nutrientes ingeridos. No próximo texto abordaremos mais sobre a viabilidade econômica do uso do proteinado e dos ajustes operacionais necessários para rodar a estratégia na fazenda.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

Simone Garcia

Simone Garcia

Simone Garcia é Consultora de Serviços Técnicos de bovinos de corte na Agroceres Multimix.

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