Início Bovinos de Corte Transição águas/seca: não deixe o lucro da safra sumir no outono

Transição águas/seca: não deixe o lucro da safra sumir no outono

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Nem tudo que é bom dura para sempre – e na pecuária essa regra é clara. No Brasil, a pecuária de corte é feita majoritariamente a pasto, o que nos torna dependentes das condições climáticas (temperatura, luminosidade e umidade), que variam ao longo do ano.

O verão (período chuvoso) entrega boa quantidade e qualidade de forragem, mas no outono o jogo muda. Essa estação marca a transição para inverno e exige que o pecuarista “vire a chave” do manejo para não ver o desempenho dos animais ir embora junto com a chuva, o calor e a luminosidade.

 

O que acontece com o pasto na transição águas/seca?

Nesse período, que normalmente se inicia em meados de março e pode se estender até junho (Figura 1), o pasto passa do estado de abundância e qualidade para o modo sobrevivência.

Figura 1. Variação da quantidade de forragem ao longo do ano

 

Embora o pasto ainda pareça verde, a fisiologia da planta já mudou:

  1. Queda no ritmo de crescimento

Com a menos disponibilidade de água, luz e temperatura mais amena, a planta reduz a emissão de folhas novas. A rebrota se torna mais lenta e o pasto já não repõe na mesma velocidade aquilo que os animais consomem.

Resultado: o “estoque” começa a diminuir, mesmo que visualmente não pareça.

 

  1. Mudança na estrutura da forragem: a “seca verde”

O capim começa a envelhecer e direciona energia para produção de sementes (florescimento). O colmo começa a alongar com mais intensidade, fica mais rígido, a relação folha:colmo diminui e aumenta o acúmulo de material senescente.

 

  1. Queda no valor nutritivo

O teor de proteína bruta começa a diminuir, a fibra (FDN) aumenta e sua digestibilidade diminui devido a lignificação.

O alerta: mesmo ainda parecendo estar verde e volumoso, o pasto do outono não é o mesmo do verão. Ele produz menos folhas e oferece menos proteína e energia ao animal. É aqui que surge o clássico cenário em que “o boi come, mas não ganha peso” – é a queda invisível do desempenho.

Não é quando o pasto acaba que começa o problema. O problema começa quando a qualidade cai.

 

O que fazer no período de transição?

Ajuste da suplementação

Para manter o desempenho conquistado nas águas, a suplementação como ferramenta para ajustar o aporte de nutrientes para o animal é fundamental (Figura 2).

Figura 2. Ganho médio diários de animais na fase de outono (13/03 a 24/06/2009), em diferentes tipos de suplementos. Fonte: Roth, 2012

 

Considerando um período de 90 dias de outono, observe um exemplo comparando sal mineral, proteinado (0,1% do peso vivo) e proteico energético (0,3% do peso vivo):

Resultado:

  • para cada R$ 1,00 investido no proteinado, o retorno é de R$ 2,25.
  • para cada R$ 1,00 investido no proteico-energético o retorno é R$ 2,07.

 A discussão não é sobre qual suplemento é melhor, e sim sobre qual estratégia entrega mais resultado dentro de cada sistema produtivo. Cada fazenda deve fazer sua própria conta, considerando estrutura, manejo, objetivos e os preços praticados na região.

O ponto central é claro: suplementação não é custo, é ferramenta que gera lucro.

 

Ajuste da carga animal

Outra decisão estratégica é aliviar a carga animal. Algumas alternativas práticas são:

  • Vender animais mais pesados antes da seca, aproveitando o momento da desmama para fazer a reposição com animais mais leves.
  • Usar a suplementação como ferramenta estratégica para entregar um garrote mais pesado e adaptado para terminação (Figura 3).

Lembre-se: a superlotação no outono é a receita mais rápida para transformar o lucro das águas em prejuízo na seca.

Figura 3. Evolução do peso corporal dos animais em função do tipo de suplemento, durante o outono. Fonte: Roth 2012

 

Diferimento de pastagem (O “feno em pé”)

É a prática de “guardar pasto”. Nada mais é do que retirar os animais de determinadas áreas, permitindo que o capim cresça e acumule massa de forragem para ser utilizado durante a seca.

O ideal é reservar alguns pastos no terço final do período das águas, enquanto a planta ainda tem condições de crescimento. O momento ideal depende da região, espécie forrageira e regime de chuva, mas normalmente esse período ocorre entre março e abril (Figura 4).

Figura 4. Efeito do mês de diferimento sobre a estrutura da forragem, ganho médio diário (GMD) dos animais e índice de tombamento da pastagem. Fonte: Santos et al., 2009

O tempo que o pasto fica reservado vai afetar a estrutura do pasto e com isso o desempenho dos animais. Se o diferimento for feito cedo demais, o capim passa do ponto, fica com muito talo que, além de dificultar o consumo do animal, tem maior risco de tombamento (dificulta o pastejo e desperdiça forragem). Além disso, um bom pasto de águas perderá a chance de ser aproveitado pelos animais. Por outro lado, se fechar tarde demais não haverá chuva suficiente para planta crescer.

O “pulo do gato”: o pasto diferido terá baixa proteína, sendo indicado ofertar ao animal pelo menos um proteinado (0,1% do peso vivo). O capim será a “barriga cheia” (fibra) e o suplemento será o “combustível” para a digestão.

 

Atenção ao “jogo de antecipação”

Entender a “troca de turno” da natureza é fundamental para não faltar alimento na fazenda. Na transição do período chuvoso para o período seco a planta entra em modo de sobrevivência.

Qualquer erro de manejo nessa fase custará caro no inverno. O pecuarista de sucesso não reage à seca, ele se antecipa a ela.

A seca é previsível, o prejuízo não. Quem se antecipa manejo, preserva lucro.

 

 

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