Cuidando da Cria: Nutrição seletiva no período seco - Blog da Agroceres Multimix

Cuidando da Cria: Nutrição seletiva no período seco

Na maioria das fazendas de cria, o desafio de aumentar a produção anual de bezerros, através da melhora dos índices reprodutivos, é constante e impacta diretamente na saúde financeira do negócio.

É fato que, animais bem nutridos e em boa condição corporal (ECC >3,0) respondem melhor aos protocolos reprodutivos (Figura 1). No entanto, dados levantados pelo grupo GERAR apontam que mais de 76% das vacas de cria no Brasil chegam à estação de monta com ECC igual ou menor que 3,0, resultando em baixos índices reprodutivos. A conclusão disso tudo: vaca no Brasil passa fome!

Figura 1. Prenhez na IATF por escore de condição corporal e número de animais inseminados em cada faixa de escore. Fonte: Benchmarking Gerar 2018; *Dados do Benchmarking GERAR, 2018, mais de 1.300.000 de matrizes avaliadas

Para superar esse desafio, o primeiro passo é garantir que a vaca tenha um bom escore de condição corporal ao parto (acima de 3,5, em escala de 1 a 5).

Sabemos que, multíparas que parem com escore corporal mais alto retornam à ciclicidade mais rápido pós-parto, garantindo boas taxas de concepção, mesmo com a inevitável perda de ECC que ocorre no pós-parto.

Quando analisamos as necessidades de uma vaca, observamos duas características principais que definirão o momento de atuarmos na nutrição desse animal. Estudos apontam que as exigências nutricionais para desenvolvimento fetal começam a ser significativas a partir de 3 meses de gestação, momento este que coincide ou fica próximo da desmama do bezerro lactente e na estação seca do ano (principalmente nas vacas que emprenham do meio para o final da estação de monta). Dito isto, nessa fase, se não houver reajuste da nutrição dessa matriz, ela tende a – no máximo – manter ou até mesmo perder ECC até o parto. Dessa forma, a suplementação estratégica, nesse contexto, teria duplo sentindo: aumentar o aporte de nutrientes para o desenvolvimento fetal em conjunto com a melhora do ECC da vaca.

Deixar para tratar da vaca no pré ou pós-parto (pensando em recuperar o ECC) é arriscado, uma vez que, nesses momentos, ocorre redução do consumo de matéria seca da vaca, em conjunto ao aumento da sua exigência nutricional. No pré-parto, a vaca demanda muita energia para subsidiar o maior crescimento fetal, que acontece no terço final da gestação, e no pós-parto essa energia é direcionada à lactação. Ou seja, não adianta querer recuperar o escore da vaca 60 dias antes ou depois do parto, é gasto de energia e dinheiro em vão.

Sendo assim, a alocação de recursos (humanos e financeiros) deve ser feita de forma estratégica dentro da fazenda de cria, buscando a construção do ECC a partir dos 120 a 150 dias antes do parto, ou a partir da desmama do bezerro.


Como trabalhar a nutrição seletiva no rebanho de fêmeas

Quando falamos em nutrição seletiva, estamos nos referindo à busca pela eficiência nutricional no rebanho, no qual, o objetivo é que a alocação dos recursos nutricionais seja feita da maneira mais efetiva dentro do sistema de produção.

Acreditamos que existem três métodos de se trabalhar essa estratégia na fazenda:

– Nutrição segmentada por categoria;

– Nutrição programada em função do ECC;

– Nutrição por categoria e ECC.


Nutrição segmentada por categoria:

Podemos dividir o rebanho em – pelo menos – quatro categorias principais: novilhas, primíparas, secundíparas e multíparas. Entender as características fisiológicas e exigências nutricionais de cada categoria permitirão definir as prioridades e a forma de alocação de nutrientes suplementados.

Figura 2. Resultados de prenhez e demandas energéticas nas diferentes categorias do rebanho

A figura 2 representa a realidade de várias fazendas, em termos de resultados por categoria, e, em um primeiro momento, pode nos levar à conclusão de que primíparas emprenham menos. No entanto, antes de mais nada, precisamos saber que, fisiologicamente, o organismo de uma fêmea bovina tem uma escala de prioridades nutricionais a serem atendidas e, dentro dessa escala, a parte reprodutiva é a última função a ser suprida.

Antes do organismo sinalizar ao animal que ele pode entrar em reprodução, é preciso atender todas as suas exigências de mantença, atividades motoras, crescimento e a lactação. Note que, das categorias listadas, as primíparas são a categoria que representa o maior desafio nutricional, uma vez que, diferentes das demais categorias, demandam energia para crescimento e lactação. Essas prioridades nutricionais também nos ajudam a entender por que animais com ECC abaixo de 3,0 têm baixa taxa de atividade ovariana e menor probabilidade de emprenhar.

Perceba na Figura 3 que, quando foi dada condições adequadas de nutrição (Figura 3b) e o ECC estava adequado, a taxa de prenhez das primíparas foi muito próxima, ou até superior à das multíparas. Nesse caso, não é a primípara que emprenha pouco, somos nós que não atendemos suas necessidades nutricionais.

Com a intensificação da produção e a busca por precocidade, muitas fêmeas têm emprenhado entre 12 e 15 meses de idade. Esses animais permanecerão em crescimento quando primíparas e, também, como secundíparas. Por isso, esse último grupo de animais também tem exigido atenção especial e muitas vezes deve ser enxergado da mesma forma que as primíparas.

Precisamos ficar atentos para não selecionarmos animais jovens e precoces e depois descartarmos estes por ineficiência do sistema nutricional.

Figura 3. (a) Prenhez IATF e prenhez ao final da estação de monta em primíparas vs. vacas; (b) Prenhez IATF e prenhez ao final da estação de monta em primíparas vs. vacas segmentadas por Escore de Condição Corporal; Fonte: Adaptado de Manoel Francisco de Sá Filho – Alta Genetics

Como aplicar essa técnica porteira a dentro?

A suplementação básica nas fazendas de cria é composta por sal mineral (80 a 90g de P/Kg) nas águas e sal ureado na seca. Nesse cenário, a ideia é apenas suprir os nutrientes mais limitantes nas pastagens em cada época do ano e não deixar que os animais percam peso e ECC durante a seca. Porém, esse pacote nutricional, muitas vezes, é insuficiente para se atingirem bons resultados em todas as categorias de fêmeas. Haja visto que, como já mencionado, as exigências nutricionais são divergentes dentro do rebanho.

Para desenvolver um programa nutricional adequado e que seja financeiramente viável, é necessário conhecer detalhadamente os índices reprodutivos de cada categoria, e, com base neles, definir estratégias diferentes para cada lote de animais, avaliando em conjunto o incremento produtivo necessário (taxa de desmama) para “pagar” o desembolso realizado com cada tecnologia nutricional proposta.

Exemplificando:

Uma fazenda de cria que tem taxa de prenhez média de 78% e taxa de desmame de 70% visa melhorar seus resultados. Quando estratificamos a taxa de desmame, constatamos que as novilhas têm 78%, primíparas 58%, secundíparas 67% e multíparas 71%. Logo, inferimos que a categoria que está “derrubando” o índice são as primíparas. Com base nisso, podemos traçar uma estratégia nutricional diferente para esse grupo. Como o desempenho das primíparas está bem aquém do desejado, naturalmente, elas são os animais que mais responderão a um incremento na suplementação.

Nesse caso, podemos calcular o custeio adicional proveniente da suplementação e calcular o acréscimo na taxa de desmama necessário para se pagar essa tecnologia, avaliando assim a viabilidade econômica da mesma.

 

Nutrição por ECC

Além dessa estratificação por categorias, uma outra forma de trabalhar a suplementação estratégica dentro do rebanho de cria seria pela avaliação do ECC das vacas no momento da desmama, objetivando a construção do ECC ao parto.

Para isso, no desmame dos bezerros, através da avaliação do ECC, podemos apartar dos lotes as fêmeas gestantes que apresentam ECC muito abaixo do desejado, as chamadas “fundo do lote” (exemplo: escore 2,75 abaixo).

Como já comentado, pós-desmame é o momento ideal para atuarmos de forma corretiva e assertiva com a suplementação, construindo o ECC ao parto e, de bônus, melhorando a nutrição fetal.

É uma estratégia interessante, pois foca em tratar com “remédio” somente quem realmente necessita. Com isso, tem-se grande eficiência no uso planejado da suplementação. O desembolso tende a ser menor do que na estratégia anterior, pois não se aplica a todo o rebanho ou a uma categoria de forma generalizada, o que aumenta muito a probabilidade de retornar o capital investido.

Exemplificando:

Uma fazenda apresenta índices médios de 80% de taxa de prenhez nas multíparas. Quando desdobramos esse número, percebemos que, muito provavelmente, as vacas mais bem nutridas apresentaram melhores índices do que as vacas magras, visto a importância do ECC. Desdobrando esse número, podemos falar que, por exemplo: esse índice de 80% foi oriundo de uma prenhez de 90% das vacas mais bem nutridas (70% do lote) e 57% das vacas mais magras (30% do lote). Sabendo disso, o produtor resolve tratar somente do lote do fundo, ou seja, dar remédio a quem realmente precisa e, com isso o desembolso adicional é menor do que tratar de todo o rebanho. Essa estratégia é facilmente paga por um pequeno aumento na taxa de prenhez, desse modo, sabemos que a prenhez dessas vacas magras é ruim e a chance de termos bons retornos é muito grande.


Nutrição por ECC e categoria

Essa última estratégia engloba as duas estratégias anteriormente descritas e tende a ser a mais efetiva de todas.

Sabemos que quando apartamos as fêmeas por ECC e suplementamos as mais magras, aumentamos o número de animais que chegam à estação de monta em boas condições, ciclando e aptas a emprenharem. Porém, sabemos também que, a exigência nutricional de cada categoria é diferente. Com isso, o aporte nutricional necessário para elevar o escore de uma multípara é inferior ao de uma primípara precoce que pariu aos 24 meses.

Dessa forma, o plano seria manter uma nutrição padrão na fazenda, no período seco, e ter pelo menos mais dois manejos nutricionais crescentes para as fêmeas adultas magras e para as jovens magras.

Exemplificando:

Na apartação dos bezerros, aferimos que 30% das fêmeas estão magras. Estratificando melhor: 20% são fêmeas jovens e 10% são fêmeas adultas. Separamos o lote de fêmeas adultas magras e o lote de fêmeas jovens magras. Continuaremos com o sal mineral ureado no rebanho com bom ECC. As fêmeas adultas magras serão suplementadas com um proteinado de baixo consumo (1g/KgPV) e as fêmeas jovens passarão a comer um proteico-energético (3g/kgPV). Nesse caso, a assertividade nutricional será muito maior e a elevação dos índices reprodutivos será muito considerável.


Concluindo:

Vale salientar que a estratégia a ser utilizada depende da situação de cada fazenda. Não existe receita de bolo!

Fazendas com resultados reprodutivos mais baixos tendem a responder com maior facilidade a aumentos no aporte nutricional, viabilizando o investimento. Em conjunto a essa análise, um ponto que deve ser muito bem avaliado é se a propriedade tem capacidade operacional e estrutural (divisões de pastos e cochos) para trabalhar com lotes separados e diferentes tipos de suplementação.

Em um projeto de cria bem construído, todas essas questões devem ser avaliadas, pensando sempre na evolução do sistema. Sem dúvida, a pecuária de corte é uma atividade muito competitiva, desde que seja bem planejada e executada de maneira correta, buscando sempre aumentar a eficiência do sistema e a rentabilidade do negócio.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

Mateus Coelho

Mateus Coelho

Mateus Merlo Coelho é Consultor de Serviços Técnicos de bovinos de corte na Agroceres Multimix.

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