Boas práticas na confecção e oferta de dietas completas para vacas leiteiras – Parte 1

Vacas leiteiras, com alto potencial produtivo, são altamente exigentes com relação à qualidade dos alimentos e constância na proporção de nutrientes que são ofertados. Dietas adequadamente confeccionadas contribuem para que o máximo potencial produtivo seja alcançado e estão relacionadas com maior saúde, permitindo que tais animais permaneçam produzindo por mais tempo na fazenda. Quanto maior a produção de leite, maiores são as exigências nutricionais e também a sensibilidade a variações dietéticas.

Iniciado nos Estados Unidos na década de 50, o conceito denominado total mixed ration (TMR) ou “dieta completa” foi adotado por muitas fazendas e a partir daí amplamente difundido. A TMR é um método de alimentação que combina todas as forragens, grãos, coprodutos, minerais, vitaminas e aditivos alimentares formulados, para propiciar concentração de nutrientes especificada em uma única mistura de alimentação. Essa mistura completa é então oferecida de livre escolha e deve ser o mais constante possível, ou seja, idêntica entre os diversos tratos e ao longo dos dias. Atualmente, esse é o principal método de alimentação adotado para vacas de alta produção em confinamento na maioria dos países com destaque na produção de leite. De forma prática, o objetivo é fazer com que a dieta ingerida pelo animal seja a mais próximo possível da dieta preparada pelo tratador, e formulada previamente no computador.

Algumas das principais vantagens da TMR são:

  • Menores variações na proporção de nutrientes ingeridos. Nesse sentido, cada refeição feita pelo animal permite a ingestão balanceada de nutrientes, resultando na estabilidade das condições de fermentação e manutenção de pH ruminal, possibilitando maior crescimento de microorganismos ruminais;
  • Menor efeito negativo da baixa aceitação pelos animais sobre alguns alimentos, como: a uréia, calcário e sabões de cálcio. Além disso, o uso da TMR pode melhorar a operacionalização e a eficiência do uso da mão de obra empregada na rotina de alimentação;
  • Maior otimização do trabalho de preparo e distribuição dos alimentos, reduzindo custos com mão de obra e aumentando a rapidez com que a comida é disponibilizada aos animais;
  • Potenciais aumentos no teor de gordura do leite e outros componentes do leite, devido a melhor fermentação do rúmen e ao equilíbrio dos nutrientes que estão sendo consumidos. Potenciais aumentos da produção de leite podem variar de 1 a 2,5 kg de leite, comparado à oferta de alimentos separados.

Dados americanos de auditorias do processo de confecção de TMRs nas fazendas demonstram que 70% das TMR analisadas apresentaram problemas de mistura e consistência. Um experimento realizado em 22 fazendas comerciais do Canadá em 2014 verificou que a variabilidade na composição de ingredientes da TMR afeta o consumo de matéria seca, produção de leite e eficiência energética, já na variação na composição de nutrientes ocorreu aumento na produção de leite de 1,2 kg/dia. Portanto, a inconsistência nas dietas completas é um problema sério e, provavelmente, presente em grande parte das fazendas. A boa notícia é que muitas das causas dessa inconsistência são manipuláveis por parte do produtor ou nutricionista.

O primeiro passo é descobrir se existe um problema, monitorando a variabilidade na TMR. O método mais utilizado para isso é o Separador de Partícula da Penn State (SPPS). As amostras da TMR da mesma batida devem ser coletadas ao longo de todo o(s) cocho(s) em que aquela batida foi distribuída, em intervalos aproximadamente equidistantes, normalmente entre 6 a 12 amostras com quantidades entre 600 a 1000 gramas. O número de amostras são definidas em função do comprimento do cocho. As amostras devem ser coletadas logo após a distribuição, e antes do animal ter acesso a dieta. Cada um dos dez pontos amostrados deve ser o mais representativo possível daquele local coletado e deve ser passado individualmente na SPPS. A proporção de material retida em cada peneira é utilizada para determinação do coeficiente de variação (CV) entre as amostras coletadas.

O coeficiente de variação é uma variável estatística utilizada como medida de dispersão e é obtido pela razão entre o desvio-padrão e a média. A amostra retida na peneira de cima (19 mm) não é utilizada para determinação do CV, pois como a quantidade retida nessa peneira é pequena, a variação tende a ser, naturalmente, muito grande. Condições de mistura excelentes apresentam CV de 1 a 4%, enquanto CV de 5 a 8% estão dentro da faixa considerada como aceitáveis. CV acima de 10% indica algum problema na mistura, que pode estar relacionado a diversos fatores que serão discutidos a seguir.

Outras formas de monitoramento também podem ser adicionalmente empregadas, como uso de peneiras para grãos e envio de amostras para análises bromatológicas, mas o separador de partículas da Penn State (SPPS) é, sem dúvida, a ferramenta mais prática para se utilizar com frequência na propriedade. Quando um problema é detectado, as causas devem ser investigadas, avaliando-se os fatores que podem causar inconsistência na dieta completa.

Teor de matéria seca (MS): Uma importante fonte de variação que afeta a composição da TMR é o teor de MS dos ingredientes úmidos (ex: silagens, pre-secados de aveia, resíduos de cervejaria, grão úmido de milho). Essas variações podem ser decorrentes de diferentes partidas de ingredientes comprados ou das diferentes forragens produzidas na fazenda, que podem ter sido plantadas em datas diferentes, mas colhidas e ensiladas conjuntamente. Como as dietas são formuladas com base na MS e os ingredientes são adicionados à batida em matéria natural, monitorar o teor de MS dos ingredientes é essencial para que a dieta oferecida ao animal seja o mais próximo possível da dieta formulada. Toda fazenda deve ter um medidor de MS que pode ser do tipo Koster, microondas, miniestufas, dentre outros. O ideal é que o teor de matéria seca dos ingredientes úmidos seja realizado no mínimo uma vez por semana e também após a abertura de um novo silo. Normalmente, correções devem ser realizadas quando a variação no teor de matéria seca for superior a 5%. Variações no teor de MS de alimentos de alta inclusão na dieta, como silagens, podem acarretar diversos problemas. Por exemplo, se uma dieta é formulada com uma certa quantidade de silagem de milho a 34% de MS, mas na semana seguinte a silagem está com 38% de MS, a proporção de silagem de milho na TMR, com base na MS, será maior do que o formulado. Assim, a capacidade de consumo pode ser menor do que o esperado, os nutrientes fornecidos aos animais estarão diluídos e as sobras alimentares verificadas serão altas. Por outro lado, se o teor de MS da silagem de milho mudar para 30%, a quantidade de MS dessa forragem fornecida ao animal será menor do que o formulado, o que pode causar deficiência de fibra e excesso de concentrados, além de provocar acidose ruminal. Em ambas as situações, o balanço de nutrientes da dieta foi alterado em relação ao formulado, afetando diretamente a performance do animal.

Tamanho de partícula da dieta: As vacas de leite, como todo ruminante, têm exigência nutricional de fibras para manter o rúmen funcionando. Parte dessa fibra deve conter tamanho de partículas adequado para promover mastigação, salivação, e atividade ruminal. Essa fração da fibra é denominada “fibra fisicamente efetiva” e a falta dela na dieta reduz a motilidade do rúmen, a atividade mastigatória, diminui a gordura no leite e aumenta o risco de acidose ruminal, que pode comprometer a produtividade e a longevidade de vacas leiteiras. Por outro lado, tamanho de partículas excessivo pode comprometer a compactação do silo, diminuir o consumo e facilitar a seleção de partículas menores pelos animais, alterando a proporção de ingredientes ingeridos. A cada duas semanas, bem como após a abertura de um novo silo ou adição de um novo ingrediente na dieta, o tamanho de partícula da TMR deve ser avaliado. Essa avaliação também é feita com o conjunto de peneiras SPPS. Embora diversos fatores podem afetar essa recomendação, de modo geral, é desejável que 6 a 10% das partículas da TMR fiquem retidos na peneira de cima (19 mm); 45 a 55% retidos na peneira do meio (8 mm), e 35 a 45% de partículas se acumulem na peneira de baixo (< que 8mm). Estes valores foram determinados com o objetivo de se alcançar os teores mínimos de fibra fisicamente efetiva entre 15 e 18% da MS da dieta. Caso a proporção de partículas retidas nas peneiras de 8 e 19 mm sejam inferiores ao mencionado, é recomendada a adição de uma fonte de fibra longa na dieta como fenos e pré-secados de capim. Importante lembrar que dietas úmidas Secar a amostra antes de averiguar o tamanho de partícula em dietas que possuem ingredientes úmidos como grão úmido, milho reidratado, resíduo de cervejaria, dentre outros, devem ricas em resíduos úmidos

Manejo do painel do silo: Quanto maior a uniformidade com que a silagem é retirada do painel (face do silo), menor a variação na composição química da forragem em diferentes pontos do painel, principalmente em silos de maiores dimensões. O painel pode apresentar variações no teor de matéria seca, de nutrientes, e no perfil fermentativo, devido a vários fatores. Além disso, quanto maior o tamanho do silo, maior é a probabilidade de ensilar forragens com diferentes características (áreas de plantio diferentes, teor de matéria seca diferentes, adubações diferentes). Além disso, o grau de compactação e acúmulo de ácidos orgânicos nas partes superior e inferior do painel pode variar. Outro ponto importante é que, todos os dias a face do silo é exposta e submetida a deterioração aeróbia pelo contato com o ar. Por isso, a recomendação é que se tire de 15 a 30 cm diários do painel do silo e que a retirada seja feita de forma vertical, mantendo o painel o mais uniforme e compactado possível. Após a retirada do material, o ideal é que se misture a pilha de silagem retirada, com a pá carregadeira, algumas vezes antes de carregá-la no vagão. Para se ter uma idéia do efeito dessa prática, a variação no teor de proteína bruta de uma silagem de alfafa em 10 amostras foi reduzida de 7 para 2.5 pontos percentuais quando as amostras foram retiradas no painel do silo ou no monte de silagem após a mistura com a pá carregadeira, respectivamente.

Ingredientes líquidos também podem ser adicionados à dieta e, quando bem manipulados, reduzem a seleção da dieta consumida pelo animal. É importante que os líquidos (como: melaço, rafinete, glicerina, óleos) sejam adicionados por último no vagão e distribuídos de forma equilibrada, de preferência com uma mangueira ou um aplicador (ao invés de um balde derramado em um ponto específico do vagão). Quando alimentos líquidos são adicionados de maneira imprópria, os efeitos são opostos e a consistência da TMR piora, assim como a seleção pelos animais aumenta.

Clique aqui e confira a segunda parte.

 Nutrição Animal – Agroceres Multimix

Gilson Sebastião

Gilson Sebastião

Gilson é Gestor Técnico de Bovinos de Leite na Agroceres Multimix

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