A criação de bezerras para reposição representa um custo substancial em fazendas leiteiras considerando a nutrição, manejo e tratamentos preventivos e curativos. Os riscos de morbidade e mortalidade de bezerras no período pré-desmame são considerados elevados, devido a alta susceptibilidade desses animais a infecções, o que resulta em aumento dos custos de criação, perdas no desempenho zootécnico e na produtividade futura.
Os ruminantes possuem placenta do tipo sinepiteliocorial, responsável por proteger a bezerra das infecções bacterianas e virais dentro do útero. Porém esse tipo de placenta, impede a passagem de proteínas séricas e principalmente imunoglobulinas para o bezerro. Concomitantemente à baixa transferência placentária de imunoglobulinas, o sistema imunológico imaturo dos neonatos não é capaz de oferecer proteção adequada na fase inicial da vida.
Desse modo, as bezerras são dependentes da transferência passiva de imunoglobulinas maternas através do colostro. A fim de garantir que a transferência de imunidade passiva seja eficiente, os cuidados com as bezerras devem começar antes mesmo do seu nascimento.
A utilização de um lote pré-parto nas fazendas permite um manejo mais cuidadoso das fêmeas, com o fornecimento de dietas adequadas, melhores condições de conforto térmico, entre outros cuidados. Esses fatores contribuem positivamente para o desenvolvimento final do feto e para a produção de colostro de alta qualidade.
É importante que sejam adotados protocolos para garantir que as bezerras recebam o colostro em quantidade e qualidade adequados nas primeiras horas de vida, possibilitando maior absorção de imunoglobulinas G (IgG) pelo intestino.
Para uma boa colostragem é desejável que a concentração de IgG no colostro seja superior a 50 g/L (BRIX ≥ 22%) e que seja fornecido volume equivalente a 10 a 12% do peso vivo nas primeiras 2 horas de vida e um segundo fornecimento de colostro (ou leite de transição) em até 6-12 horas para aumentar o total de IgG ingerido (meta de ~200-300 g totais).
Quando a quantidade e qualidade são inferiores aos descritos acima, pode ocorrer falha na transferência de imunidade passiva (BRIX sanguíneo entre 24-48 h de vida < 8,1%) sendo associada ao aumento da morbidade e mortalidade das bezerras.
À medida que as bezerras começam a ter contato com diferentes patógenos, o sistema imune inicia a produção de anticorpos direcionados a antígenos específicos, desenvolvendo memória imunológica, definida como imunidade ativa, permitindo que uma resposta se desenvolva de forma mais rápida e eficaz no combate às doenças em caso de exposição futura ao mesmo agente.
As doenças entéricas são as principais doenças que acometem as bezerras nos primeiros meses de vida (Tabela 1). Essas doenças podem ser causadas por bactérias, vírus, protozoários e fatores ambientais, e são caracterizadas por aumentar a frequência de evacuações e reduzir a consistência das fezes dos animais.
A diarreia é o principal sintoma relacionado aos distúrbios absortivos e secretórios do intestino. A severidade dessa doença pode ser avaliada por meio de uma classificação que varia de leve a intensa, utilizando escores fecais de 0 a 3. Essa avaliação pode ser complementada pela análise visual da coloração das fezes, a qual varia de acordo com o agente etiológico envolvido. Entretanto, outras causas comuns na frequência de diarreia são as falhas no manejo nutricional, falta de higiene e constância na rotina diária.
Tabela 1. Incidência de doenças avaliadas em 2.545 bezerras norte americanas durante o período pré-desmame (Adaptado de Urie et al., 2018).
| Doença | % do total | n° de casos |
| Diarreia | 18,9% | 533 |
| Doenças respiratórias | 11,3% | 349 |
| Desidratação | 4,2% | 112 |
| Outras doenças | 7,2% | 267 |
| Total de casos | 33,8% | 1.103 |
As doenças respiratórias bovina (DRB), englobam um conjunto de doenças que podem acometer tanto o trato respiratório superior (cavidade nasal, laringe e faringe) como as rinotraqueítes, assim como doenças do trato respiratório inferior (traqueia, brônquios, bronquíolos e parênquima pulmonar) como as broncopneumonias.
Os distúrbios não infecciosos ocorrem devido a inalação de toxinas ou alérgenos, mas existem também infecções virais isoladas como o vírus da rinotraqueíte infecciosa bovina (IBR), vírus sincicial respiratório bovino (BRSV) e vírus da parainfluenza três.
Já as bactérias são responsáveis pelas infecções secundárias. As doenças respiratórias são uma das mais importantes e comuns observadas em bezerras, sendo que em bezerras leiteiras cerca de 61% delas podem apresentar pelo menos um caso de DRB em seu primeiro ano de vida.
As sepses neonatais são infecções bacterianas graves que pode evoluir de doenças como diarreia e onfaloflebite. As causas destas enfermidades são múltiplas e complexas, ou seja, a presença de um agente causador é necessária, mas não suficiente para originar a doença.
Em animais que apresentam alguma morbidade é fundamental agilidade na avaliação e no diagnóstico, para que seja possível iniciar o tratamento o mais rápido possível. Essa intervenção precoce é essencial para evitar quadros agudos, os quais impactam diretamente nos índices de desempenho produtivo, como ganho de peso diário (GMD), idade e peso na primeira inseminação e parto, além da produção de leite.
Em alguns animais os sinais clínicos são claros como redução na ingestão de alimentos, febre, dificuldade respiratória e tosse, facilitando a identificação do animal doente e no diagnóstico. Porém, em outros casos, as bezerras não apresentam sinais clínicos claros o que dificulta a identificação e o diagnóstico, resultando no agravamento da doença e/ou morte dos animais, evidenciando a importância de um acompanhamento constante e minucioso.
Avaliando um banco de dados contendo registros de 2.272 bezerras, Abuelo et al. (2021), observaram a associação do estado de diarreia relacionado a uma redução de 50 g/dia no GMD e diminuição de 325 kg/leite na primeira lactação.
E em animais que foram diagnosticadas com BRD antes do desmame apresentaram uma redução de 14% na taxa de inseminação e elevou a idade ao primeiro parto. Goh et al. (2024), avaliando a associação entre diarreia pré-desmame e medidas de sobrevivência, saúde e produção observaram que bezerras com diarreia pré-desmame apresentaram um risco de mortalidade 1,48 vezes maior entre a sua inclusão no estudo e o primeiro parto e pariram 4 dias mais tarde do que os animais sem diarreia, podendo ser explicado pela redução no GMD.
Além disso, vacas que tiveram diarreia pré-desmame apresentaram um risco 1,13 vezes maior de serem removidas do rebanho em até 300 dias pós-parto em comparação com vacas sem diarreia pré-desmame.
Em uma revisão sistemática realizada por Buczinski et al. (2021), animais diagnosticados com DRB na infância tiveram redução de 121,2 kg na produção de leite na primeira lactação, aumento de 2,85 vezes na probabilidade de morrem (IC 95%: 1,22 a 6,69) e de 2,30 vezes quanto a chance de serem descartadas (abatidas ou vendidas) antes do primeiro parto (IC 95%: 1,75 a 3,03) em comparação com novilhas não diagnosticadas com esta condição.
Em outro estudo, Moroz et al. (2022) avaliaram o banco de dados de uma propriedade leiteira com 615 animais e com produção média de 24 mil litros de leite dia. Os autores observaram que bezerras saudáveis apresentaram maior produção de leite na primeira lactação (16.410 kg) em comparação aos que apresentaram algum quadro de diarreia (11.860 kg) ou DRB (11.264 kg) (= 0,007) (Figura 1).
Figura 1. Produção média de leite na 1ª lactação (305 ± 5 dias).

Sendo assim, adotar manejos sanitários no pré-parto e na fase de cria e recria são essenciais para evitar e minimizar a incidência de diarreia e DRB em bezerras leiteiras.
Essa melhora na sanidade das bezerras possibilita alcançar melhores índices zootécnicos, aumentando o GMD, melhorando os índices reprodutivos, reduzindo a idade ao primeiro parto e aumentando a produção de leite na primeira lactação.
Esses fatores resultam em animais mais saudáveis, longevos e de alta produtividade, garantindo assim melhor rentabilidade da atividade.
Referências bibliográficas
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MOROZ, Michail Sabino et al. Influência da doença respiratória bovina e diarreia na fase de aleitamento sobre o desenvolvimento da futura vaca: Levantamento de dados. Pubvet, v. 16, n. 11, p. 1-11, 2022. https://doi.org/10.31533/pubvet.v16n11a1262.1-11
URIE, N. J. et al. Preweaned heifer management on US dairy operations: Part V. Factors associated with morbidity and mortality in preweaned dairy heifer calves. Journal of dairy science, v. 101, n. 10, p. 9229-9244, 2018. https://doi.org/10.3168/jds.2017-14019.










































