Minerais e elementos potencialmente tóxicos em silagem de milho

0
443

Vamos falar de nutrição mineral para ruminantes, evidenciando alguns aspectos relacionados aos países de climas tropical e subtropical

Trabalho desenvolvido pelo Centro de Pesquisa em Forragicultura (CPFOR), coordenado pelo Prof. Dr. Patrick Schmidt da Universidade Federal do Paraná (UFPR), buscou avaliar e trazer resultados quanto a composição mineral das silagens de milho produzidas em quatro Estados do Brasil: Goiás, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina. Dessa forma, o trabalho teve o intuito de fazer algumas reflexões sobre nutrição ideal – ou nutrição de alta precisão – na fazenda e atender a futuras demandas de produção de leite.

Os pesquisadores analisaram 31 diferentes elementos minerais, incluído os mais importantes na alimentação dos ruminantes. Nenhum elemento alcançou a concentração máxima tolerável, mas as concentrações de Ca (0,14-0,15%), Cu (3,4-5,6 mg/kg), P (0,13-0,16%), S (0,06-0,08%) e Zn (13-19 mg/kg) estavam abaixo da concentração adequada para um bom equilíbrio nutricional. Desse modo, os minerais da silagem de milho devem ser considerados na formulação de dietas balanceadas para bovinos, assim como devemos garantir – como técnicos e produtores – a qualidade da silagem.


Os elementos minerais identificados nas silagens

As técnicas de conservação de forragens são fundamentais para aumentar a taxa de lotação e o desempenho dos animais, principalmente durante a estação seca e fria. A silagem de milho tem sido – de longe – a principal forragem conservada para gado leiteiro no Brasil, devido ao seu alto rendimento, qualidade e aceitabilidade. O Brasil cresce aproximadamente 4 milhões de hectares de milho para produção de silagem a cada ano, sendo produzida em todas as regiões do País. A produção de silagens bem preservadas, e de alta qualidade, depende principalmente da composição da forragem, no momento da ensilagem e na aplicação de práticas apropriadas de produção de silagem.

Para saber mais, acesse:

Os parâmetros de qualidade das silagens podem mostrar qual nutriente precisa ser aprimorado, além de permitir que nutricionistas e pecuaristas possam balancear adequadamente as dietas. Torna-se ainda mais importante, pois a forragem compõe mais da metade da ingestão diária de matéria seca (MS) das vacas. Apesar da importância, faltam informações sobre a composição mineral da silagem de milho produzida no Brasil, com a maioria dos estudos focando aspectos bioquímicos, produção de matéria seca e presença de micotoxinas.

Além disso, as concentrações de nutrientes das plantas de milho resultam do nível tecnológico aplicado pelo produtor e pela evolução do desenvolvimento da planta. Como a silagem é a principal fonte de energia e fibra para o gado leiteiro no Brasil, avaliar a composição mineral é importante para a compreensão e contribuições dessa forragem para o balanço mineral em dietas para bovinos leiteiros.

Dos 31 elementos analisados, 21 foram efetivamente detectados e quantificados (Figura 1, Tabelas 1-5). Deste conjunto, 11 nutrientes foram determinados neste estudo. Não foi possível analisar para Cl; e as concentrações de Na estavam abaixo dos limites de detecção; concentrações de outros macronutrientes (Ca, Mg, P, K e S) podem ser vistos na Figura 1.

Figura 1 – Concentrações de 21 elementos na silagem de milho de quatro estados do Brasil: Goiás (GO; n = 14), Minas Gerais (MG; n = 20), Paraná (PR; n = 19) e Santa Catarina (SC; n = 20)

Tabela 1 – Concentração mineral média de silagens de milho brasileiras – resumo da necessidade nutricionais para vacas em transição e lactação e composição mineral da silagem de milho na base da matéria seca (MS), de acordo com o NRC (2001)

Fonte: Adaptado de Motta et al., 2020.

As concentrações dos elementos (Cd, Cs, Cu, Mn, Mo, P, S, Sr, Ti, V e Zn) variaram em aproximadamente 50%, de acordo com o Estado de origem, e as maiores concentrações foram observadas nos Estados do PR e SC.


Um olhar clínico nas silagens

Pelo menos 17 minerais são exigidos para bovinos de leite no National Research Council (NRC, 2001). Os micronutrientes necessários são: Cr, Co, Cu, Fe, Mn, Mo, Ni, Se e Zn. Todos esses elementos apresentaram concentrações médias abaixo dos valores exigidos, listado pelo NRC (2001). As concentrações medidas de Ca, K, Mg, P e S, foram: 54, 78, 82, 58 e 50% de valores de referência, respectivamente.

TABELA 2. Análise descritiva da composição mineral da silagem de milho amostrada em Minas Gerais, Brasil

Fonte: Adaptado de Motta et al., 2020.

TABELA 3. Análise descritiva da composição mineral da silagem de milho amostrada em Goiás, Brasil

Fonte: Adaptado de Motta et al., 2020.

TABELA 4. Análise descritiva da composição mineral da silagem de milho amostrada no Paraná, Brasil.

Fonte: Adaptado de Motta et al., 2020.

TABELA 5. Análise descritiva da composição mineral da silagem de milho amostrada em Santa Catarina, Brasil.

Fonte: Adaptado de Motta et al., 2020.

As concentrações de Cu, Mn e Zn, foram: 67, 94 e 67% dos valores de referência, respectivamente. Contudo, a concentração de Fe foi mais de três vezes à referência (346%). Comparando com os bancos de dados de nutrientes do Dairy One Forage Laboratory (Ithaca, NY) para silagem de milho, a concentração de Mo encontrada na silagem brasileira é cerca de três vezes menor que o valor médio das amostras dos Estados Unidos (Dairy One, 2020). Entre, potencialmente tóxicos e elementos traços – incluindo Ag, Al, As, Cd, Cs, Pb etc. -, concentrações acima da toxicidade (NRC, 2001) não foram detectados, o que é um aspecto bastante positivo.

A silagem pode fornecer até 9, 34, 23, 12 e 15% das respectivas exigências diárias de Ca, K, Mg, P e S para uma vaca leiteira hipotética, comendo 26 kg de MS por dia, composta por 40% de silagem de milho (10,4 kg de MS). Para microminerais, a média das silagens de milho pode fornecer até 13, 847, 80 e 11% das respectivas exigências para Cu, Fe, Mn e Zn.

De forma geral, raramente dá-se a devida importância às análises minerais das forragens, da mesma maneira que se preconiza as análises dos compostos orgânicos. Como as análises de minerais das forrageiras, geralmente, não são realizadas, em muitos casos, os teores podem estar sendo superestimados, ao formular as rações usando valores do NRC. Por outro lado, muitas vezes, as contribuições minerais da silagem não são consideradas, ou considerada apenas os macrominerais. De fato, não é incomum que as dietas sejam suplementadas com quantidades traços de alguns elementos e que negligenciam a concentração já presente na dieta basal. Um desbalanço de minerais pode levar a aumentos de custos e poluição ambiental.

O milho parece ter capacidade de absorver e acumular nutrientes, independentemente de condições externas, como tipo de solo e condições climáticas. As concentrações de Cs, Cu, Mn, Mo, P, S, Sr, Ti, V e Zn variaram de acordo com o Estado de origem. Os Estados do Paraná e Santa Catarina apresentaram as maiores concentrações da maioria dos elementos. Nestes Estados, os laticínios e a produção leiteira estão localizados em regiões com solos predominantemente derivados de basalto, o que pode explicar a maior biodisponibilidade de elementos para absorção de plantas.

Alguns elementos não são necessários e podem causar toxicidade em bovinos. Embora não exista nenhuma concentração mínima para esses elementos, existem concentrações máximas toleráveis ​​que representam limites acima dos quais resíduos inseguros podem ser encontrados em alimentos para humanos, derivados de animais. As concentrações médias de Al, B, Ba, Cd, Pb, Sr e V encontradas nessas amostras de silagem podem ser consideradas seguras para animais.

Embora a concentração de Fe nas silagens seja alta, a média ficou abaixo do valor máximo tolerável de concentração. O ferro é frequentemente encontrado em dietas para ruminantes e os animais exibem considerável tolerância a esse elemento, suportando a ingestão de 1000 mg de Fe /kg de MS (NRC, 2001). Entretanto, o alto Fe na silagem induz à deficiência de Cu em vacas em lactação, o que pode ser agravado pelas baixas concentrações de Cu que foram observadas nas análises. De acordo com as exigências nutricionais de gado de corte (NRC, 2000), a maioria das forragens contém de 70 a 500 mg/kg de Fe. A contaminação da silagem pelo solo é a mais provável explicação para altas concentrações de Fe. Futuras investigações devem considerar que o tecido intestinal pode tolerar longos períodos de sobrecarga do ferro ferroso e; se a atividade de microrganismos patogênicos se altera nessas condições.

À luz das considerações acima, a silagem pode ser uma fonte de muitos nutrientes minerais. Essas informações podem ser críticas para otimizar o balanceamento de alimentação de alta precisão na fazenda e atender a futuras demandas de produção de leite.

Para evitar danos à silagem e diminuir as perdas de MS, a aplicação de terra sobre a lona plástica após o fechamento do silo é uma prática difundida em fazendas leiteiras brasileiras. No entanto, a prática pode aumentar o risco de contaminação da silagem pelo solo. Essa contaminação na silagem já é bem conhecida, sendo ocasionada por três causas principais:

– Solo do campo em material vegetal colhido;
– Pneus de tratores e veículos carregando solo durante o processo de ensilagem;
– Contaminação durante a alimentação.

Em geral, o Fe presente nos solos está nas formas insolúveis, com baixa capacidade de absorção. No entanto, os ácidos produzidos por microrganismos durante a fermentação da silagem mudam significativamente a dinâmica química do Fe na mistura solo-silagem. Sob tais circunstâncias, o Fe ligado ao solo sofre redução (da forma férrica para ferrosa), o que aumenta a biodisponibilidade.

 

Considerações finais

  • Embora a silagem de milho seja uma importante fonte mineral, a composição mineral foi altamente variável, uma vez que existe uma grande variação entre solos e condições climáticas;
  • As altas concentrações de Fe detectadas sugerem a ocorrência de contaminação por solo nas silagens de milho dessas regiões produtoras de leite;
  • As regiões amostradas estão entre os locais mais produtivos em leite no Brasil; no entanto, reconhecemos que nosso conjunto amostral (n = 73) não é suficiente para cobrir toda a variabilidade esperada para a condição brasileira. Entretanto, as análises minerais de forragens no Brasil são escassas, e o manuscrito inova por abordar esse problema.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix


Texto na integra está em:

Motta, A. C. V.; Araujo, E. M.; Broadley, M. R.; Young, S. D.; Barbosa, J. Z.;Prior, S. A. and Schmidt, P. 2020. Minerals and potentially toxic elements in corn silage from tropical and subtropical Brazil. Revista Brasileira de Zootecnia 49:e20190214. https://doi.org/10.37496/rbz4920190214

Disponível em <https://www.scielo.br/pdf/rbz/v49/1806-9290-rbz-49-e20190214.pdf>

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Resolva a conta abaixo *OBRIGATÓRIO