O paradoxo do Brasil com a Peste Suína Africana (PSA)

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Capa do artigo sobre peste suína africana no Brasil. Capa que mostra a bandeira do Brasil e China

Introdução

O ano de 2020 foi marcado pela ocorrência da pandemia do COVID-19 (SARS COV – 2), pela ocorrência da doença, pelas perdas humanas e por um enorme impacto na economia global, que é fortemente influenciada pela China, devido aos seus movimentos de compra de grãos e de carnes.

Desde 2018, a Peste Suína Africana (PSA) afeta a China, e depois a Ásia, África e a Europa. Estima-se que a doença tenha eliminado metade do rebanho de suínos da China (Rabobank, 2020), principal país produtor de suínos e consumidor de carne suína. Esse fato determinou a maior aquisição de carnes de suínos, bovinos e de frango, transformando o mercado mundial.

Surto de Peste Suína Africana em Chongqing – Suíno caído e homem na água com um barco de madeira indo em direção ao suíno
Surto de PSA em Chongqing – China em novembro de 2019. Foto: Agência Reuters.

A partir daí, vivemos o grande paradoxo brasileiro e das Américas, frente à Peste Suína Africana (PSA). Se por um lado temos excelentes oportunidades com o aumento histórico das exportações de carne suína, por outro, enfrentamos um grande desafio para que a doença não venha para as américas, e sobretudo para o Brasil, transformando tal oportunidade em fracasso. Por isso, temos que fazer parte da busca de soluções para o controle da doença.

A PSA não é inédita no Brasil. Em 1978, em função de alimentos contaminados oriundos de uma aeronave, proveniente de Portugal, fornecidos a suínos locais, houve um surto no município metropolitano de Paracambi – RJ. Em 1982, o Brasil conseguiu erradicar a doença, o qual continua livre até o momento atual.


O poder da biossegurança

Para ilustrar a relação de custo-benefício na adoção das medidas de biossegurança, demonstramos a seguir um exemplo do poder da biossegurança em reduzir e/ou evitar a contaminação pelas doenças de maior impacto econômico.

Mapa figurativo Vietnã

O exemplo que vem do Vietnã:

O médico veterinário Francisco Domingues trabalhou na suinocultura brasileira e ao redor do mundo, como na Rússia, e, atualmente, no Vietnã, na empresa JAPFA Comfeed.

Recentemente, Francisco participou dos novos eventos virtuais aqui no Brasil (Suíno Talks; Pig Meeting), e nos brindou com a sua fantástica experiência.

Quando chegou no Vietnã, deparou-se com muitos problemas sanitários, entre eles a PRRS (Síndrome Reprodutiva e Respiratória Suína) e a PEDv (Diarreia Epidêmica Suína – coronavírus). Observou que os manejos básicos não eram devidamente praticados. Além de implementar as medidas básicas de biossegurança, limpeza e desinfecção, introduziu outras medidas importantes. Uma das medidas mais eficazes foi a limpeza e desinfecção dos veículos de transporte, em um sistema semelhante ao praticado em Campos Novos – SC, pela empresa Agroceres PIC, o TAAD (Thermo – Assisted Drying and Descontamination), secagem térmica e descontaminação.

Foto: Agroceres PIC e Consuitec.
Foto: Agroceres PIC e Consuitec.

A diferença do sistema praticado pela Agroceres PIC e a empresa vietnamita JAPFA é a descontaminação da cabine dos veículos. Na Agroceres PIC, a descontaminação da cabine é realizada com o gás ozônio. Na JAPFA, a descontaminação é com desinfetantes à base de monopersulfato potássico, pulverizado na cabine com o uso de um nebulizador (fogger) além de álcool em gel em toda superfície. Em seguida, segundo Francisco, foi utilizado um “swab de arrasto” para garantir que foi realmente desinfectado.

Com as medidas de biossegurança adotadas, Francisco conseguiu controlar as duas doenças (PRRS e PEDv). A PPRS está praticamente erradicada na empresa, devido à retirada do último lote de terminação contaminado, segundo o Francisco.

Quando a Peste Suína Africana (PSA) chegou com força no Vietnã, a empresa JAPFA estava preparada e, assim, mesmo com a intensa contaminação acometida em todo o país, a empresa não foi contaminada, comprovando o poder das medidas de biossegurança adotadas.

Outra medida de controle que está sendo efetiva, segundo o Francisco, é a detecção preventiva e eliminação precoce de fêmeas em reprodução, que já apresentam um início de processo febril, evitando, assim, que a doença avance e se espalhe.

 


Alemanha – determinação do futuro da PSA e do mercado de carne suína

Bandeira da Alemanha

A Alemanha é o principal player (participante do mercado) na exportação de carne suína do mercado comum europeu.

O maior temor era a contaminação do país pela Peste Suína Africana (PSA), o que aconteceu recentemente em javalis nativos do país, que se deslocam por vários outros países, como a vizinha Polônia.  Os casos continuam aumentando com a contaminação de outros javalis. Os produtores de suínos alemães declaram que suas granjas estão preparadas e não haverá contaminação, devido à eficaz biossegurança instalada, evitando a contaminação dos suínos domésticos. O argumento não foi suficiente, e países como a China e Coreia do Sul embargaram as exportações alemãs, desde setembro/2020.

Até o momento, dez países fora da UE proibiram as importações de carne suína da Alemanha, dentre eles a China, Coréia do Sul, Japão e Vietnã, representando 76% das exportações de carne suína extra-UE em 2019.

Sem acesso a esses mercados de exportação, cerca de 75.000 toneladas de carne suína, por mês, precisam encontrar um mercado alternativo, principalmente na EU (União Europeia).

Dentre os esforços para amenizar os impactos, a Alemanha solicitou à China que revisasse a proibição, no sentido de proibir apenas a região afetada do país e não toda a sua extensão. Até 14 de dezembro não houve resposta da China a respeito.

 


Peste Suína Africana (PSA) em javalis na Alemanha, setembro/2020 a janeiro/2021

Estado

Distrito

Casos em javalis

Brandenburg

Oder-Spree

307

Brandenburg

Märkisch-Oderland

154

Brandenburg

Spree-Neisse

31

Saxony

Görlitz

17

Total

509

Fonte: Portal Pig Progress.

 

Mercado mundial de carne suína

Com o evento da PSA (Peste Suína Africana), a China representa, atualmente, 40% das importações de carne suína globais, mais de quatro vezes maior do que o seu maior concorrente, conforme o relatório Rabobank – suinocultura global.

À medida que a China restaura o seu rebanho, se afasta do mercado global, que terá que encontrar novos mercados. Estima-se que a produção chinesa, em 2021, será mais de 10%, ou quase 4 milhões de toneladas métricas maior do que os níveis registrados em 2020 – um reflexo do progresso inicial. Embora ainda seja um déficit, em relação ao consumo histórico, espera-se que isso resulte em uma queda de 20% a 30% nas importações de carne suína, ou cerca de 1 milhão de toneladas métricas, em 2021. O Rabobank acredita que, em seu curso atual, a China poderá retornar a 95% de autossuficiência já em 2024/25.

Com cinco países responsáveis por 85% do total das importações anuais de carne suína, pode ser cada vez mais difícil redistribuir a carne suína de que a China não precisa mais.

 

Gráfico do Rabobank sobre o mercado de distribuição de carne suína
Fonte: USDA, Rabobank 2020.

 

Brasil

Brasil como quarto maior produtos e exportador de carne suína

O Rabobank projeta para o Brasil, atualmente, um salto de 4,5% ao ano na produção de suínos. Em 2020 o país registrou aumento recorde de 36,1% nas exportações de carne suína. Além disso, segundo a ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), as vendas de carne de frango em 2020 superaram em 0,4% o total embarcado em 2019.

Há uma grande preocupação com o aumento dos custos das rações, pela valorização, sobretudo, do milho e do farelo de soja. Como evento histórico, o Brasil acaba de importar 750 mil toneladas de soja, a US$ 450,00 / tonelada, devido à escassez do grão pela grande exportação, sobretudo para a China.


Comentários finais:

  • O Brasil se encontra em um grande paradoxo, com um olho nas exportações de carne suína, e o outro nos cuidados para a PSA não entrar no país. Os investimentos na biossegurança nunca foram tão necessários;
  • O poder da biossegurança é comprovado com exemplos como o que descrevemos da empresa JAPFA, do Vietnã;
  • Analistas deixam clara a posição de que o comércio internacional de carnes estará aquecido até, pelo menos, o ano de 2024. É necessário, portanto, um plano consistente para o “depois da China”, como já vivenciamos com a Rússia, em períodos recentes;
  • A Peste Suína Africana (PSA), comparado à pandemia atual do COVID-19, não está controlada. Dessa forma, as perdas continuarão ocorrendo, o que favorece o mercado, porém aumenta a preocupação com a ameaça da doença;
  • O mercado mundial de grãos nunca será o mesmo de antes da PSA. O rebanho de suínos da China mudou. Agora, o rebanho que antes contava com uma boa parcela de animais em ”criação doméstica”, na sua maioria com alimentação simples, passa a ser um rebanho de criação industrial, com a alimentação, agora, à base de milho e farelo de soja, mantendo a alta demanda de grãos pela China, o que não ocorria, pelo menos com o milho. Além disso, a genética ainda requer maior evolução, pela pressa na composição do atual plantel, sendo a conversão alimentar ainda muito alta, agravando a demanda pelos grãos. Esses fatos manterão os preços dos grãos em alta, afetando o resultado da suinocultura brasileira nos próximos anos.

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