Início Bovinos de Corte Creep Feeding: você está gastando no cocho ou antecipando seu lucro?

Creep Feeding: você está gastando no cocho ou antecipando seu lucro?

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O momento da desmama, que ocorre por volta dos 7 meses, é um dos maiores gargalos na pecuária de corte. O desafio é constante: como garantir que o bezerro saia do pé da vaca com o máximo desempenho?

A resposta não é apenas comida no cocho: é estratégia. O creep feeding é o ajuste fino entre proteína e energia, complementando o que o leite e o pasto param de entregar.

O creep feeding não é um gasto no cocho, é ganho de arroba e antecipação do seu lucro. O resultado? Animais desmamados pesando até uma arroba a mais.

Nesse artigo vamos abordar os detalhes técnicos dessa estratégia, para uma desmama de alta performance, entendendo como ela encurta o ciclo da sua fazenda e se encaixa na sua realidade, facilitando uma implantação de forma eficiente e lucrativa.

 

O que é creep feeding?

É o “berçário VIP” do bezerro: uma área exclusiva onde ele recebe um suplemento, enquanto ainda está sendo amamentado (Figura 1).

Figura 1. Modelo de creep feeding

 

Por que adotar o creep feeding?

O peso a desmama é um importante indicador de produtividade na cria. Cerca de 60 a 66% da variação desse peso é atribuída diretamente ao efeito do leite materno. Durante o período de aleitamento, a relação nutricional entre a vaca e o bezerro atravessa fases distintas (Figura 2):

  • No 1º mês de vida do bezerro: a vaca de corte tem seu pico de lactação (produção média de 6,2 a 7,6 kg de leite/dia, dados BR-Corte, 2023) e o leite consegue atender 100% das necessidades nutricionais do bezerro. Até os 30 dias de idade, o leite é soberano para o bezerro.
  • Aos 3 meses de idade: o leite deixa de fornecer toda energia necessária para que o animal atinja seu potencial de desempenho (ganho de peso de até 1 kg/dia).
  • Aos 4-5 meses de idade, a proteína passa a ser um nutriente limitante no leite, restando ainda 2 meses para o animal desmamar.

Como a natureza é sábia, o período que o leite deixa de atender todas as exigências do bezerro (com 3 a 4 meses de vida), coincide com a época que ele se torna um ruminante funcional. Com o rúmen desenvolvido, ele se torna capaz de extrair os nutrientes que precisa do pasto.

Porém, aí mora o perigo: esse desenvolvimento do rúmen costuma coincidir com a época de transição das águas para seca (outono), quando o pasto começa a perder qualidade.  O creep feeding surge, então, como uma estratégia que preenche a lacuna nutricional. Afinal, não é gasto no cocho, é ganho de arroba.

Figura 2. Relação nutricional entre a vaca e o bezerro

 

Nota técnica: animais jovens convertem o alimento em músculo muito melhor do que animal adulto. A fase que vai do nascimento à puberdade é a fase que o animal utiliza os nutrientes com a máxima eficiência para aumentar o tamanho dos músculos (hipertrofia).

 

Quando o creep feeding “brilha”?

O suplemento é um aliado, não o protagonista. O creep feeding funciona como um “complemento de precisão”. Sua resposta será proporcional ao desafio:

  • Pasto de qualidade + vaca com boa produção de leite: o bezerro terá uma resposta ao suplemento menos acentuada.
  • Pasto de baixa qualidade + vaca com baixa produção de leite: é aqui que creep feeding mostra seu potencial. Quanto menor a oferta de nutrientes vindas do leite e do pasto, maior será o impacto do suplemento no ganho de peso do animal.

Nota técnica: creep feeding não diminui o consumo de leite materno. Se o bezerro estiver com a mãe e começar a receber a suplementação, ele poderá reduzir o consumo de pasto (0,4 gramas de pasto para cada 1 grama de suplemento), sem alterar o consumo de leite (Carvalho et al. 2019).

 

Quem deve investir?

O creep feeding é ideal em cenários onde o foco é o lucro por animal e giro de estoque:

  1. Quem vende bezerro: mais peso na balança no dia da venda
  2. Quem faz carne de qualidade: o suplemento estimula o desenvolvimento dos adipócitos (células de gordura)
  3. Quem faz ciclo completo (cria, recria e engorda): devido ao maior ganho de peso dos animais, reduz o tempo de abate
  4. Quem faz novilhas precoces para reprodução: essencial para atingir o peso para entrar na puberdade (280 kg) e emprenhar aos 14 meses
  5. Quem faz desmama antecipada: a suplementação do bezerro permite antecipar sua desmama, permitindo recuperar o escore corporal da fêmea para a próxima estação de monta

 

Estrutura e manejo: aspectos práticos

A estrutura precisa ser um convite ao bezerro e uma barreira para a vaca:

  • Localização: entre a área de pastejo e o cocho das vacas, próximo ao bebedouro (Figura 3).
Figura 3. Posicionamento da estrutura de creep feeding

 

  • Exclusividade: o espaçamento entre os mourões deve ser de 40 a 50 cm, com um caibro/tábua posicionado (a) a 1,1 m do solo. Se necessário, aumente a altura da cerca, pois algumas vacas podem aprender a pular o cercado. Também pode ser colocado outro caibro/tábua a uma altura de 10 cm do solo, como forma de evitar a possível entrada de vacas no local.
  • Conforto: espaço interno entre 1,5 e 2 m²/bezerro.
  • Cocho: espaçamento entre 15 e 20 cm de cocho/bezerro, com uma altura de 40 a 50 cm do solo.
Figura 4. Estrutura de creep feeding

Protocolo de suplementação: do fornecimento ao desempenho esperado

O que fornecer no cocho?

O suplemento deve conter ingredientes de boa qualidade e precisão no fornecimento.

  • Proteína e energia: o ideal é que o suplemento contenha de 20 a 22% de proteína bruta. É fundamental priorizar fontes de proteína verdade (farelos proteicos) de alta qualidade.
  • Uso de ureia: como estratégia para redução de custos, a inclusão de até 1% de ureia é recomendada a partir dos 90 dias de idade (3 meses de vida).
  • Palatabilidade: na fase inicial, o uso de palatabilizante é indispensável. Bezerros jovens ainda não conhecem o cocho e o suplemento. Ingredientes atrativos aceleram o aprendizado e garantem o consumo diário.
  • Aditivos: a inclusão de promotores de desempenho, especialmente ionóforos (como lasalocida, monensina, salinomicina), contribui para o controle da coccidiose e na melhoria da eficiência alimentar

Quando começar o fornecimento?

O fornecimento pode ser iniciado aos 60 dias de idade (2 meses de vida). Antes desse período, o leite materno consegue suprir as exigências além disso, a aceitação do cocho por parte do bezerro é baixa, o que pode gerar desperdício e dificultar o operacional. Por outro lado, iniciar o fornecimento após os 60 dias significa perder a janela de oportunidade, já que essa é a fase de maior conversão alimentar do animal, reduzindo o impacto final no peso à desmama.

Qual o protocolo de fornecimento e o que esperar?

No início, o suplemento pode ser fornecido à vontade, uma vez que nas primeiras semanas o consumo voluntário é muito baixo. Com o crescimento do bezerro, a queda na produção de leite materno e aprendizado do animal em relação ao cocho, o consumo de suplemento aumenta.

Nesse momento é indicado que o suplemento tenha uma “trava” na quantidade ofertada para otimizar o desempenho. Segundo Carvalho et al. (2019), o fornecimento e desempenho são diferentes entre machos e fêmeas (Figura 5):

  • Machos: desempenho máximo ocorre com consumo entre 0,7 e 0,8% do peso vivo, resultando em um ganho adicional médio de 200 gramas/dia. Ao final do período, os bezerros podem desmamar com até 1 arroba a mais (30 kg).
  • Fêmeas: o maior desempenho ocorre com consumo entre 0,5 e 0,6% do peso vivo, promovendo um ganho adicional de 100 gramas/dia, equivalendo a cerca ½ arroba adicional (15 kg) ao desmame.
Figura 5. Relação entre a quantidade diária de ração e o ganho de peso adicional. Fonte: Adaptado de Carvalho et al., 2019

 

Nota técnica: o fornecimento acima desses níveis pode causar uma queda na eficiência produtiva, tornando o custo da arroba produzida menos competitivo. Eficiência não é acaso, é estratégia!

É importante saber que alguns fatores podem afetar a resposta do animal ao creep Feeding, dentre eles: qualidade e quantidade de pasto; produção de leite da vaca; genética do bezerro; sexo (macho ou fêmea); quantidade e tipo de suplemento fornecido; instalações e manejo.

E a pergunta que sempre surge: o creep feeding vale a pena?

A viabilidade do creep feeding depende basicamente de dois fatores: custo do suplemento e o preço de venda do bezerro.

Para ilustrar essa análise, vamos considerar o seguinte cenário. O creep feeding é fornecido por 150 dias, dos 2 aos 7 meses de idade do bezerro. Nesse período, o animal apresenta peso médio de 147,5 kg, considerando 80 kg no início e 215 kg no final.

O consumo de suplemento é estimado em 0,75% do peso vivo, média entre 0,7 e 0,8% do peso vivo para que o máximo consiga desempenhar seu potencial máximo. O consumo estimado será de 1,100 kg por dia. Ao longo dos 150 dias de suplementação, isso representa um consumo total de 165 kg de suplemento por bezerro.

Considerando um custo do suplemento de R$ 2,50/kg, o gasto diário com a suplementação será de aproximadamente R$ 2,75 por bezerro. No período total, o desembolso com suplementação chega a R$ 412,50 por animal.

 

Qual o retorno desse investimento?

Se essa suplementação resultar em 1 arroba adicional no peso do animal. Significa que o custo para produzir essa arroba foi de R$ 412,50. Portanto, o resultado econômico dependerá do preço de venda da arroba.

Por exemplo, se essa arroba for vendida a R$ 450, haverá um lucro adicional de R$ 37,50 por animal.

 

Mas e se a conta ficar apertada?

Dica de ouro: caso o custo da suplementação esteja muito alto, a estratégia não precisa ser descartada. Uma alternativa é utilizar suplementação mais leve, como um proteico energético 0,2% do peso vivo. Nesse caso, o ganho adicional é menor (90 a 100 gramas adicionais em bezerros e 50 a 60 gramas adicionais em bezerras), mas o custo diminui, mantendo ainda um desempenho superior ao de animais alimentados apenas com o leite e o pasto.

O importante é manter o animal ganhando peso, pois não é gasto no cocho, é ganho de arroba e antecipação de lucro.

 

Check-list para o sucesso

    1. O pasto é a base: o creep feeding é um potencializador, não um substituto. Sem oferta de forragem de qualidade, a estratégia perde eficiência econômica.
    2. Foco no bezerro: utilize a estratégia com o objetivo de impulsionar o desempenho do animal jovem. Lembre-se: o suplemento não reduz o consumo de leite, ele complementa a dieta onde o leite e o pasto falham.
    3. Homogeneidade de lotes: o ideal é formar lotes homogêneos, se possível, com até 30 dias de diferença.
    4. Dimensione corretamente as instalações.
    5. Qualidade nutricional: utilize suplemento/ração balanceada, com ingredientes palatáveis, fontes de proteína verdadeira de qualidade e aditivos melhoradores de desempenho.
    6. Atenção aos processos: não deixe faltar suplemento no cocho.
    7. Monitore o consumo: o acompanhamento deve ser constante. Certifique-se que o consumo planejado está sendo realizado.
    8. Visão nutricional de ciclo completo: tenha um plano nutricional para o pós- desmama, preservando o ganho de peso conquistado na Cria. Não desperdice dinheiro cuidando da Cria se não for cuidar da Recria!
    9. Genética: Desempenho animal, independente da fase da vida, está atrelado a genética. Genética é importante!

 

Eficiência não é acaso, é estratégia. Lembre-se: o creep feeding não é um gasto no cocho, é ganho de arroba e antecipação do lucro.

 

 

 

 

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