A nova onda da cria

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Explorar a precocidade das novilhas evidencia a nova onda de fazendas de corte que enxergam oportunidade naquilo que outrora havia sido um obstáculo

Não é de hoje que se fala em antecipar a idade das novilhas entrarem em reprodução, encurtando o período até a entrega do primeiro bezerro para a fazenda.

O que no passado parecia uma ousadia, nos dias atuais, falar em emprenhar novilhas Nelore aos 14 meses de idade, já não soa mais tão estranho. No campo, já não é mais difícil encontrarmos fazendas operando nesse sentido, com projetos pecuários bem estruturados e com bons índices reprodutivos.

Além do desafio de emprenhar aos 14 meses, projetos de intensificação em fazendas de cria, no passado, frustravam frente ao investimento feito na recria das novilhas e a não prenhez de parte do rebanho, que acabava ficando na fazenda e entrava no ciclo reprodutivo no ano seguinte. O sistema visto dessa forma, onerava demais a intensificação. Outro ponto negativo era o desafio de emprenhar de novo: no ano seguinte teríamos as novilhas que emprenharam aos 14 meses e agora são primíparas.

De acordo com nosso gestor técnico de bovinos de corte, Matheus Moretti, investir na cria pode parecer caro, o que na verdade, para ele, caro é demorar para produzir. “Imagine emprenhar uma novilha somente aos 24 meses, somando mais 9 meses de gestação e mais 7 meses até o desmame; estamos falando de 40 meses até a primeira venda. Acho que podemos entender o que realmente acaba saindo caro”, explica. “Hoje já temos estratégias consolidadas e sabemos como fazer para emprenhar esses animais aos 14 meses, a pergunta que fica é: por que esperar?”, questiona Moretti.

É fato que os requisitos para a adoção da estratégia de intensificação da cria são complexos e apenas as fazendas mais preparadas, com perfil empreendedor, conseguem trabalhar com a precocidade. Preconizar por precocidade, antes de qualquer coisa, demanda uma análise porteira adentro, avaliando números e resultados reprodutivos.

De acordo com Moretti, existem alguns indicativos que mostram se uma fazenda está preparada para iniciar um projeto de superprecoces. “Devemos olhar os índices reprodutivos das primíparas de novilhas de 24 meses. Essa é uma categoria desafiadora e precisamos, primeiro, dominá-la para depois pensar em projetos de precoces, isso porquê a primípara de uma novilha de 14 meses será mais desafiadora ainda e, nesse sentido, não podemos prezar por precocidade e depois descartar um animal por problemas do sistema de produção”, comenta o gestor.  Outro ponto que deve ser olhado, segundo o gestor, é a distribuição dos nascimentos, pois este terá correlação direta com a definição das metas de ganho de peso necessária para chegar com o animal apto para reprodução aos 14 meses. “Sabemos que animais nascidos no cedo desmamam mais pesados, e ao desmamarem mais pesados chegarão mais fácil ao peso-alvo. Eu pensaria em ter, pelo menos, 40 a 50% dos animais nascidos nos primeiros meses de estação de parição, mas claro que cada caso é um caso e devemos avaliar pontualmente”, explica Moretti.


Calculando a necessidade de ganho de peso

Em relação à produtividade, sabemos que essas fêmeas precisarão estar com, pelo menos, 280 kg no início do protocolo de indução. A partir disso, voltamos à conta para avaliar a necessidade de ganho médio diário (GMD) para a novilha atingir esse peso. Se, por exemplo, o peso à desmama for de 180 kg, será preciso colocar mais 100 kg nesses animais. A pergunta que surge é a seguinte: quanto tempo será necessário para ganhar todo esse peso?

“Para isso, olhamos o mês do desmame e o mês de início do protocolo. Animais desmamados em maio/junho com previsão de serem protocolados em janeiro, por exemplo, estamos falando algo em torno de 150 dias, que para uma meta de ganho de 100 kg nos leva a um GMD de 670 g/dia. É desafiador, eu sei, mas se bem planejado pode ser executado e totalmente factível”, responde o gestor. Ainda, visualizar o “tamanho” do desafio produtivo é a primeira etapa para a definição da proposta nutricional.

Vale ressaltar que tem sido preconizado entrar com essa categoria – novilhas precoces – no final da estação. Importante lembrar também que: protocolos de indução de cio têm contribuído positivamente com o resultado obtido na IATF (Inseminação Artificial em Tempo Fixo) em novilhas precoces.

Abaixo, é possível conferir uma simples matriz capaz de auxiliar o produtor a calcular a meta de GMD necessário, para que seus animais atinjam, pelo menos, 280 kg no início da estação. Um bom planejamento, deve ainda contemplar as condições do pasto durante esse período, ajustando a estratégia à qualidade da forragem, tomando sempre o cuidado de não acelerar demais em uma fase e depois desacelerar na fase seguinte.

1Peso a desmama = 180kg; 2Peso meta = 280kg’

Note que, os lotes “candidatos” a serem desafiados são os nascidos e desmamados no cedo. Animais desmamados mais tarde e/ou muito leves, apresentaram metas de GMD muito altas, encarecendo (ou até inviabilizando) o processo.


Avaliando a estrutura da propriedade

Uma vez definido a meta de ganho de peso, é indispensável avaliar os recursos disponíveis. Temos as propriedades com a recria dessas novilhas em confinamento e outras em sistema a pasto.

O conhecido “sequestro” ou recria no cocho, adotado em confinamentos, demanda, por exemplo, os mesmos cuidados com a rotina que se tem em um confinamento convencional. Nesse caso, a diferença está na quantidade de volumoso da dieta.

Com a preocupação de fazer esse animal crescer, devemos evitar um ritmo muito acelerado de ganho para não acabar engordando essas fêmeas. Sendo assim, é possível, por exemplo, trabalhar com dietas entre 70 a 80% de volumoso, uma boa fonte proteica e energética e um núcleo de qualidade.

Já no sistema a pasto, o nível de planejamento deve ser ainda maior, visto a necessidade de ter oferta da forragem no período pós desmama. Dependendo da necessidade de GMD e da qualidade do pasto é possível trabalhar com uma suplementação proteica e energética, fornecida na quantidade de 0,3 a 0,5% do peso vivo do animal. Nesse caso, o produtor precisa ter área de cocho suficiente para os animais e considerar que a distribuição do suplemento será diária. “Já temos alguns clientes trabalhando em projetos mais intensivos, fornecendo uma ração especial que desenvolvemos, como modulação de consumo, em que é possível tratar os animais apenas 2 a 3 vezes na semana, visto que seu consumo é autorregulável”, compartilha Moretti.

Independente da estratégia adotada na seca, nas águas esses animais precisam ter planos nutricionais que permitam a manutenção da taxa de crescimento.


Mercadoria nobre

Antigamente, projetos de novilhas precoces, emprenhando aos 14 meses, eram muito questionados quanto sua viabilidade econômica. Normalmente, o produtor tratava dos animais que seriam desafiados aos 14 meses, porém, as fêmeas não prenhas, ficavam na fazenda para ser desafiadas novamente aos 24 meses. “Segurar esses animais é o que acaba comprometendo o processo e torna caro o custo de bezerros nascidos de fêmeas precoces, uma vez que é ele quem paga toda a conta”, indaga Moretti.

Segundo o gestor, hoje o cenário mudou. O mercado de novilhas para o abate está aquecido, o que muda todo o jogo. “Alguns de nossos clientes tem conseguido preço de macho, ou até macho mais bonificação, o que muda toda a ótica da avaliação do projeto”. Nesse contexto, o GMD obtido durante a recria “paga” a conta da intensificação, visto que, se não emprenhar, colocamos mais 4 ou 5 arrobas nesses animais e temos uma mercadoria nobre para ser comercializada.


Cuidado com o futuro das novilhas

Um outro ponto crucial que Moretti chama atenção são os cuidados necessários com as novilhas pós-prenhez, quando estes animais se tornarão primíparas. “Se por uma lado temos as novilhas demandando nutrientes para crescer e entrar em reprodução; e por outro as vacas, que têm exigência para produzir leite e entrar em reprodução; no meio do caminho temos as primíparas, que ainda estão crescendo, porém também são lactantes, o que as tornam a categoria de maior exigência dentro da fazenda. Isso explica o porquê normalmente temos nessa categoria os piores índices reprodutivos. Infelizmente, depois da primeira prenhez, muitos pecuaristas tratam esse animal como vaca, o que acaba sendo um “tiro no pé””, contesta o gestor.

Nesse sentido, da mesma forma que foi trabalhado na recria das novilhas, devem ser estabelecidos protocolos nutricionais para as primíparas, visto que elas ainda estão em crescimento e demandarão atenção especial.

A parte positiva é que: da mesma forma que as novilhas, esses animais estão ganhando peso, ou seja, se não emprenharem podem seguir para o abate, viabilizando o projeto.

Moretti encerra afirmando: “O pecuarista deve tomar muito cuidado para não selecionar animais precoces e acabar descartando estes por falhas nutricionais, nesse caso a falha não foi do animal, foi da fazenda”.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

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