Cascudinho: uma revisão da sua importância

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O Alphitobius diaperinus (Panzer, 1797) (Coleoptera: Tenebrionidae), conhecido popularmente como cascudinho é, atualmente, um dos principais problemas da avicultura mundial, sendo também conhecido como praga secundária de farinhas, rações e grãos armazenados.

“Originário da África Ocidental foi introduzido em outros países por meio de alimentos contaminados e, com o sistema de criação intensivo, achou condições propícias para seu desenvolvimento no ambiente avícola.” (FOGAÇA et al., 2017)

Tais condições apropriadas, como: constância da faixa de temperatura em operação no interior dos galpões, níveis de umidade naturalmente observados na cama, reaproveitamento desta no intervalo de lotes, disponibilidade de alimento, água e refúgio, favorecem a permanência e o desenvolvimento do cascudinho, no qual uma vez estabelecidos, multiplicam-se rapidamente (MARQUES, 2010; WOLF et al., 2014). De acordo com Marques (2010), são encontradas altas populações em “camas de frango” de corte, de matrizes, e em fezes de poedeiras de ovos comerciais confinadas em gaiola. Práticas agrícolas de utilização de cama de frango como adubo favorecem a dispersão da praga.


Morfologia, ciclo de vida e hábitos

O ciclo de vida do cascudinho – de ovo a adulto – varia de 40 a 100 dias, dependendo dos fatores ambientais (AVIAGEN, 2020). Depois de 6 a 10 dias após o acasalamento, as fêmeas iniciam a postura (FOGAÇA et al., 2017). Os ovos de coloração esbranquiçada são depositados na “cama de frango” (substrato de palha de grãos ou resíduos de serrarias utilizados para acomodar as aves) ou em frestas das instalações (MARQUES, 2010). Em temperatura e umidade relativa do ar adequados, a eclosão das larvas ocorre em 3 a 10 dias, as quais sofrem de 5 a 10 mudas com duração de 5 a 11 dias cada, atingindo o estágio de pupa/crisálida. Estas se desenvolvem de 4 a 14 dias, quando se tornam adultas e podem viver de três meses a mais de um ano (MARQUES, 2010; FOGAÇA et al., 2017). Os insetos adultos medem de 5,0 a 6,0 mm de comprimento e tem coloração castanha a negra.

Segundo Fogaça et al. (2017) e Chernaki-Leffer et al. (2002) o ciclo completo do cascudinho à temperatura constante de 28ºC é de 42,5 dias, o que indica que a cada lote introduzido na granja (o que ocorre a cada 50 – 60 dias, aproximadamente) pode ocorrer uma nova geração de insetos, podendo cada fêmea produzir acima de 2 mil ovos (apud STEELMAN, 1996).

Figura 1. Ciclo de vida do cascudinho (Fonte: https://escola.britannica.com.br/pesquisa/artigos/muitos-insetos-passam-por-um-processo-de-mudan%C3%A7as-fisicas/recursos/188766)

Possuem hábito noturno e durante o dia abrigam-se sob a superfície da cama, junto a colunas, frestas nos pisos e paredes ou sob os equipamentos, principalmente os comedouros. Esta versatilidade de refúgio em locais de difícil acesso traz dificuldades no controle, pois quando a “cama” nova é colocada, as larvas e adultos retornam rapidamente (MARQUES, 2010).

Alimenta-se de grãos, farinhas armazenadas, ração, fezes, carnes e órgãos internos de aves mortas ou moribundas.


Importância econômica

O cascudinho pode afetar a saúde e desenvolvimentos das aves, direta ou indiretamente. O contato direto do inseto com a cama de frango (rica em excretas e restos de ração), associado ao hábito deste de se alimentar com carne e órgãos internos de aves mortas ou moribundas, faz desse coleóptero um possível veiculador de diversos patógenos, como: o vírus da leucose aviária; vírus da Doença de Gumboro; Coronavirus; bácterias como Micrococcus sp., Streptococcus sp., Corynebacterium sp., Bacillus subtilis, Staphylococcus aureus, Proteus mirabilis, P. vulgaris, Paracolobactrum intermedium, Escherichi coli, E. intermedia, E. freundii, Serratia marcescens, Klebsiella-Aerobacter, Pseudomonas aeruginosa e Salmonella sp.; fungos como Aspergillus flavus, A. niger, A. repens, A. candidus, Penicillium sp. e Candida sp.; e protozoários como Eimeria sp. (FOGAÇA et al., 2017; CHERNAKI-LEFFER et al., 2002; MARQUES, 2010; GAZONI et al., 2012).

Outro fator importante é que as aves, principalmente quando mais jovens, em razão do seu comportamento de ciscar e comer material em movimento, acabam ingerindo o inseto ao invés da ração balanceada e em consequência disso a conversão alimentar aumenta, prejudicando os índices zootécnicos do lote. Além disso, a ingestão de insetos adultos, os quais possuem exoesqueleto e élitros rígidos, podem causar lesões no trato gastrointestinal, deixando-o vulnerável à entrada de patógenos (BONFIM, 2015). No abatedouro, pode ocorrer contaminação da carcaça quando se dá a extração do papo e a moela (ALVES, 2010).

Figura 2. Conteúdo do papo com presença larvas e adultos de cascudinho.

Segundo Marques (2010) cada pintinho pode ingerir, nos 10 primeiros dias de vida, 450 larvas desses besouros. As larvas podem também lesionar a pele do animal, causando infecções secundárias, prejudicando a qualidade da carcaça no frigorífico (BONFIM, 2015).

No que se refere à depreciação das instalações, as larvas do cascudinho escavam túneis no material isolante para empoparem e acabam destruindo a proteção de poliuretano e cortinas de isolamento, usadas para proteção térmica dos animais e, como consequência, as aves têm maior gasto energético na tentativa de se manterem em conforto térmico, diminuindo o ganho de peso (BONFIM, 2015; POVALUK e MENDES, 2017; TESTA, 2018).

Figura 3. Conteúdo da moela com presença de cama, larvas e adultos de cascudinho.

De acordo com Bonfim (2015), “a ação direta da praga sobre as aves compromete o bem-estar animal, afetando o comportamento natural e influenciando o nível de conforto”.

Figura 4. Aviário com alta infestação de cascudinho. Nota-se grande quantidade de “buracos” na cama de frango e comedouros sujos.


Controle

O controle do cascudinho tem sido considerado difícil. Característica como ciclo de vida curto do inseto e o comportamento favorecem reinfestações, já que os aviários mantêm um ambiente ideal para sobrevivência e propagação destas pragas, que inclui a elevada quantidade de material orgânico, com alta temperatura, umidade e abrigo nas instalações (fendas, rachaduras, abaixo dos comedouros e abaixo do solo, próximo aos pilares de sustentação dos galpões, etc.). Além disso, seus inimigos naturais são pouco conhecidos (MARQUES, 2010; POVALUK e MENDES, 2017; TESTA, 2018).

Devido à falta de métodos alternativos, os produtores dependem, principalmente, do controle químico para suprimir as populações de cascudinho nos aviários, sendo os inseticidas piretróides e organofosforados o método mais utilizado. No entanto, a alta quantidade de matéria orgânica nos aviários reduz a eficácia de muitos tratamentos, resultando em baixos níveis de controle e elevação no custo de produção, já que as aplicações, em geral, são onerosas. Outra preocupação adicional quanto à dependência de inseticidas químicos é o seu curto período residual, cuja utilização causa redução temporária e é limitada pela presença constante de aves nos aviários, além da possibilidade de ocasionar o aparecimento de resistência na praga e causar intoxicação aos animais e ao homem, quando não seguidas as recomendações do fabricante (ALVES, 2010; GAZONI, 2012; MARQUES, 2010; POVALUK e MENDES, 2017).

Na prática, o que tem se mostrado efetivo para manter a infestação desse inseto a níveis aceitáveis é a integração estratégica de métodos de controle químico e físico, ou seja, a aplicação de inseticida e um programa minucioso de limpeza e desinfecção são fundamentais para o seu controle.

  • Controle químico dos cascudinhos

O controle químico com aplicação de inseticida terá como alvo os besouros adultos e as larvas.
Recomenda-se uma aplicação imediata após o despovoamento, tanto dentro como fora do aviário, pois assim que a temperatura do aviário baixar os cascudinhos começarão a migrar para um local mais quente. A área externa do aviário deve ser pulverizada para impedir a migração para outros aviários nas granjas. Infestações graves podem necessitar várias aplicações (AVIAGEN, 2020).

Crucial seguir as orientações do fabricante relativas à segurança e mistura adequada dos inseticidas. Um plano comum de alternância dos inseticidas (grupos químicos diferentes) a pelo menos cada 3 plantéis, reduzirá as chances de que os cascudinhos desenvolvam resistência.

Aviagen (2020), cita que “ácidos orgânicos, como o cítrico, prolongarão o efeito dos piretróides e organofosforados e devem ser adicionados ao tanque quando esses tipos de inseticidas forem utilizados”.

A utilização de condicionadores químicos na cama de aviário, como a cal hidratada, a cal virgem, o sulfato de alumínio e o gesso agrícola, entre outros, associada à fermentação por enleiramento e enlonamento no vazio sanitário, revelam-se alternativas para o controle de cascudinho. Os condicionadores químicos têm efeitos relacionados a mudanças nos gradientes de umidade na cama, produção de gases no interior das instalações, controle de micro-organismos de interesse epidemiológico e alteração das propriedades do adubo residual da atividade. A cal hidratada, especificamente, tem sido utilizada como dessecante, absorvendo o excesso de umidade e promovendo a secagem, criando assim um ambiente hostil para insetos e patógenos (BONFIM, 2015; WOLF, 2014).

  • Controle físico dos cascudinhos

Baseia-se, principalmente, na implantação de um bom programa de limpeza e de desinfecção do aviário e áreas adjacente, seguindo criteriosamente os procedimentos descritos, garantindo que resíduos de cascudinho e qualquer contaminação bacteriana por eles deixados sejam removidos.Importante que após o despovoamento sejam retirados os restos de ração de comedouros e silos. Estes devem ser armazenados em local apropriado, fora dos aviários.

Em granjas com vários aviários, sendo possível, praticar o alojamento “todos dentro todos fora” (all in all out), evita a migração dos cascudinhos e facilita seu controle.

A estrutura do aviário também desempenha um papel importante, no qual os aviários fechados, com boa drenagem de água e um piso de cimento liso, reduzirão as populações de cascudinho (AVIAGEN, 2020).


Considerações finais

Compreender a morfologia, o ciclo de vida, os hábitos e a importância econômica do cascudinho no ambiente avícola, assim como utilizar estes conhecimentos de forma inteligente, integrando estratégias de controle físico e químico, é possível manter níveis baixos infestações desta praga nos galpões.

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Referências bibliográficas:

ALVES, L. F. A. et al. Eficiência de um novo inseticida comercial para controle do cascudinho dos aviários (Alphitobius diaperinus) (Panzer) (Coleoptera: Tenebrionidae). Arquivos do Instituto Biológico, São Paulo, v. 77, n. 4, Out. – Dez. 2010. p. 693-700. Disponivel em: . Acesso em: 02 Novembro 2020.

AVIAGEN. Melhores práticas nas granjas: controle dos cascudinhos. 02 Fev. 2020. 0518-AVN-070. Disponivel em: . Acesso em: 02 Novembro 2020.

BONFIM, G. Cascudinho: impactos econômicos e sanitários. 28 Dez. 2015. Disponivel em: . Acesso em: 02 Novembro 2020.

CHERNAKI-LEFFER, A. M. et al. Isolamento de enterobactérias em Alphitobius diaperinus e na cama de aviários no oeste do estado do Paraná, Brasil. Revista Brasileira de Ciência Avícola, v. 4, n. 3, Set – Dez 2002. p. 243-247. Disponivel em: . Acesso em: 02 Novembro 2020.

Ciclo de vida do cascudinho. Disponivel em: . Acesso em: 02 Novembro 2020.

FOGAÇA, I. et al. Álcool para controle de cascudinho em cama de frango de corte. Archivos de Zootecnia, v. 66, n. 256, 15 Out. 2017. p. 509-514. Disponivel em: . Acesso em: 02 Novembro 2020.

GAZONI, F. L. et al. Avaliação da resistência do cascudinho (Alphitobius diaperinus) (Panzer) (Coleoptera: Tenebrionidae) a diferentes temperaturas. Arquivos do Instituto Biológico, São Paulo, v. 79, n. 1, Jan. – Mar. 2012. p. 69-74. Disponivel em: . Acesso em: 02 Novembro 2020.

MARQUES, C. R. G. Mortalidade de Alphitobius diaperinus (Panzer) (Coleoptera: Tenebrionidae) por óleo de neem e citronela. Universidade Estadual de Londrina. Londrina, p. 35. 2010. (CDU 632.937). Disponível em: . Acesso em: 02 Novembro 2020.

POVALUK, M.; MENDES, L. R. Ciclo e controle do Alphitobius diaperinus (Coleoptera, Tenebrionidae) no município de Quitandinha, PR. Saúde & Meio Ambiente: Revista Interdisciplinar, v. 6, n. 1, p. 107-122, Jan. – Jun. 2017. ISSN 2316-347X. Disponivel em: . Acesso em: 03 Novembro 2020.

TESTA, M. et al. O uso de produtos alternativos no controle do cascudinho é eficaz? Sul Brasil Rural, Chapecó, SC, ano. 10, ed. 206, p. 1, 22 Fev. 2018. Disponivel em: . Acesso em: 03 Novembro 2020.

WOLF, J. et al. Métodos físicos e cal hidratada para manejo do cascudinho dos aviários. Ciência Rural, Santa Maria, vol. 44, n. 1, Jan. 2014. p. 161-166. ISSN 0103-8478. Disponivel em: . Acesso em: 02 Novembro 2020.

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