Recria: O que e por que medir? - Gestão Enfoco | Nutrição Animal

Gestão Enfoco – Recria: O que e por que medir?

Recria o que é?

Novos conceitos e tecnologias estão surgindo de forma rápida a todo instante, sendo empregados nos processos de produção em todos os níveis, não sendo diferente para as atividades relacionadas ao “agro”. Exemplo claro dessa evolução é a nossa pecuária de corte de 30 anos atrás e atualmente. O emprego de novas ideias e tecnologias tem permitido incrementos consideráveis em produtividade através da gestão, bastando olhar para idade de abate média no país para percebermos esse avanço, trazendo à tona a necessidade de medição da recria. Outro dado que chama a atenção é quanto a área de pastagem utilizada pela atividade, em que diminuímos o uso da terra, enquanto mantivemos (ou aumentamos) a produção, deixando claro o avanço produtivo da pecuária.

Se observarmos as grandes empresas e/ou empresas de sucesso em diversos ramos, iremos perceber que a boa “gestão” é algo em comum entre todas elas. Só existe sucesso no ramo empresarial se as decisões forem bem fundamentadas e, para isso: conhecer a empresa, ter em mãos informações de mercado e informações – dados – da própria empresa, torna-se obrigatório para alcançar o sucesso.  Precisamos seguir aquele velho ditado: “se não medimos, não conhecemos, e o que não conhecemos, não é possível de ser gerenciado, muito menos melhorado”.

Inúmeras técnicas ou ferramentas de gestão são conhecidas mundialmente para dar suporte às empresas, como é o caso do PDCA e 5W2H, já discutidos aqui no agBlog. Portanto, buscar conhecimento sobre essas ferramentas e coloca-las em prática tem permitido muitas empresas pecuárias alcançar o sucesso pretendido. Pôr em prática esses conceitos é encontrar um padrão de anotação para que estes dados coletados sejam confiáveis, permitindo assim, uma correta interpretação da realidade do sistema e, consequentemente, tomar decisões bem fundamentadas.

Não é difícil encontrarmos – no Brasil – animais sendo abatidos com 2 anos, 3 anos e/ou até 4 anos de idade. O primeiro questionamento que nos vem à cabeça, nesse caso, é o motivo dessa gigantesca diferença entre essas idades de abate. Se rapidamente pensarmos que a fase de cria (bezerro) em qualquer sistema de produção, normalmente dura 7 meses (nascimento até a desmama) e a fase de terminação tem em média 90 a 120 dias, seja ela feita em confinamento ou em sistema de terminação intensiva a pasto (T.I.P), cabe a fase da recria a responsabilidade de toda essa “problemática”. Podemos afirmar, que hoje a recria é o grande gargalo da pecuária, principalmente sobre a perspectiva da duração e adoção de tecnologia.

Para resolver esta situação da fase de recria, a princípio, precisamos entender que as oscilações na produção forrageira impactam fortemente no desempenho dos animais, sendo o período da seca o momento mais crítico para a produção de bovinos a pasto.

O motivo pelo qual devemos medir ou obter informações a respeito do sistema é muito fácil: a pecuária de corte tradicional (do passado) até então caracterizada meramente pelo estoque de animais na propriedade “perdeu a vez”, precisando agora ser encarada sobre o ponto de vista da produção de carne por hectare e não mais em número de cabeças por hectare. A mudança no cenário de reposição, em que a arroba do bezerro passou a valer mais do que a arroba do boi magro, fez com que a fazenda passe a ter uma produção de carne para pagar esta conta. Como não existe mais o bônus do deságio da reposição (maioria das regiões) a fazenda precisa ainda produzir carne diariamente para pagar o pasto, os funcionários, os custos sanitários, maquinários e, deixar lucro. Note que, ter o animal não gera mais riqueza, o retorno financeiro virá da produção diária da fazenda.

 Nesse cenário, o controle sobre o peso dos animais – ganho médio diário – e o bom manejo sobre os pastos, visando aumento na taxa de lotação, tornaram-se metas imprescindíveis porteira a dentro.

Visto a necessidade de produção e as oscilações enfrentadas na disponibilidade e qualidade da forragem, conhecer o que está sendo produzido em cada um dos cenários ao longo do ano, é o primeiro passo para elaboração e controle de qualquer projeto nutricional. Se assumirmos que a recria dos animais deve acontecer no período máximo de 12 meses – caminho para que o abate ocorra até os 24 meses de idade – precisamos entender que, no mínimo, deverá existir na fazenda uma meta produtiva para o período da seca (pós desmama) e uma meta produtiva para o período das águas. Em algumas situações podemos nos deparar com projetos um pouco mais longos, no entanto, esses o fazem baseados em um porquê (ex: abater animais exclusivamente a pasto no período das águas). Ressalta-se que cada caso é um caso, não existe uma regra fixa.

O objetivo de separar e avaliar individualmente esses dois períodos é em função dos efeitos destes sobre o desempenho dos animais. Enquanto que na seca observamos baixa disponibilidade de forragem em termos quantitativos e qualitativos, o período de águas é totalmente o inverso, com boa disponibilidade. Sendo assim, para conhecermos a informação básica que precisamos buscar, basta conhecer o peso vivo dos animais e assim calcular o ganho de arrobas por período.

Sabendo então as metas dentro de uma propriedade (quantidade de arrobas a serem produzidas por hectare por ano), devemos fracioná-las nos diferentes períodos, seca e água, para determinar o desafio do ganho médio diário em cada momento.

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É uma característica pertinente ao ser humano sempre colocar dificuldades frente a novas ações. A primeira pergunta que o pecuarista ou até mesmo as pessoas diretamente relacionadas ao manejo farão é: “vou ter que pesar todo meu gado? Nossa, quanto trabalho!” Nesse momento, mostramos a vocês o “pulo do gato”, que está em aproveitar momentos dentro do dia a dia da fazenda, em que o manejo de levar os animais ao curral já aconteceria, aproveitando então esse manejo para conhecer o estoque e produção de arrobas na fazenda. Ao longo do ano, temos dois momentos que, obrigatoriamente, o gado passa pelo curral. Esse período ocorre nos meses quando se faz a vacinação de aftosa estabelecido para cada Estado. Ressalto que não haverá manejo extra com o rebanho, temos que aproveitar o manejo já existente para tal ação.

Conhecendo a meta a ser alcançada, bem como seu fracionamento ao longo dos diferentes períodos do ano, podemos mais uma vez aproveitar as pesagens para calcular o desempenho nos diferentes períodos, assim como das arrobas estocadas na fazenda e da produção de arrobas. Esse cálculo é bem simples e segue a fórmula abaixo:

Produção de @ = (@vendidas + @estoque f) – (@estoque i + @compra)

Onde,

@vendidas = Arrobas vendidas no período

@compra = Arrobas compradas no período

@estoque f = Arrobas estocadas na fazenda ao final do período

@estoque i = Arrobas estocadas na fazenda ao início do período

Em um sistema mais detalhado de metas produtivas e controle de informações, podemos fracionar o período das águas em verão e outono, dividindo o ano em três fases distintas. Da mesma forma, surge a necessidade de estabelecer metas de desempenho ao longo desses períodos, de forma mais minuciosa. Nessa divisão, o período de seca compreenderá os meses de junho a outubro, um total de 150 dias. Logo a seguir vem o período de verão ou “águas” que vai de novembro a fevereiro –  120 dias – e um curto período de 90 dias que podemos o identificar como outono, indo de março a maio, no início da seca, fechando os 12 meses do ano.

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Fonte: Gustavo Siqueira – Apta Colina.

Em resumo, o quadro nos mostra valores de ganho médio diário dos animais que devemos atingir nos três diferentes períodos, em função das metas estabelecidas na propriedade. Se analisarmos bem o quadro podemos perceber uma gama enorme de opções de metas de desempenho a se atingir. Essa grande variabilidade de opções pode ser alcançada com os diferentes níveis de tecnologias conhecidas atualmente. Opções que se iniciam no mais básico, como um sal mineral, passando por sal mineral aditivado, sal mineral ureado, mineral enriquecido, proteinado, proteico energético e ração. Tecnologias diferentes gerarão resultados de desempenho diferentes, mas também pedirão ajustes operacionais diferentes. Quanto maior a quantidade de alimento fornecido no cocho para os animais, maior a expectativa sobre o aumento de produção dos mesmos, no entanto, maior também é a quantidade de detalhes que farão a diferença.

Pensando no boi 7.7.7, e vendo os valores do quadro acima, é possível perceber que no período da seca necessitaríamos de um ganho médio diário de 308g/dia. Tal resultado só é possível ser alcançado com no mínimo o uso de uma suplementação ao nível de 100 a 300g por 100kg de peso vivo. Para fins de comparação, um simples mineral ureado ou enriquecido não seria suficiente nesse período do ano para imprimir o ganho de peso estabelecido como meta.

Na pior das metas citada no quadro, que é de apenas 4 arrobas no ano, o ganho médio necessário nesse período seria de 160g/dia o que também pode não ser alcançado apenas com o uso de um sal mineral ou sal mineral enriquecido, ou seja, a suplementação na seca não é uma opção de se fazer ou não, mas sim, uma necessidade para que o sistema seja sustentável por si só e que, pelo menos, mantenha o animal em crescimento. Reforçando que a suplementação mínima com sal mineral somente permite que o animal não perca peso na seca, os ganhos, se ocorrerem, são bem baixos, próximos a 50g/dia apenas.

No período de águas, a conversa toma outro rumo. Nesse período, os ganhos médios para alcançar a meta devem ser de 901g/dia. Animais em pastejo nas águas com um simples mineral alcançam ganhos diários próximos a 600g/dia. Neste sentido, estamos falando em uma necessidade de ganho adicional de 300g/dia, sendo o nível tecnológico mínimo exigido para tal resultado, um suplemento de 100 a 300g por 100kg de peso vivo, dependendo do cenário.

Por fim, nos meses de março, abril e maio precisamos pensar em preparar o boi para o início da terminação, lembrando que, voltando ao boi 7.7.7 traçado como meta para o nosso sistema, o ganho médio diário pretendido para esse curto período de outono é de 618g/dia. Nessa fase, precisamos entender que, com o passar dos dias, as forragens vão apresentando redução em termos de qualidade e quantidade ofertada aos animais. Nesse sentido, vários trabalhos têm demonstrado que o uso apenas de um sal mineral não é capaz de compensar a queda na qualidade do pasto que está ocorrendo. Sendo assim, neste período, se faz necessário níveis de suplementações maiores, 300 a 500g por 100kg de peso vivo, visando corrigir a queda na qualidade da forragem, permitindo atingir a meta de ganho de peso estabelecida.

A produção de arrobas por hectare, como visto no início do texto, parte do equilíbrio do desempenho individual e a taxa de lotação da propriedade. Dominar e conhecer os ganhos individuais dos animais é o primeiro passo para se aumentar a produção de arrobas. As estratégias de aumento na taxa de lotação vêm a seguir com uso de adubação e manejo do pasto.

Independente das sugestões acima, a pesagem dos animais nos permite obter o estoque de arrobas na propriedade, a produção de arrobas por hectare ano e, consequentemente, em conjunto com as informações dos custos fixos e operacionais do sistema, conhecer a lucratividade da atividade e sua rentabilidade, podendo até compará-los com outras atividades.

Por fim, o controle sobre os números, bem como a gestão do negócio, são necessários em qualquer processo de produção que se busca eficiência. No entanto, quanto maior a intensificação do sistema de produção, maior a necessidade de se conhecer os dados e ter a gestão dos mesmos em mãos, só assim poderemos ter um processo lucrativo e consistente por muitos anos.

 

Lembre-se:

O final do período de seca, como discutido no texto, coincide com a vacinação obrigatória de aftosa e o final do período das águas e outono juntos, coincide novamente com o período de vacinação de aftosa no mês de maio, momentos que podem ser utilizados para pesagem dos animais e cálculos de arrobas estocadas na fazenda e produção de arrobas por hectare.

Vale lembrar que, tempo é dinheiro e intensificar o processo de produção reduz o tempo gasto na produção, porém, aumenta a necessidade da gestão e controle sobre os dados. A diluição dos custos fixos da atividade com a intensificação trará maior giro de capital, maior lucratividade e, consequentemente, maior rentabilidade.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

Jose Rodolfo Carvalho

Jose Rodolfo Carvalho

José Rodolfo Carvalho é Consultor de Serviços Técnicos de bovinos de corte na Agroceres Multimix.

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3 Comentários

  1. Diogo Almeida disse:

    Ótimo texto.
    Nos mostra necessidade de estabelecer metas, onde as margens de ganho estão cada vez menores.
    Parabéns

  2. Oderman Oliveira Lima disse:

    Como sempre. Excelente artigo.

  3. Leonardo Guimarães disse:

    Parabéns pelo texto, Rodolfo, muito bom e muito esclarecedor. O conceito de arrobas produzidas, estocadas e etc, é muito oportuno. Forte abraço

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