Turbinando a engorda na seca

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terminação intensiva

Terminação intensiva: TIP permite sustentar altas lotações/ha nesse período e abater animais com 21@ aos 24 meses, utilizando estrutura operacional simples e acessível.

 

Versátil e prática, a terminação intensiva a pasto pode ser adotada o ano inteiro, mas, nesta edição do Projeto TIP em Foco, vamos falar especificamente de seu uso na seca, quando muitos produtores no Brasil acabam vendendo parte dos animais como “bois magros”. Se usassem a TIP, poderiam engordá-los a pasto, aumentando sua produtividade e, consequentemente, seu resultado financeiro. Fazendas bem estruturadas já conseguem lucrar mais de R$ 1.000/ha/ano com o sistema. Para isso, investem em pastagens, base da TIP. “Apesar de fornecermos o equivalente a 2% do peso vivo dos bovinos em ração, precisamos ter pasto. Na seca, a baixa qualidade do capim em proteína e energia, faz dele uma ótima fonte de fibra para manutenção da saúde ruminal. Hoje, já temos conhecimento gerado a partir de pesquisas da Apta-Colina mostrando que a lotação praticada na TIP tem relação direta com o consumo de ração, sendo este um ponto a ser avaliado em função do cenário econômico de cada região”, salienta Matheus Moretti, gestor técnico de bovinos de corte da Agroceres Multimix.

Para se fazer a terminação intensiva a pasto na seca é preciso planejar bem a operação, vedando o capim no final das águas durante pelo menos 30 dias e, se possível, adubando a área. “Essas medidas são fundamentais para se conseguir a lotação projetada”, diz Moretti. Na Fazenda Jumari III, pertencente à Jumari Agropecuária Ltda e localizada em Ipiaçu, próximo a Ituiutaba, MG, os piquetes destinados à TIP sustentam 6,2 cab/ha durante o ciclo de seca. No cocho, eles recebem entre 1,8% e 2% do peso vivo em ração, nível semelhante ao fornecido no confinamento. Moretti faz questão de ressaltar que os dois sistemas não são excludentes. A Jumari Agropecuária (que faz recria/engorda, adquirindo animais de terceiros) utiliza ambos para produzir 6.000 bois gordos por ano. Os animais vão para abate com 20-21@/cab aos 24 meses, independentemente do sistema usado. A produtividade já supera 70@/ha/ano.

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“A silagem de grão úmido nos permite aproveitar melhor a energia do milho”, diz o gestor técnico da Agroceres Multimix, Matheus Moretti, na foto com o gerente da Jumari, Ronis Silva (à esq.)

Salto de produtividade

A empresa possui quatro propriedades na região. A Jumari III é a maior delas, com 1.257 ha. Tem histórico de pecuária extensiva, mas, há seis anos, passou por forte reformulação, visando aumentar o número de animais abatidos. Em 2014, ganhou um confinamento, com capacidade estática para 1.800 cabeças; depois, veio a lavoura, que possibilitou reformar pastagens degradadas. “Esbarrando na dificuldade de ampliar o confinamento, decidimos testar a TIP (terminação intensiva a pasto) como alternativa de engorda, inicialmente apenas na seca, mas depois também nas águas”, conta Ronis Aparecido da Silva, gerente da Jumari. Dos 480 ha de pastagens da propriedade, 138 ha já são explorados de forma intensiva (58 ha com terminação intensiva a pasto e 80 ha com recria de ciclo curto). Outros 376 ha são destinados à agricultura, sendo 196 irrigados por pivôs, o que possibilita obter três safras por ano (uma de soja e duas de milho para silagem ou grão). Nos 180 ha de sequeiro, planta-se soja no verão e milho consorciado com capim na safrinha.

A ração da terminação intensiva a pasto contém milho moído, silagem de grão úmido, farelo de soja, ureia e núcleo enriquecido com aditivos. Os ingredientes não mudam ao longo do ano; o que varia é a participação de cada um na formulação. Durante a seca, o capim perde qualidade e é preciso, por exemplo, ajustar as fontes proteicas, visando níveis de PB na dieta em torno de 15% a 17%. A oferta de forragem também cai nesse período, exigindo redução na lotação. Para se definir a quantidade de animais alojados, é preciso manter um olho no pasto e outro no mercado. “Se a arroba estiver valorizada e os grãos baratos, pode-se aumentar a quantidade de ração para até 2,2% do peso vivo e trabalhar com lotações maiores. Se o preço da arroba estiver baixo e os grãos caros, é melhor reduzir a lotação e ajustar o trato para 1,5% a 1,8% do PV, visando equilibrar as contas”, explica Moretti.

Na região de Ituiutaba, MG, o preço do milho é relativamente alto, por isso a Jumari Agropecuária optou por aproveitar ao máximo a energia contida no cereal, fazendo silagem de grão úmido, que pode substituir o milho seco em até 60% do milho na dieta. “Tem-se mais trabalho para misturar o insumo todo dia, mas vale a pena”, acrescenta Moretti. A Jumari III deverá ensilar de 70.000 a 80.000 sacas de grãos úmidos neste ano, além de 6.000 t de silagem de planta inteira, usada no confinamento.

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Técnicas de trato

Na terminação intensiva a pasto (TIP), durante a seca, a ração é fornecida apenas uma vez por dia. Nas águas, são feitos dois tratos, pois os cochos dos piquetes mais antigos não são cobertos. “Dá para tratar mais vezes nesse período, porque a área de TIP é próxima da sede, mas, nos módulos novos, que ficam mais distantes, estamos construindo estruturas com cobertura ampla e cochos largos, para receber maior quantidade de ração e podermos fazer apenas um trato diário”, explica Ronis. Da mesma forma que no confinamento, é preciso adaptar os animais à ração. “Começamos fornecendo 1% do peso vivo e vamos aumentando 0,25 ponto percentual a cada quatro dias até chegar a 2%, após 16 dias”, informa o gerente. Pode-se trabalhar, na terminação intensiva, com fornecimento controlado ou à vontade, estratégia usada principalmente em regiões onde os grãos são mais baratos. “Na Jumari III, fornecemos 2% do peso vivo dos animais em ração e fazemos o ajuste semanal da quantidade fornecida, projetando o ganho médio diário esperado para os animais”, explica Moretti.

A Jumari III tem conseguido fazer 3 giros de TIP por ano, com duração de 90 a 100 dias. O primeiro, de seca, começa em meados de maio ou início de junho e vai até agosto/princípios de setembro. “É fundamental seguir a programação à risca, para que o final desse giro não coincida com o período de transição da seca para as águas, quando as gramíneas forrageiras começam a rebrotar. A tendência dos animais é buscar esse capim novo e deixar a ração de lado, o que resulta em queda de consumo e perda de peso justamente quando eles mais precisam de energia na  terminação intensiva. Para piorar, o broto tem alta digestibilidade, o que provoca diarreia. Isso precisa ser evitado”, orienta Matheus Moretti. A programação da Jumari é encerrar o primeiro giro pelo menos 20 dias antes de começar a chover. Os piquetes ficam, então, em repouso e, após as primeiras chuvas, são adubados para acelerar a saída do capim. “Caso o produtor precise usar a área nessa fase de transição, que sejam alojados animais em início, não em final de ciclo”, alerta.

O segundo giro de engorda começa normalmente em novembro e termina em fins de janeiro, sendo seguido por um terceiro, entre fevereiro e abril. Na sequência, a área é novamente preparada para um próximo giro de seca. “Normalmente, aplicamos 60 kg de N/ha em abril/maio e 40 kg/ha no início das águas (setembro/outubro). Se necessário, também fazemos uma adubação estratégica entre o segundo e o terceiro giros”, diz o gerente Ronis Silva, ressaltando que, evidentemente, o sistema não funciona como um reloginho, tudo depende do clima e do peso de entrada dos animais. “Como trabalhamos com boi e capim, podem surgir imprevistos. Em alguns anos, conseguimos fazer três giros completos; em outros, não”, diz. A meta da Jumari Agropecuária é intensificar a recria (modelo que abordaremos em outra oportunidade) e instalar mais módulos de terminação intensiva, para terminar 12.000 bois por ano.

Indicadores zootécnicos da TIP de seca na Jumari III

2017

2018

Geral

Seca

Seca

Seca

Início

Maio/Junho

Abr/Maio

Abr/Maio/Jun/Jul

Abate

Set/Out

Ago/Set

Ago/Set/Out/Nov

Lotação (cab/ha)

5,7

5,5

5,2

GMD (kg/cab/dia)

1,71

1,45

1,58

GMC (kg/cab/dia)

1,16

1,00

1,08

Rend. Ganho (%)

68,58

70,05

69,14

Rend. Carcaça (%)

55,6

55,5

55,5

Consumo (% do PV)

1,69

1,78

1,73

Peso inicial (@)

13,74

13,37

13,59

Peso abate (@)

22,29

21,13

21,76

Duração (dias)

111

117

114

Produção @/ha

48,7

42,7

42,5

Ferramenta de intensificação

O produtor Ricardo Alves Loto, de Jaciara, MT, é outro adepto incondicional da TIP. Há cinco anos, ele utiliza o sistema, na Fazenda Nossa Senhora Aparecida, que tem 3.000 ha e faz recria/engorda. Parte dos animais é de produção própria, vindos de outra propriedade de cria da família, e parte é adquirida no mercado. São terminados cerca de 5.000 machos e 800 fêmeas por ano, a maior parte na TIP. “A terminação intensiva a pasto é fantástica, pois exige menor investimento em instalações, tem menor custo operacional, usa uma dieta mais simples e facilita a adaptação dos animais, mas ela exige área, então, chega-se, em algum momento, a um limite”, diz Loto, que, no ano passado, decidiu montar um pequeno confinamento, com capacidade para 600 cabeças, para não perder área de recria. “Os dois sistemas de engorda se complementam”, garante.

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Ricardo Loto, do MT, multiplicou produção com a TIP

O produtor destinou 278 ha à TIP, divididos em piquetes de 14 ha, com lotação de 5 bois/ha, na seca. Nas águas, a carga sobe para 8 cab/ha. A propriedade já atingiu um nível elevado de intensificação, mas quando foi adquirida pela família, em 2009, fazia apenas recria/engorda tradicional, abatendo 3.000 cab/ano. “Hoje, são 5.800, entre machos e fêmeas, quase o dobro”, ressalta Loto. Para atingir esse resultado, foi preciso intensificar parte dos 1.445 ha de recria. “Montamos alguns módulos de pastejo rotacionado, para aumentar a lotação, e suplementamos os animais com proteinado durante a seca, na proporção de 0,2% do peso vivo”, diz. Os bezerros são adquiridos com 10-12 meses e recriados por um ano, para que possam entrar na TIP com 400 kg. “Já trabalhamos com animais mais leves, mas o resultado não foi satisfatório”, assegura.

Ricardo Loto também faz um trato na seca e dois nas águas. Após a adaptação de 15 dias, quando os animais já estão consumindo 2% do peso vivo em ração, ele começa a fazer leitura de cocho, usando três notas ou escores (0, 1 e 2). “Gosto de ter maior controle sobre o fornecimento”, diz. No trato, usa dois vagões misturadores/distribuidores próprios para terminação intensiva, com balança, para registro das quantidades distribuídas. O primeiro giro tem início em abril, após vedação e adubação do capim, com 50 kg de N/ha, no mês de março. O produtor também procura tirar os animais da área antes do início das chuvas, para evitar que pastejem a brotação.

A ração fornecida na terminação intensiva leva milho moído, farelo de soja, casquinha de soja, caroço ou torta de algodão, dependendo do preço de mercado. terminação intensivaO ganho de peso tem sido de 1,3 kg/cab/dia. “Uma pessoa faz todo o serviço, desde a fábrica até o trato e limpeza de cochos/bebedouros. É muito prático”, garante Loto, que está abatendo os machos com 21-22/@, com rendimento de 55%-56%. “A terminação intensiva a pasto é realmente ferramenta capaz de incrementar a produtividade”, arremata o produtor. Para saber mais sobre a terminação intensiva a pasto na seca, click no QR Code e assista o filme sobre a técnica, que inclusive tem se mostrado excelente estratégia para engorda de vacas de descarte.

Autora: Maristela Franco, editora chefe da Revista DBO.

Nutrição Animal – Agroceres Multimix

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