Suplementação no período das águas - Parte 3

Geração agPastto: Suplementação no período das águas – parte 3

Suplementação no período das águas: Ajustes operacionais e estruturais

Dando continuidade ao tema “suplementação nas águas”, chegou a hora de falarmos sobre os ajustes operacionais e estruturais necessários na fazenda, para evoluir da suplementação mineral para a suplementação proteica.

Já discutimos sobre as justificativas técnicas, expectativa zootécnica e viabilidade econômica da suplementação proteica no período das águas, sendo o foco agora as mudanças no manejo operacional e estrutural necessárias para que os objetivos planejados sejam alcançados.

Temos que, se a fazenda já utiliza suplementação mineral no período das águas, o uso do proteinado é a estratégia que menos altera o manejo no dia a dia dos funcionários, uma vez que, por ser um produto que apresenta em sua formulação moduladores de consumo, na suplementação proteica é possível trabalhar com a mesma frequência de fornecimento que a suplementação com sal mineral (1 a 2 vez na semana). Nesse caso, a definição do intervalo entre tratos deve ser definida em função da capacidade de armazenamento do cocho, e, caso a capacidade de armazenamento seja pequena, precisamos diminuir o intervalo de fornecimento de suplemento, passando para 2 a 3 vezes na semana.

Percebam que o passo para sair de uma suplementação para outra – do ponto de vista do manejo – é pequeno e totalmente possível, já que em grande parte das fazendas os funcionários costumam olhar o gado mais de uma vez na semana, sendo assim, abastecer o cocho 2 vezes na semana ao invés de 1 vez é tarefa fácil.

Nesse sentido, para otimizar a logística de distribuição dos suplementos nos pastos podemos fazer uso de depósitos para guardar as sacarias com o suplemento, seja nos piquetes ou nas praças de alimentação, auxiliando bastante a logística da operação. Esses depósitos de suplementos podem ser desde caixas d´água até estruturas de alvenaria, o importante, nesse caso, é que os suplementos fiquem protegidos de animais, chuvas, entre outros.

Como nem tudo são flores, a adoção do proteinado como estratégia de suplementação exigirá investimentos em estrutura de cocho na fazenda. Isso porque, apesar do proteinado ser uma estratégia de suplementação considerada de baixo consumo (0,1% do peso vivo ou 100 gramas para cada 100 kg de peso vivo), ainda sim, seu consumo é maior do que o consumo de sal mineral. Nesse sentido, para evitar brigas, comprometimento do consumo e desempenho animal, a área de cocho ofertada por animal deve ser um pouco maior, algo entre 10 a 15 cm lineares/animal (Figura 1).

Suplementação no período das águas- A imagem mostra um gráfico que apresenta o número de brigas entre os bois devido ao cumprimento do cocho, sendo que quando o cocho chega em torno de 11cm o número de brigas é 4, quando em torno de 5cm o número é de 8 brigas, quando abaixo de 5cm o número de brigas é de 12 bois.

Uma outra característica importante, e que também exigirá ajustes estruturais, relaciona-se à composição do proteinado. Devido à presença de farelos em sua formulação, o uso de proteinados exige que a estrutura de cocho seja coberta, impedindo assim o acúmulo de água no cocho em dias de chuva e, consequentemente, evitando que o produto fermente e estrague no cocho.

Dito isto, normalmente, o produtor se assusta, imaginando o alto custo do investimento. Até aqui, sempre baseado no seu sentimento de que irá “gastar” muito.

Pois bem, o que devemos avaliar é: o desembolso com cocho e/ou cobertura é um gasto ou um investimento? Qual a produção necessária para pagar esse investimento?

Na pecuária moderna, precisamos colocar números nos sentimentos para que as decisões sejam tomadas com base na razão e não mais na emoção.

Sendo assim, para decidir se vale ou não a pena “gastar” com as benfeitorias exigidas pelo proteinado, o primeiro passo seria dimensionar qual, ou quais, estruturas precisariam de investimentos, fazendo assim um orçamento. Com o levantamento dos gastos necessários em mãos, o próximo passo seria então avaliar a viabilidade desses investimentos. Para isso, podemos utilizar o mesmo raciocínio já apresentado nos textos anteriores, em que, através de uma avaliação bem simplista, calculamos o ganho médio diário (GMD) necessário para pagar o investimento.

Para isso, vamos adotar os mesmos valores já demonstrados, em que o GMD necessário para pagar o custo adicional diário do proteinado é 0,040 kg/animal; e o GMD adicional esperado com o uso do proteinado é 0,150 kg/animal. Nesse caso, nossa margem – “lucro” – seria de 0,110 kg/animal/dia (0,150 kg – 0,040 kg) que, se considerarmos um valor de venda de R$ 5,00/kg de peso vivo, representaria um lucro de R$ 0,55/animal/dia (0,110 kg x R$ 5,00).

Normalmente, estruturas como cochos e coberturas são negociadas em metragem linear, sendo assim, para dar continuidade à análise de risco, vamos avaliar o lucro que poderíamos ter em 1 metro de cocho:

Se adotarmos 10cm lineares/animal como espaçamento mínimo de cocho para proteinado, temos que, em 1 metro de cocho cabem 10 animais (100 cm/10 cm). Fazendo as contas, temos que 10 animais por metro de cocho representam um lucro diário previsto de R$ 5,50 por metro de cocho (R$ 0,55/animal/dia x 10 animais). Considerando que o período chuvoso seja de 150 dias, somente para exemplificar o raciocínio, teremos um lucro de R$ 825 em 1 metro de cocho (R$ 5,50 x 150 dias).

Agora, com os números em mãos (orçamento do investimento necessário e GMD adicional), a avaliação que deve ser feita é a seguinte: o GMD previsto dos animais viabilizaria esse investimento? Dessa forma, a decisão seria pautada em algo racional e não mais no “achismo” que estamos acostumados a ter.

Suplementação no período das águas - A imagem mostra um pasto de uma fazenda onde se tem um cocho fechado e logo ao lado desse cocho tem alguns bois.

Com o raciocínio apresentado, fica claro que: cocho e, principalmente, cobertura, são investimentos que podem se pagar em 1 ano, mas, se for o caso, esse investimento pode ser diluído em 3 ou 5 anos, o que poderia fazer a conta ficar atrativa, porém, para o pagamento do investimento em um maior período, seria necessário entrar nessa conta o custo do capital investido ao longo do período, uma vez que o desembolso para esse tipo de investimento é feito uma única vez.  Dessa forma, a cobertura do cocho se apresenta como um investimento que, depois de quitado, passa a fazer parte da fazenda e contribuir com o lucro da propriedade. Uma estratégia para driblar a falta de cochos cobertos, que tem aparecido no mercado, são os produtos que não molham. Esse tipo de produto nos dá a sensação de “problema resolvido” e parece apresentar um excelente custo-benefício, por livrar a fazenda dos gastos com cobertura de cocho, mas, se avaliarmos friamente, o custo adicional desse tipo de produto sempre existirá e mês após mês deverá ser pago pela fazenda, ou seja, ele se torna um custo e não um investimento.

Por fim, todos os investimentos na fazenda – em um primeiro momento – podem parecer caros, mas se colocados na ponta do lápis, por vezes, representam muito pouco frente aos benefícios proporcionados. Qualquer mudança deve ser avaliada e planejada antes de ser executada. O importante é dar um passo de cada vez, levando sempre em consideração o tamanho da “perna” da sua propriedade.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

Simone Garcia

Simone Garcia

Simone Garcia é Consultora de Serviços Técnicos de bovinos de corte na Agroceres Multimix.

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