Leite e Integração: Dietas formuladas, analisadas e adequadas

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Dietas de vacas: Especialista em nutrição de vacas leiteiras e professor titular da UFLA responde perguntas sobre os diferentes tipos de dietas que são ofertadas aos animais

A nutrição animal é um dos principais pilares da produção de gado leiteiro e fator que influencia vigorosamente nos gastos das fazendas. A oferta de grão, restrições alimentares e os objetivos de produção são pontos que demandam atenção e precisam ser frequentemente alinhados na propriedade.

Para ajudar a entender um pouco mais sobre esses e outros assuntos inerentes à nutrição de vacas leiteiras, a Agroceres Multimix convidou o professor titular da Universidade Federal de Lavras (UFLA), Marcos Neves Pereira, a participar de uma entrevista com perguntas incisivas sobre formulação de dietas de vacas e fornecimento de nutrientes aos animais.

Nós perguntamos e o professor Marcos respondeu:

Quais parâmetros nutricionais você considera fundamental, como forma de monitorar a lucratividade das fazendas leiteiras?

O relacionamento entre nutrição e lucratividade é mensurável pela renda bruta subtraída do custo alimentar (IOFC = Income over feed cost = Leite x R$/litro – CMS x R$/kg). Esse valor lida com a produção, a composição do leite e o valor da produção, subtraído do consumo de matéria seca e multiplicado pelo custo por kg de matéria seca da dieta. No mesmo rebanho, vacas de maior produção sempre têm IOFC maior que vacas de baixa produção, mesmo tendo maior custo alimentar por animal por dia. O IOFC representa o valor disponível por vaca para retirada do lucro e para o pagamento dos custos não alimentares. Não acho que existe um parâmetro nutricional único que esteja sempre correlacionado com lucratividade. Vou citar um exemplo: normalmente, dietas de vacas com alta inclusão de forragens têm baixo custo por kg de matéria seca. Entretanto, se a fazenda não tem forragem suficiente e precisa comprar forrageiras; ou o custo de produção da forragem não é baixo relativamente ao custo de subprodutos fibrosos; ou a dieta de alta forragem penaliza o IOFC por reduzir leite por vaca, a opção mais lucrativa pode ser com baixa inclusão de forragens na dieta.


Considerando que silagem de milho é a forragem mais utilizada na maioria dos sistemas de produção de leite do Brasil, nesse sentido, que parâmetros relacionados ao processamento dessa forragem você considera determinante para produção de leite? Como monitorá-los? Quais valores poderíamos considerar como desejáveis?

Em silagem de milho é importante monitorar os processamentos dos grãos (amido) e da fibra. Busca-se silagem com fibra longa para promover saúde ruminal e longevidade do animal (FDN fisicamente efetivo), e ao mesmo tempo com grãos muito processados para aumentar a digestibilidade do amido no rúmen e no trato digestivo total (energia). O Separador de Partículas da Penn State (SPPS) tem sido utilizado para monitorar o tamanho de partícula da fibra. Metas plausíveis de FDN longo diferem de acordo com a colhedora de forragem adotada. Metas plausíveis são: < 30% da matéria natural da silagem menor que 8 mm, em caso de colhedora propelida por trator sem rolos processadores de grãos (Cracker) e; < 20% para colhedoras com cracker (automotriz ou tracionada por trator). Fazendas que trabalham buscando minimizar esse parâmetro conseguem menos que 25% da silagem menor que 8 mm em máquinas sem cracker e menor que 15% em máquinas com cracker. Esses valores são válidos quando associados a dano adequado de grãos. O dano de grãos pode ser monitorado de forma simples pela contagem de grãos intactos por 500 g de silagem. Uma meta plausível é obter < 10 grãos inteiros/500 g de silagem, sendo possível obter zero. Também podem ser separados visualmente da parte vegetativa da silagem ou de grãos avaliados isoladamente, utilizando a técnica de flotação. Laboratorialmente o dano de grãos pode ser mensurado pela técnica de KPS (Kernel Processing Score), que mensura a proporção do amido na silagem não retido em peneira com crivo retangular de 4,75 mm. A meta é obter KPS acima de 75%, e processamento ruim seria KPS abaixo de 50%.


Qual nível mínimo e máximo de amido que você considera importante em dietas de vacas leiteiras? Por que?

O teor de amido nas dietas de vacas leiteiras normalmente varia de 20 a 30% da matéria seca. Valores ao redor de 25% são comuns em rebanhos confinados, adotando silagem de milho como forragem principal. É importante definir a degradabilidade ruminal do amido. Ter 25% de amido com alta proporção oriundo de grãos de milho inteiros, maduros e vítreos não é o mesmo que 25% oriundo de grãos bem processados, imaturos e farináceos. A degradabilidade ruminal do amido pode ser estimada usando modelo de 1 pool [Amido total x kd / (kd + kp)] ou 2 pools (Amido A + Amido B x kd / (kd + kp)]. Para definir o teor adequado de amido é necessário conhecer o tamanho de partícula da FDN. Para trabalhar com amido alto é necessário ter fibra longa. Tenho usado a relação entre o teor de FDN > 8 mm e o teor de amido degradável no rúmen (estimado por modelo de 1 pool) para direcionar carboidratos fibrosos e não fibrosos nas dietas de vacas. Valores acima de 1 para essa relação parecem ser adequados. Amido define a síntese de proteína microbiana no rúmen, o fluxo de ácidos graxos voláteis para o animal (energia) e a incidência de acidose ruminal.


Quais as vantagens da utilização de milho grão úmido e milho grão reidratado em dietas de vacas leiteiras?

Os dois alimentos são formas de armazenamento de grãos na fazenda a baixo custo e com pouca perda, e também são capazes de aumentar a digestibilidade do amido no rúmen por degradação de prolaminas do endosperma durante o armazenamento como silagem, o que reduz a necessidade de milho (amido) por litro de leite produzido. Vantagens da silagem de grão úmido (colhido no estágio de maturação de linha negra), seriam a colheita mais precoce, que pode ser benéfica quando se objetiva implantar uma sucessão de culturas na área, e a colheita rápida devido ao processamento grosseiro dos grãos. Desvantagens, seriam a existência de uma janela de colheita, a necessidade de maquinário capaz de colher milho com alto teor de umidade e a moagem grosseira que pode penalizar a digestão do amido caso o grão seja colhido excessivamente maduro. A silagem de milho reidratado elimina a janela de colheita (o milho é ensilado no estágio maduro de maturação) e permite a compra do grão e moagem fina (necessário para sorgo). Ambas as formas de armazenamento e processamento reduzem a necessidade de energia e de mão de obra para moagem de grãos na fazenda.


É cada vez mais comum o uso de fontes de gordura em dietas de vacas de alta produção. Nessa linha de pensamento, quais categorias deveriam ser priorizadas e que tipo de gordura suplementar seria indicado para cada categoria?

De uma maneira geral, fontes de gordura ricas em ácidos graxos insaturados (linoleico e linolênico) são utilizadas para atuar como promotores de saúde e eficiência reprodutiva para vacas, antes do parto e no pós-parto imediato, enquanto fontes de gordura saturada são utilizadas como fonte de energia – normalmente – para vacas com mais de 21 dias em lactação. Gordura excessiva, imediatamente após o parto, pode deprimir o consumo de matéria seca. Gordura de soja e de milho são ricas em ácido linoleico (18:2), linhaça é uma fonte rica em linolênico (18:3) e palma é uma fonte de gordura saturada (ácido palmítico 16:0) e oleico (18:1). Gorduras de origem animal (sebo, óleo de peixe) são proibidas no Brasil. Caroço de algodão inteiro, soja integral (crua ou tostada) com processamento grosseiro e sais de cálcio de ácidos graxos são fontes de gordura muito utilizadas, apesar da maior fonte de gordura insaturada nas dietas de vacas leiteiras normalmente ser o óleo de milho na forragem e nos grãos.


Que parâmetros nutricionais devem ser levados em consideração em dietas de vacas no período pré-parto?

No período pré-parto é importante monitorar a inclusão de forragem na dieta. Dietas de vacas de pré-parto normalmente têm de 60 a 70% de forragem (o que resulta em consumo de 3 a 4 kg de concentrado por vaca por dia). Nessa fase, alguns trabalhos também sugerem que pode ocorrer vantagem em adotar dietas com maior teor de proteína (15 a 17% da matéria seca), visando compensar a queda fisiológica no consumo de matéria seca, imediatamente antes do parto, fase na qual o animal tem alta demanda nutricional devido à secreção de colostro e crescimento fetal acentuado. Nesse período, deve-se também monitorar os teores de minerais na dieta, visando promover o consumo de uma dieta que não induza alcalose metabólica. O uso de sais aniônicos (cloretos e sulfatos), antes do parto, é uma forma de induzir uma acidose metabólica compensada e reduzir a incidência de hipocalcemia. Os minerais que devem ser monitorados com esse intuito, são: K, Na, Ca, P, Mn, S, e Cl. Nutrientes com ação antioxidante, como selênio e vitamina E, também são importantes nessa fase. O teor de energia da dieta também pode ser manipulado. A estratégia de baixa energia, pré-parto, pode ser obtida por inclusão de alguma forrageira de baixa digestibilidade na dieta (como palhas), visando reduzir a ingestão de energia sem induzir competição exagerada no cocho (que ocorreria por oferta de dieta convencional em quantidade restrita). Baixa energia pré-parto pode ser adotada como forma de controle de distúrbios metabólicos em torno do parto, para obter ganho em eficiência reprodutiva e produção vitalícia do animal, mas pode reduzir a produção de leite no pico da lactação e por lactação. Vários aditivos também são utilizados especificamente no período pré-parto, visando melhorar a função ruminal (ex.: leveduras), o controle da hipocalcemia (ex.: calcidiol) e a função hepática (ex.: colina, metionina). A estratégia a ser adotada é uma decisão do nutricionista.


Quais as doenças ou distúrbios metabólicos podem ser mais determinantes na longevidade e produção de vacas leiteiras? E como monitorá-las?

Os principais distúrbios metabólicos danosos ao animal são a hipocalcemia (clínica e subclínica), a cetose (que se inicia com fígado gorduroso) e a acidose ruminal. A hipocalcemia pode ser monitorada pela dosagem de cálcio no sangue, normalmente nas primeiras 24 horas após o parto. A incidência de hipocalcemia clínica (febre vitular) e retenção de placenta também devem ser avaliadas como medida da prevalência de hipocalcemia no rebanho. A mensuração do pH da urina antes do parto é uma estratégia para monitorar a inclusão de sais aniônicos nas dietas de vacas, como uma forma de controle da hipocalcemia. A prevalência de cetose pode ser monitorada pela mensuração de beta-OH-butirato (BHB) no início da lactação. O BHB pode ser mensurado no sangue ou no leite. A relação entre o teor de gordura e o teor de proteína no leite no primeiro controle leiteiro pós-parto (até 45 dias de lactação) também é uma medida indireta da prevalência de cetose no rebanho. Excessiva mobilização de gordura corporal após o parto (normalmente resultado de vacas com excesso de condição corporal ou qualquer distúrbio que cause queda no consumo de matéria seca) resultará em leite com alto teor de gordura no pós-parto, o que é indesejável nessa fase da lactação. O monitoramento do escore de condição corporal ao parto é uma forma efetiva de controle de distúrbios metabólicos em torno do parto. Para controlar acidose ruminal a principal prática é garantir o adequado tamanho de partícula da dieta, relativamente ao suprimento de amido degradável no rúmen e evitar manejos nutricionais que concentrem a alimentação em curto espaço de tempo (ex.: ração na sala de ordenha, dieta não disponível continuamente), ambos capazes de causar acúmulo de ácidos graxos voláteis e queda no pH ruminal.


O que é mais efetivo para melhorar o conforto das vacas em lactação?

Área de repouso macia e limpa e ventilação/aspersão na linha de cocho, camas e curral de espera. Apenas sombra não vai prover conforto suficiente para uma vaca leiteira em ambiente quente. Ambiência adequada para vacas em lactação a pasto é um grande desafio. Qualquer estratégia que induza a formação de barro na área de repouso (ex.: sombra de árvore) pode induzir sujidade de úbere, baixa qualidade microbiana do leite e alta incidência de mastite ambiental no rebanho.

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Qual o parâmetro que se usa hoje para mensuração de fibra efetiva e qual o nível de fibra efetiva recomendado para vacas de alta produção?

Tenho usado FDN maior que 8 mm. Valor ideal acima de 19% da matéria seca para dietas de vacas com alta inclusão de silagem de milho. Fazendas com vacas longevas, alta eficiência reprodutiva e leite com alto teor de sólidos têm 21 a 23% da matéria seca de FDN > 8 mm. Importante não ultrapassar a capacidade de consumo de FDN como % do peso vivo, para não causar queda no consumo por enchimento do trato digestivo por fibra. Esse fator pode ser monitorado avaliando a FDN oriunda de forragem como % do peso vivo ou a FDN > 8 mm como % do peso vivo. Esses valores – normalmente – ficam entre 0,8 a 1% do peso vivo. Valores altos (até 1,2% do peso vivo) podem ser adotados quando se tem forragem de altíssima digestibilidade de fibra, e valores mais baixos (0,8% do peso vivo) podem ser mais adequados quando a forragem não é de alta qualidade. Alguma medida laboratorial da digestibilidade da fibra (ex.: TTNDFD) pode ser utilizada para auxiliar nessa tomada de decisão. O teor adequado de FDN fisicamente efetivo também deve considerar o teor de amido degradável no rúmen na dieta. Meta é manter FDN > 8 mm / amido degradável no rúmen acima de 1.


O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), publicou através da portaria n° 171 informações relacionadas a restrições futuras ao uso de antibióticos promotores de crescimento animal. “O uso dos antimicrobianos tilosina, lincomicina, virginiamicina, bacitracina e tiamulina, com a finalidade de aditivos melhoradores de desempenho em animais produtores de alimentos será proibido”. Qual seu posicionamento sobre a portaria e quais são as nossas alternativas, caso essa proibição se estenda para outros aditivos, como a
monensina, por exemplo?

A proibição de aditivos alimentares baseados em antibióticos é uma demanda mundial dos consumidores de produtos de origem animal. A nutrição animal tem que se adequar, mesmo sem a existência de comprovação científica que esses aditivos causem danos à saúde humana. Eventuais substitutos serão produtos reconhecidamente seguros na visão do consumidor, como óleos essenciais e produtos de leveduras, por exemplo. Entretanto, será difícil substituir esses antibióticos manipuladores da digestão, em sua ação controladora da acidose ruminal, nas ricas em concentrado e os produtos “naturais” têm outros modos de ação sistêmicos benéficos ao animal, além da ação sobre o sistema digestivo. Esses mecanismos de ação adicionais (ex.: imunidade, termorregulação) devem ser considerados ao se cogitar a substituição de aditivos baseados em antibióticos, por aqueles mais coerentes à tendência naturalista dos consumidores.

 Nutrição Animal – Agroceres Multimix

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