Sorgo: vale a pena utilizar? - Por dentro do cocho

Por dentro do cocho – Sorgo: vale a pena utilizar?

Sorgo: O que é? Vale a pena utilizar?

O sorgo é um cereal que teve sua origem na África e parte da Ásia, se apresentando como uma boa fonte alternativa de amido, substituindo o milho. Muito utilizado na alimentação de aves, suínos e ruminantes, seja como ingrediente de rações e suplementos ou como volumoso (silagem de sorgo, no caso de ruminantes), esse insumo, desde que bem trabalhado, pode trazer vantagens econômicas ao produtor. Vejamos.

O sorgo apresenta boa resistência à seca e tolerância a temperaturas elevadas, se desenvolvendo bem em várias regiões agrícolas do Brasil, se caracterizando como uma excelente alternativa para o plantio na segunda safra e apresentando boa produtividade. Pode-se destacar ainda que uma roça de sorgo seria menos afetada pelos períodos de maiores interpéries climáticas desse período do ano e, nesse cenário, sua produção consegue se equiparar a do milho.

Sorgo - Nutrição Animal Agroceres Multimix

Outra vantagem do Sorgo: vale a pena utilizar?está relacionada ao seu menor custo de produção, quando comparado ao milho (convencional e transgênico). Isso acontece porque o sorgo é menos exigente em nutrientes, consequentemente, demandando menor quantidade de adubo, o que confere ao produtor menor custo de produção. Assim, para quem produz esse cereal, seu uso em dieta de bovinos permite reduzir o custo da diária da alimentar, pela diminuição do preço da ração e suplementos.

Segundo o IBGE, o cultivo de sorgo cresceu 82,5% do ano de 2016 (1.175.759 toneladas) para o ano de 2017 (2.143.131 toneladas) no Brasil, onde Goiás se apresenta como o maior Estado produtor, com aumento da área colhida em 32,7%, e aumento na produtividade de 69,4%, produzindo 788 mil toneladas de sorgo, o que significa quase 37% de todo o sorgo produzido no país.

O valor nutritivo do sorgo é muito próximo ao do milho (Tabela 1), com um valor energético um pouco menor (cerca de 90% do valor energético do milho (NRC, 1996)). Esse menor valor energético ocorre devido à maior presença de proteínas (prolaminas) que envolvem os grânulos de amido, dificultando sua digestibilidade (Owens e Zinn, 2005, citado por Clarindo, 2006).

Porém, esse menor valor energético pode não impactar no desempenho animal, caso seja adotado um bom processamento dos grãos e/ou a escolha de bons cultivares (cultivares mais farináceos), tornado possível a substituição do milho pelo sorgo, sem comprometer os resultados de desempenho animal.

Tabela 1. Composição química do sorgo em grão submetido a diferentes métodos de processamento, comparado ao milho:

Nutriente

Sorgo

Milho

Com tanino

Sem tanino Extrusado Úmido Seco

Úmido

MS (%)

86,17

86,63

89,23

65,41

90

67,83

PB (%)

15

13

11

9

9

8,60

EE (%)

2,98

2,88

1,45

3,45

4,01

3,98

NDT (%)

78,43

78,43

89,40

77,47

85,65

78,54

Amido (%)

62,91

62,91

60,57

44,10

66,25

43,72

DPB (%)*

32,80

67,10

34,05

73,55

70,73

53,29

*Digestibilidade da proteína bruta.
Fonte: NRC (2001); Valadares Filho et al. (2006); adaptado de Faria Jr. et al (2009).
     

Um ponto que merece ser destacado em relação ao sorgo está relacionado a um fator anti-nutricional: o tanino. Taninos são compostos poli-fenólicos, presentes em todas as plantas em maior ou menor quantidade, dependendo da espécie (Patra e Saxena, 2010), que diminuem a degradação de proteína, podendo prejudicar o desempenho dos animais, porém, hoje já existem muitos cultivares com baixa quantidade de tanino disponíveis no mercado.

É importante deixar claro que nem todo tanino é prejudicial aos animais e muito menos para saúde humana, afinal, quem aprecia um bom vinho sabe da sua importância, não é mesmo? Hoje já utilizamos uma combinação de taninos de castanheira e de quebracho como aditivo nutricional para ruminantes, com eficácia comprovada na modulação da fermentação ruminal, aumento do ácido propiônico, redução de metano e atuação no metabolismo proteico pelo maior fluxo de proteína metabolizável, melhorando o desempenho animal.

Existem diferentes híbridos relacionados tanto à presença de tanino (fator antinutricional) quanto à fermentação do amido, em que podemos encontrar cultivares com baixo tanino e com maior ou menor vitreosidade (mais duros ou menos duros), o que influenciará diretamente o desempenho dos animais. Além disso, o sorgo é o cereal utilizado na alimentação animal que mais responde aos métodos de processamento (moagem, laminação, floculação, grão reidratado), o que melhora muito o seu aproveitamento, aumentando a disponibilidade de energia, sem alterar significativamente sua composição.

Assim como acontece com o milho, quando utilizamos o sorgo, também precisamos ter cuidado com a contaminação por fungos e proliferação de micotoxinas nocivas. O crescimento dos fungos pode ocorrer devido à integridade dos grãos e/ou condições de armazenamento. As principais contaminações ocorrem pelo fungo do gênero Aspergillus, responsável pela aflatoxina, e pelos fungos do gênero Fusarium, que produzem a fumonisina.

 

Processamentos dos grãos

O processamento dos grãos melhora a digestibilidade do amido e, com isso, o desempenho dos animais. No caso do sorgo, o processamento é de extrema importância, sendo um ponto de atenção a regulagem do moinho e a peneira que será utilizada, isso porque o grão do sorgo é menor do que do milho, o que dificulta sua quebra durante a mastigação e, como consequência, sua digestibilidade fica ainda mais comprometida.

Os métodos de processamentos mais utilizados no Brasil são: moagem e sorgo reidratado.

A moagem é o processamento mais barato (R$ 50 a 70 a tonelada) e mais utilizado no Brasil. Esse processo rompe o endosperma e torna o amido mais exposto à ação dos microrganismos. Mas, diferente do milho, o sorgo deve passar por uma moagem mais fina, utilizando uma peneira de 2 mm. Lembrando que é muito importante supervisionar com frequência o estado da peneira, evitando furos que permitam a passagem de grão de sorgo inteiro.

Já o grão reidratado está ganhando cada vez mais espaço nas fazendas, como uma alternativa de armazenamento dos grãos sem precisar descontar os custos com o armazém, onde são descontados a secagem e a limpeza. Essa técnica consiste na moagem do grão em peneira de 2 mm, adicionando água para elevar a umidade a 35%. Esse material pode ser armazenado em silos bag ou ainda em trincheiras, sendo que nesse caso deve ser feita a compactação com um trator, fechando com uma lona, assim como se faz com uma silagem. Sorgo reidratado, vira milho.

Sorgo - Nutrição Animal Agroceres Multimix

Lembre-se:

O sorgo é uma excelente alternativa como substituto parcial ou total do milho, mas é muito importante estar atento ao seu processamento e a escolha do cultivar para não trocar “gato por lebre”.

Faça um esforço para conseguir moer o sorgo o mais fino que conseguir e, na hora de comprar um híbrido, priorize os que apresentam baixo tanino e menor vitreosidade, assim é possível garantir uma boa digestibilidade e bom desempenho dos animais.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

Simone Garcia

Simone Garcia

Simone Garcia é Consultora de Serviços Técnicos de bovinos de corte na Agroceres Multimix.

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3 Comentários

  1. Luiz Alberto Teixeira Costa disse:

    Artigos como esses são muito importantes, pois, apresenta uma nova opção de insumo, o que abre uma nova janela ao consumidor, principalmente com uma esplanação detalhada como vista nesse artigo. Parabéns a autora.

  2. Benedito Brisola Ferreira disse:

    *Ótimo Simone, excelente esclarecimento. Já utilizei muito em ração para bovinos de corte em semi-confinamento em proporção de até 60% em substituição ao milho. Usando na mistura o milho este melhora o paladar e aceitação dos animais.
    *Que tal na próxima vc publicar essa matéria com o cereal milheto.

  3. MOACIR GOMES disse:

    Parabens Simone, excelente artigo. Só que demorou muito. mande logo o próximo. E que seja tão bom quanto esse.
    Muito obrigado.
    Moacir Gomes. de Sta Maria da Vitoria – Bahia – Brasil.

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