Snaplage: a silagem de espiga de milho

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Snaplage é o nome em inglês do que no Brasil chamamos de silagem da espiga do milho (com palha, sabugo e milho). Esse ingrediente se diferencia dos seus “primos” – silagem de planta inteira e silagem de grão úmido (ou reidratado) – por se caracterizar como um alimento energético e ao mesmo tempo fibroso.

Em tese, ao ensilar somente a espiga de milho, conseguimos o adensamento energético da espiga pelo processamento e ensilagem do grão, devido à digestibilidade do amido, enquanto preservamos parte da fibra, o que confere dupla aptidão a esse insumo.

O uso de silagem de espiga no Brasil é relativamente novo, iniciado por volta da década de 2010. Apesar de ser uma novidade por aqui, na Europa e Estados Unidos essa é uma técnica utilizada há muito tempo, desde a década de 60.

Assim como toda tecnologia, seja ela nova ou não, o snaplage, ou silagem de espiga, exige o conhecimento da técnica, assim como todos os cuidados no processo de ensilagem. Este é um insumo que, assim como qualquer outro, deve ser estudado dentro do conceito de produção da fazenda, ou seja, nem toda fazenda estará apta a adotar tal tecnologia. Em alguns cenários, talvez tecnologias como silagem de grão úmido (ou silagem de planta inteira) possa atender melhor a demanda da propriedade.

 

Produzindo o snaplage

A colheita do snaplage pode ser feita com uma automotriz (colhedora autopropelida), a mesma utilizada para colheita da planta inteira para confecção de silagem de milho, acoplando a ela uma plataforma despigadora e utilizando o cracker para o processamento grão. A janela de corte do snaplage pode ser considerada relativamente longa, devido a maior umidade retida no sabugo de milho (cerca de 10 dias).

Em média, é possível colher ao redor de 11 toneladas de snaplage em matéria seca por hectare. Quando comparado à silagem de grão úmido ou reidratado, o snaplage pode apresentar um custo menor de produção do quilo de matéria seca, isso porque a produtividade é maior (ao redor de 15 – 20%), devido à palha e ao sabugo. Hoje, no Brasil, existem muitos prestadores de serviços capacitados para a colheita e confecção da silagem da espiga de milho.

Para estabelecer o momento de colheita o ideal é verificar a umidade das espigas, que deve estar entre 33 a 40% de umidade (grãos com 28 a 35% de umidade). Para definir a umidade da espiga deve-se coletar os grãos na lavoura e aferir a matéria seca, através de um micro-ondas ou aparelhos específicos. Para calcular então a umidade da espiga, subtraia o valor da MS obtida para o grão de 100. Some ao valor obtido 5 pontos percentuais que você chegará a umidade da espiga (sabugo apresenta mais água em sua composição do que o grão). Por exemplo: se a umidade dos grãos de milho na lavoura for 35%, a umidade da espiga será 40%. Para um ponto de colheita correto, com a umidade das espigas variando entre 33 a 40%, a umidade dos grãos deverá estar entre 28 a 35%. É muito importante garantir o ponto certo da colheita para facilitar a compactação (alimentos fibrosos secos são difíceis de compactar) e a fermentação da silagem.

Para bovinos de corte, é aceitável colher a espiga com 33 a 35% de umidade (umidade dos grãos entre 28 a 30%), diferente do gado de leite, em que a recomendação é o material seja colhido com a umidade da espiga entre 35 a 40%. É aceitável trabalhar com um material um pouco mais seco para bovinos de corte porque é possível acumular um pouco mais de amido no grão. Colher esse material com uma umidade mais baixa poderá prejudicar um pouco a digestibilidade da fibra, que é muito importante para o gado de leite, diferente do gado de corte, no qual o interesse maior é garantir uma boa ruminação, com fibra fisicamente efetiva.

Ao avaliar a distribuição do tamanho de partículas do snaplage, utilizando a penn state, normalmente, é possível encontrar cerca de 60 a 70% das partículas acima da peneira de 4 mm e, consequentemente, cerca de 30 a 40% no fundo. Da quantidade do material retido acima da peneira de 4 mm, de 8 a 10% ficam retidos na peneira de 19 mm e o restante fica retido de forma muito semelhante nas peneiras 8 e 4 mm.

Para obter um alimento com elevado valor nutricional, garantindo o máximo aproveitamento do amido do milho, é necessário esperar 60 dias para abertura do silo. A palha e o sabugo funcionam como “inoculantes naturais” no processo de fermentação, portanto o indicado seria utilizar um inoculante com Lactobacillus buchneri para prevenir a deterioração do material após a abertura do silo. Importante salientar que, assim como para silagem de milho de planta inteira, não existem no mercado inoculantes que aceleram o processo fermentativo permitindo antecipar a abertura do silo.  A densidade do snaplage – normalmente considerada – pode variar entre 800 a 850 kg/m³.

 

Composição e uso de snaplage na alimentação de bovinos de corte

A composição bromatológica do snaplage pode apresentar uma grande variação entre um silo e outro, assim como entre uma propriedade e outra. Dessa forma, o ideal é sempre realizar análises bromatológicas do material para garantir uma formulação correta e ajustada aos objetivos.

De forma geral, o snaplage apresenta em sua composição entre 75 a 80% de grãos; de 10 a 15% de sabugo e entre 5 a 10% corresponde à palha. Quando comparado à silagem de grão úmido, apresentará ao redor de 10% a mais de fibra e 10% a menos de amido, mas, desde que bem feita, a silagem da espiga apresentará a digestibilidade do amido semelhante à silagem de grão úmido (Tabela 1).

Tabela 1. Comparativo da composição química dos ingredientes com base na matéria seca

 

Milho moído

Silagem de milho

Silagem de grão úmido

Snaplage

Matéria seca (%)

87,22

33 – 37

63 – 68

55 – 65

FDN (%)

9,72

35 – 40

10 – 13

20 – 25

Amido (%)

70 – 75

30 – 35

60 – 65

50 – 55

Digestibilidade do amido (%)

75 – 80

95 – 97

95 – 97

95 – 97

Fonte: adaptado de Rossoni, 2020 – Rehagro Consultoria

Devido à quantidade de fibra presente na silagem da espiga, é possível economizar parte da fonte de volumoso da dieta com a inclusão de snaplage.

Devido a melhor digestibilidade do amido, assim como ocorre quando se utiliza silagem de grão úmido ou reidratado, ao utilizar o snaplage nas dietas é indicado a inclusão de outra fonte de energia, como milho moído seco, sorgo moído seco, casca de soja, polpa cítrica, entre outros. No geral, a proporção adotada entre snaplage e outra fonte de energia na dieta é 70:30, respectivamente. Dessa forma é possível obter um bom padrão de fermentação ruminal.

Além dos custos de produção, é muito importante considerar o custo alimentar da dieta se a intenção for substituir a silagem de grão úmido ou reidratado por snaplage, uma vez que, devido às diferenças na composição, ajustes na formulação são necessários para garantir bons desempenhos.

 

Considerações finais

Em resumo: para garantir um bom alimento, com boa digestibilidade do amido e, com isso, assegurar um bom desempenho econômico e zootécnico dos animais, é necessário produzir corretamente, seguindo os seguintes passos: colher o material no ponto correto, respeitando a umidade da espiga; processar bem os grãos durante a colheita (importante acompanhar a colheita); compactar bem o material; se for utilizar inoculantes, optar pelo correto, com Lactobacillus buchneri; deixar o silo fechado por pelo menos 60 dias; realizar análises bromatológicas do material para o melhor ajuste de formulação.

A propriedade precisa ter aptidão agrícola para produzir snaplage, uma vez que é necessário ter uma área destinada à lavoura, condições climáticas favoráveis, cuidados com adubação e controle de pragas, entre outros. Fazendas que já produzem silagem de milho de planta inteira – geralmente – não encontram dificuldade em produzir o snaplage, diferente de propriedades que trabalham somente com silagem de grão reidratado ou grão úmido, utilizando outra fonte de volumoso que não seja silagem de milho.

Em fazendas em que o sistema de engorda é a TIP (terminação intensiva a pasto), o snaplage, por apresentar um certo volume, poderá exigir ajustes na área de cocho ou ajustes operacionais (aumento da área de cocho ou aumento do número de tratos diários). Além disso, por ser um alimento úmido, exigirá a mistura diária dos insumos (assim como ocorre quando se utiliza silagem de grão úmido ou reidratado, na formulação).

Frente ao preço do milho, e todos os demais custos de produção, atualmente, não existe justificativa plausível para não adotar tecnologias – de relativa facilidade de implementação – que melhoram o aproveitamento desse alimento. Não existe a melhor tecnologia, o que existe é a tecnologia ideal para cada fazenda, respeitando a aptidão de cada propriedade, o operacional e os custos.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

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