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Nutrição associada ao bem-estar animal: uma necessidade

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A Agroceres Multimix destina mais de R$10 milhões para o desenvolvimento de novos produtos, validação e qualificação de insumos e aditivos, aperfeiçoamento das matrizes nutricionais, além de estudos de manejos e equipamentos em seu Núcleo de Tecnologia e Inovação.

Para tanto, mais de 1,3 milhão de animais, entre aves, bovinos e suínos, participaram de experimentos nas estruturas de pesquisa, resultando em importantes avanços para o setor.

Olhando apenas os suínos, nos últimos 10 anos foram mais de 150 mil animais utilizados, distribuídos em mais de 200 experimentos concluídos. Os números são expressivos e, dado o volume de projetos executados, há uma preocupação quanto à condução e bem-estar dos animais envolvidos.

O bem-estar é tema de preocupação constante no setor, não só pelo olhar da sociedade frente à produção de alimentos saudáveis, mas também por sua relação com os indicadores zootécnicos e econômicos do sistema de produção.

Suínos em boas condições de bem-estar são mais saudáveis e produtivos. Por conta disso, o tema é multifatorial, ou seja, estabelece conexões com praticamente todas as áreas da produção de suínos.

 

  1. Comissão de Ética na Experimentação Animal

As normas e as legislações sobre bem-estar animal são complexas, permanecem em constante evolução e ganham novos adeptos, que se preocupam com a qualidade de vida dos animais. Nos últimos anos, a Comunidade Europeia editou diversas normas, estabelecendo padrões mínimos de bem-estar para os animais de produção (Dias; Silva; Manteca, 2015), com base na ação humanitária preventiva, e estabelecendo critérios mínimos de alojamento e manejo adequados (Lundmark; Berg; Röcklinsberg, 2018). Nesse contexto, a Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) é a única entidade oficial responsável pela elaboração de normas relacionadas ao tema.

No Brasil, dentre inúmeras funções, o órgão que auxilia na formulação de normas para utilização humanitária de animais com finalidade de ensino e pesquisa é o Conselho Nacional de Controle Experimentação Animal, o CONCEA, que integra o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), sendo uma instância colegiada multidisciplinar de caráter normativo, consultivo, deliberativo e recursal. Ainda, o CONCEA pode estabelecer procedimentos para a instalação e funcionamento de centros de criação, biotérios e laboratórios.

Em 2014, a Agroceres Multimix foi uma das primeiras empresas de nutrição a se credenciarem ao CONCEA. A preocupação em integrar-se a um órgão que estabelece o bom funcionamento de centros de experimentação animal vai de encontro ao DNA Agroceres – uma empresa de pesquisa, em que a tecnologia está aliada ao conhecimento acadêmico e científico, preconizando pelo aprimoramento das recomendações nutricionais sob as diretrizes do bem-estar animal.

A ética deixou de ser apenas uma questão moral dos indivíduos para ser ação indispensável, corporativa, se tratando do uso de animais em pesquisa. O monitoramento das atividades é feito pela Comissão de Ética de Uso de animais (CEUA-AGMMX), que, de acordo com o artigo 10, parágrafo II da Resolução Normativa nº 51, de 19 de maio de 2021, devem ser integradas por médicos veterinários, biólogos, pesquisadores e representantes de sociedades protetoras de animais legalmente constituídas e estabelecidas no País. Os membros possuem capacitação em legislação, ética, bem-estar animal, estatística, anestesia e analgesia e biossegurança, bem como a etologia e biologia da espécie.

Os animais são os beneficiados diretos pelas pesquisas científicas visto que a saúde, o bem-estar e a segurança também dependem das pesquisas e a pesquisa é necessária para a evolução das melhores formas de se produzir animais.

Independente do segmento do seu negócio, se você contribui para o agronegócio com a produção de alimentos utilizando pesquisas com animais, é hora de pensar em formar uma comissão de ética.

 

  1. Como mensurar o bem-estar animal?

Existem situações em que é fácil a percepção se um animal possui o seu bem-estar prejudicado, a exemplo, quando apresenta sinais evidentes de doenças ou ferimentos, ou quando está debilitado. Entretanto, há situações não tão simples, por exemplo, quando padece com doenças ou algum tipo de deficiência sem sinais clínicos aparentes. Dada essa dificuldade, é recomendado realizar a avaliação do bem-estar animal sempre com a utilização de métodos objetivos e validados.

Dentre as estratégias disponíveis para a avaliação do bem-estar de suínos, o “Modelo de 5 domínios” (Mellor e Reid, 1994) e os protocolos propostos pelo Projeto Welfare Quality® (Botreau et al., 2009) merecem discussão.

O primeiro prevê a combinação de diversos elementos presentes nos cinco domínios, permitindo a avaliação de forma integrada ou isolada de cada um dos elementos, identificando quais deles tem potencial em colocar o bem-estar de um animal em risco e suas consequências (Figura 1).

 

Figura 1. Os cinco domínios do bem-estar animal. Fonte: Adaptado de Paranhos & Ribas (2020).

 

Já o Welfare Quality® está embasado por indicadores pré-definidos, orientados por “4 princípios e 12 critérios”, previamente validados. Diferente do modelo dos “5 domínios”, não há muita flexibilidade para definição dos indicadores, podendo apenas ponderar se a medida faz algum sentido, principalmente a situação em que a avaliação está sendo aplicada (Figura 2).

 

Figura 2. Princípios e critérios para porcas e leitões segundo Welfare Quality®  Fonte: Adaptado de Paranhos & Ribas (2020).

 

Vale salientar que, seja lá qual for o método de avaliação aplicado, é importante certificar-se que cada uma das medidas indicadores de bem-estar animal esteja bem fundamentada e validada cientificamente. É necessário verificar o grau de dificuldade de aplicação para evitar avaliações subestimadas ou superestimadas, gerando um diagnóstico errôneo. Uma boa avaliação deve utilizar vários tipos de indicadores, sendo que a maioria deles deve ter como base medidas tomadas nos próprios animais.

 

  1. Bem-estar animal e sua implicação na nutrição de suínos

A conscientização sobre o bem-estar animal na produção de suínos motiva a adoção de boas práticas como meio de se conquistar mercados mais exigentes e reduzir as perdas econômicas decorrentes de falhas de manejo e inadequações de instalações e equipamentos, que resultam em sofrimento dos animais e aumento dos problemas de qualidade da carne (Paranhos da Costa et al., 2020; Ribas, 2022).

A nutrição desempenha papel importante no planejamento e elaboração deste bem-estar. É através dela que as necessidades básicas dos animais são atendidas, sem causar deficiências nutricionais clínicas ou subclínicas e sem provocar intoxicações, aumentando, assim, a resistência às doenças. Aliada ao conceito de bem-estar animal, a nutrição deve assegurar o aporte adequado de nutrientes para a manutenção normal, independente da fase de criação que o animal se encontra.

 

  • Bem-estar na fase de gestação

Decorrente da vigorosa seleção genética à qual as matrizes suínas foram submetidas ao longo das décadas, visando uma alta produtividade e prolificidade (Quesnel et al., 2008; Kirkden et al., 2013; Muns et al., 2016), a eficiência reprodutiva na cadeia suinícola tem crescido expressivamente. Essa evolução é representada pelo número de leitões desmamados/matriz/ano: em 2022, o Brasil registrou 29,52 leitões desmamados/fêmea/ano, aumento de 4,09 leitões.

No entanto, se observa a campo um alto número de leitões nascidos e crescente variabilidade no peso. Nesse sentido, os nutricionistas deverão atuar cada vez mais buscando melhorias e, consequentemente, minimizando os efeitos durante a gestação.

O uso de determinados aditivos e/ou ingredientes, em diferentes momentos no período de gestação, pode auxiliar nesse aspecto. Tradicionalmente reconhecido no mercado, a Agroceres Multimix detém a especialidade Flavorad RP, desenvolvida para melhorar o desempenho reprodutivo de fêmeas gestantes.

Recentemente, os achados observados em parceria com o ICB/UFMG (Alkmin, 2024) evidenciaram que o uso do produto em todo período gestacional, se comparado ao grupo controle, ou seja, dieta à base de milho e farelo de soja, proporciona maior número de nascidos vivos e peso ao nascimento dos leitões. Isso foi observado quando fornecido o Flavorad RP por 60 dias de gestação.

Isso significa que, independentemente do tempo de fornecimento, se a matriz recebeu o produto, são observados benefícios nestas variáveis. Os ganhos reprodutivos foram expressos em dietas baseadas na exigência nutricional da categoria, ou seja, não houve excesso ou falta de nutrientes.

Do ponto de vista de bem-estar, o olhar para essa categoria é muito importante, pois, quanto mais a fêmea puder expressar o seu comportamento natural associado aos ganhos reprodutivos, menores são as chances de ocorrência de estereotipias e eventos estressantes durante o período de gestação.

Mensurar o bem-estar é uma tarefa complicada, uma vez que a avaliação não envolve somente o âmbito nutricional, mas o manejo e o ambiente ao qual se encontram. É essencial que as cinco liberdades garantam que o animal esteja livre de fome e sede, de desconforto, dor, ferimentos e doenças, livre de medo e estresse e poder expressar seu comportamento natural (Paranhos & Ribas, 2020).

 

  • Bem-estar na fase de creche

O desmame é um período crítico na vida dos leitões, principalmente quando possuem três a quatro semanas de idade. O fato de serem separados da mãe, mudarem a alimentação de líquida para sólida, serem trocados de ambiente e misturados com outros lotes e, ainda, a perda de imunidade passiva enquanto ainda estão desenvolvendo a imunidade ativa, induz grande estresse nos leitões com reflexos negativos em seu desempenho.

Nesta fase, o trato gastrointestinal dos leitões não está completamente desenvolvido. Assim, é essencial que o epitélio intestinal permaneça intacto para garantir a absorção e o transporte de nutrientes, água e eletrólitos (Balbinotti, et al. 2023).

Um dos principais desafios do desmame é o consumo de alimento, no caso ração, que é naturalmente baixo nessa fase da vida dos leitões. Nos dias seguintes ao desmame é comum verificar perda de peso, com consequências do extremo quadro de deficiência energética a que ficam sujeitos. Por isso, após o evento não é incomum identificar a predileção pelo consumo de água se comparado ao de ração sólida (Thacker et al., 2001).

Os leitões recém-desmamados só ingerem água nas primeiras 24 horas, portanto, fornecer suplementos nutricionais durante este período é mais benéfico se administrado através da água do que ração (Hwang et al. 2016; Balbinotti et al., 2023).

Diante da quantidade ingerida de água não ser suficiente para manter a níveis adequados o fluido corporal, favorecendo a desidratação, tem-se a especialidade Hydrax, um repositor eletrolítico com aporte energético de rápida absorção. O produto favorece a reposição de líquidos a partir da maior absorção e retenção de água e, consequente restauração do balanço eletrolítico a níveis normais.

O Hydrax pode ser fornecido desde a maternidade e até três dias após o desmame, em cochinhos acessórios com abastecimento manual; bebedouros com diluição na caixa d’água e, ainda, no preparo de papinhas. Importante salientar que o repositor não substitui a água de bebida, ou seja, os leitões também deverão ter acesso à água de bebida.

Estratégias nutricionais como parte de uma abordagem multifatorial, o uso de repositores eletrolíticos pode contribuir para minimizar o estresse do desmame, apoiando a saúde e o bem-estar dos leitões e, consequentemente, efeitos positivos sobre o desempenho dos leitões.

 

  • Bem-estar na fase de recria e terminação

Atualmente, pesquisas e investigações estão em curso buscando alternativas para a redução do uso de antimicrobianos na produção de suínos, ou alternativas para redução do uso indiscriminado de antibióticos.

O uso racional dos antimicrobianos na produção animal melhora a segurança dos alimentos e gera retorno produtivo ao suinocultor bem como redução sobre a excreção no meio ambiente. A Organização Mundial da Saúde Animal (WOAH) desenvolveu o conceito de One Welfare, ou seja, um só bem-estar, englobando o bem-estar do animal, dos colaboradores e do ambiente onde estão inseridos. Tal conceito correlaciona-se com as boas práticas de criação para uma geração futura mais saudável e sustentável. Logo, animais criados nessas boas práticas têm suas necessidades comportamentais, ambientais e fisiológicas supridas e, por conseguinte, menos estressados e suscetíveis a doenças, necessitando cada vez menos de antimicrobianos.

O uso excessivo de antimicrobianos tem despertado preocupações, sobretudo no Brasil, onde ainda algumas granjas utilizam de forma desordenada. Se considerarmos as fases de recria e terminação, na região central do estado de Minas Gerais tem-se 70,61% ou 922.823,98 mg do uso de antimicrobianos e o fator preocupante é o uso prolongado, excedendo o tempo de uso conforme a bula (Oliveira et al., 2024 – in press). A regulamentação imposta pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), através da Portaria nº798/2023, é mais uma medida para mitigar o uso excessivo de antimicrobianos.

Neste contexto, alguns aditivos se destacam, entre eles os óleos essenciais, prebióticos, probióticos e ácidos orgânicos. A maior parte tem demonstrado resultados positivos para enfermidades e desafios relacionados às funções intestinais, atuando no controle de diarreias, melhorando o aproveitamento dos nutrientes e modulação da microbiota intestinal.

Em um mundo em que moléculas eficazes contra doenças estão cada vez mais raras e as bactérias se multiplicam exponencialmente, todos devem buscar alternativas para assegurar uma produção mais saudável. A exemplo disso, a linha agFit foi um conjunto de especialidades desenvolvidos como alternativas ao uso de antibióticos como melhoradores de desempenho, visando melhoria de qualidade intestinal, desempenho e imunidade.

Baseada em probióticos, prebióticos, extratos vegetais, óleos essenciais e ácidos orgânicos para cada desafio, há uma especialidade a ser recomendada. O agFit Essential proporciona ganhos em conversão alimentar baseado em ações microbianas, anti-inflamatórias e antioxidantes.  Já o agFit Max evidencia melhorias no consumo e ganho de peso e efeitos benéficos ao sistema imune. Para tanto, tem-se o agFit Symbios, um produto pensado na modulação da microbiota intestinal e redução de bactérias patogênicas.

Diversas estratégias nutricionais podem auxiliar na manutenção da saúde intestinal, minimizando a dependência da utilização dos antimicrobianos.

 

Considerações finais

O bem-estar animal é uma preocupação atual e necessária na cadeia de produção de suínos. A busca incessante dos consumidores por produtos que ofereçam segurança alimentar tem despertado atenção por parte das instituições de pesquisas, públicas ou privadas, em aliar ciência e o modelo animal na obtenção de resultados e/ou produtos adequados para o consumo.

Nesse sentido, é de responsabilidade de todoscorpo técnico e operacional –, o desenvolvimento de estratégias que promovam o bem-estar animal sem comprometer os ganhos zootécnicos.

Os ensaios realizados para obtenção dos resultados supracitados são oriundos de uma série de processos. O mais importante deles é a deliberação de todos os procedimentos de cada experimento pela Comissão de Ética, um crivo importante e rigoroso que, além de garantir que a geração de informações úteis ao mercado é realizada de maneira segura e ética para os animais, eleva a qualidade do que é gerado, ao impedir que soluções não compatíveis com o bem-estar sejam aplicadas. E a rigor, isto reforça o entendimento de que não há produtividade sem atendimento a práticas de bem-estar animal.

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